Sixties Synths: o pop electrónico nos anos 60

Sixties Synths: a pop electrónica nos anos 60

A face oculta do catálogo deixado pelos historiadores da música

Contrariando impressões ingénuas, a década de 1960 transcendeu consideravelmente o catálogo deixado pelos historiadores da música. Se o clima de liberdade concedido em razão dos movimentos civis, revolução sexual e contracultura foram suficientes para engendrar estéticas como acid rock, folk music e consolidar o bebop que movimentou toda a geração de beatniks sobreviventes dos excessos cometidos na década predecessora, no lado oposto aos grandes festivais de rock um catálogo de músicos emergia do underground, trazendo consigo uma nova versão para uma mesma história sobre os anos 60.

Silver Apples – Duo nova-iorquino responsável pelos primeiros diálogos do rock com a música electrónica. Entre os artistas influenciados por sua música, estão Beck e Geoff Barrow

Pouco afeitos às guitarras eléctricas, estes músicos preferiram os sintetizadores, instrumentos que lhes assegurariam a tradução da pop através da música electrónica. Fortemente influenciados pela cultura de massas, a primeira geração da pop electrónico assimilou elementos do camp, pop art e da cultura hype da época para popularizar um novo género musical. Se a compreensão sobre a música electrónica, até então, reduzia-se a experimentações ligadas à produção erudita, somente uma inclinação contrária permitiria ao público dirigir a sua atenção a grupos cujo interesse musical se distanciava das escolas de formação especializadas na música electroacústica, localizadas nas cidades de Paris e Colónia.

Se a Clarah Rockmore as experimentações com teremim corresponderam a uma nova direcção nos rumos da música de vanguarda, personagens como Jean Jacques Perrey preferiram o contacto imediato com o público, imprimindo registos urbanos e populares em composições carregadas por atmosferas futuristas. Distante dos usos abusivos que definiram a utilização dos sintetizadores por grupos de música progressiva como The Nice, Emerson, Lake and Palmer – a que a atenção dos estudiosos da música eletrónica costuma geralmente reduzir-se – e Yes, a geração electrónica dos anos 60 sinalizou usos artesanais dos brinquedinhos de Robert Moog e Raymond Scott, uma atitude que demonstra o desejo de revisar conceitos, garantindo às produções uma ruptura com as escolas de formação, mas acima de tudo apropria-se dos instrumentos de modo a tornar legítima a sua função, num ambiente dominado pela efusão das guitarras.

Perrey and Kingsley – Seguindo uma linha pouco usual para a época, o duo formado por Jacques Perrey e Gershon Kingley foi responsável pela popularização dos sintetizadores comerciais

Uma nova paisagem musical firmava-se, então, num campo sonoro monopolizado pelas escalas diatónicas. A década que antes assistiu à ascensão lunar de Louis Armstrong e viu nascer o chip mostrava-se, enfim, inclinada às técnicas de síntese, modulação e distorção de fases dos sintetizadores, transformando estruturalmente a composição popular num manifesto experimental. A produção electrónica na década de 60, porém, não constituiu um movimento. Localizados em diferentes países, os seus realizadores tinham em comum o desejo de revolucionar a música popular, facto que por si só já demonstra a inevitável coincidência de ideias que os unia.

Compreender um trajecto tão lacunar como a que construíram os historiadores da música electrónica é um esforço que, não só demanda um interesse de ordem estratégica, mas uma crítica à organização das suas metodologias. Ao considerarmos o género de um ponto de vista retrospectivo, acedemos a camadas conceptuais essenciais para compreender desgastes nos seus subgéneros, questionarmos experiências vanguardistas e reiterarmos a função da pesquisa como acção fundamental para construção de uma memória do género. Intimamente vinculada a emergências estéticas da cultura de massas, a década de 60 oferece o mais seguro ponto de partida para reconhecer os desdobramentos ocorridos na música electrónica, uma vez que abraça uma diversidade de produções que, mais tarde, serão reorganizadas sob tags como disco, synth pop, electro e híbridos cujas setas sempre indicarão uma origem. Que sempre soará como uma ambígua reprise.

Dick Hyman – Conhecido pela versatilidade, o músico norte-americano já realizou diversas bandas sonoras para filmes de Woody Allen, mas o seu maior mérito foi unir jazz e música electrónica, tal qual fariam os ingleses Portishead, décadas mais tarde

Plynio Nava é jornalista e pesquisador de géneros musicais. Apresenta o programa Sampler, na Rádio Universidade FM.



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