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Slam Lx #4

Como correu a 4ª noite de Poetry Slam no Musicbox, Cais do Sodré?

O Slam Lx número 4 correu bem e vai nas horas! Já estão abertas as inscrições para o Slam Lx nº 5, dia 23 de Fevereiro.

A próxima sessão tem como convidados o humorista Ruisinel de Cordes e o slammer norte-americano Sean Patrick Mulroy. As cerimónias cabem a Filipe Homem Fonseca e a música ao DJ Mike Stellar.

A corrida aos poemas vai agora a meio. A finalíssima disputa-se em Maio, depois de mais quatro noites em que a palavra dita sobe ao palco do Musicbox, cheia de rimas, ritmo e estilo.

Desta vez entrevistámos Leandro Morgado, um “camisola amarela” nestas andanças. Slammer por acaso e entertainer por profissão, venceu esta edição depois de já ter levado a “taça” em 2010, quando tudo começava a dar os primeiros passos, na final do Festival do Silêncio, no Musicbox.

Quem é e o que faz Leandro Morgado?  

Posso dizer que sou um entertainer multifacetado com uma infância difícil.

És desde cedo um apaixonado pelas palavras?

Sou, acho que desde muito cedo. Escrevia pequenas histórias quando era pequeno e cartas de suicídio ficcionadas, as quais deixava em locais públicos para lançar o pânico.

Onde começa a ligação com o poetry slam?

O poetry slam é algo relativamente recente para mim. Apesar de ter momentos poéticos nos meus espectáculos (inquestionavelmente inspirados por Ken Nordine), considero que o meu rito de passagem só se deu aquando da participação no Festival Silêncio em 2010.

Como é que conheceste o Poetry Slam em Lisboa no início e o que é que te levou a participar na primeira vez?

A primeira vez que participei numa noite de slam oficial foi, de facto, no Festival do Silêncio. Decidi reunir uns poemas e participar. Ter sido o vencedor nesse ano, foi um óptimo incentivo, não só pelo reconhecimento em si mas também por ter me ter sido dada a oportunidade de participar em festivais de slam noutros países. Ter tido essa visão alargada do slam foi muito bom.

Conta-nos um pouco a experiência dessa participação no festival do Silêncio.

Excelente. Fui com a minha namorada e ficámos sentados junto ao palco. Ela ia sugerindo os  poemas à medida que eu passava às eliminatórias seguintes. Não estava particularmente nervoso. Diverti-me. A parte das pontuações é sempre chata… mas faz parte.

Para ti em particular o que significou teres vencido o Festival do Silêncio?

Depois do Festival do Silêncio estive no Festival de Spoken Word de Varsóvia, no festival europeu em Reims e no festival mundial em Paris. Foram experiências muito boas e enriquecedoras. Acho que para haver um verdadeiro crescimento, seja no slam ou noutra coisa qualquer, é fundamental conhecer o que se faz noutros sítios. Tento sempre fazer isto. Sou daquelas pessoas que marca uma viagem para Londres ou Berlim só para ir ver um espectáculo e lucrar com essa experiência. Resultam sempre contactos e partilhas que são cruciais para o crescimento pessoal e artístico. Caso contrário, corre-se o risco que cairmos numa mesmice. As oportunidades além-fronteiras que surgiram no poetry slam foram excelentes. No slam nota-se muito esta vontade de partilha, sinto que é das áreas performativas que mais tem promovido o encontro de culturas e partilha de modos de fazer.

Como participante e espectador desse evento, como viste o cenário do poetry slam em Portugal?

Foi muito interessante assistir a slammers com textos verdadeiramente excepcionais. Na altura não tinha bem a noção da dinâmica do slam em Portugal. Fiquei surpreendido. Sinto que de 2010 até agora, assistimos, e continuamos a assistir, a um amadurecimento do slam em Portugal. Têm aparecido poetas novos com muita qualidade e os mais tímidos começam a tirar os poemas da gaveta. É óptimo quando as pessoas sobem a um palco para falar. Acho que vamos assistindo a uma desinibição, o que é muito bom.

Como vês o presente e eventos como o Slam Lx?

Parece-me haver um considerável desenvolvimento. Iniciativas como a do Slam Lx, são exemplos da dedicação para promover a visibilidade do slam e a educação do seu público. Penso que os resultados têm sido bastante positivos. A prova disso é o facto de termos novos slammers continuamente a aparecer e sentirmos uma emergência de um sentido comunitário.

O envolvimento com a palavra dita e a poesia vieram daí ou já existiam e é aí que o slam e o stand-up se cruzam? A teu ver onde é que se cruzam?

A palavra dita já vinha do stand-up. O que me atrai no stand-up é precisamente o potencial da palavra e das ideias que transmite. A inspiração para escrever poesia humorística veio do Ken Nordine, que nem sequer era comediante, fazia uma espécie de word jazz. Apercebi-me do potencial cómico das short-stories e das rimas inesperadas e decidi arriscar introduzindo momentos poéticos nos meus espectáculos. Estou contente com o resultado. As duas áreas funcionam naturalmente bem em conjunto, sem esforço. A primeira vez que fiz um beat poem num espectáculo foi no Status – O Meu é Maior que o Teu e, confesso, estava um pouco preocupado. A coisa podia correr mal e tinha 10 minutos de silêncio pela frente… felizmente não foi o que se passou.

Um homem de stand-up… fala-nos da força da palavra dita e da performance.

Há uns anos li num livro de escrita humorística que (e é uma paráfrase) “a comédia não é uma coisa inocente, mas uma força poderosa e subversiva para a mudança.” O Mark Twain também dizia uma coisa parecida. É romântico, eu sei, mas faz-me sentido. O estado mais puro para comunicar ideias é na performance e a melhor forma de comunicá-las, para mim, é a comédia. É impressionante como se consegue comunicar ideias mais densas através do texto humorístico ou da poesia satírica. Considero que é importante que o público, ao assistir a um dos meus espectáculos, se divirta e, ao mesmo tempo, saia de lá com “acrescentos”, com assunto para falar e discutir.

Fala-nos um pouco da tua paixão pelo stand-up.

A minha paixão pelo stand-up não foi imediata. Aliás, o meu background nem é o stand-up, é a magia. Verdade! Quando era mais novo queria ser mágico. O problema é que não gosto de magia. Foi só quando conheci o trabalho de artistas como Penn & Teller (que começaram como mágicos de rua), Steve Martin (que começou como mágico na Disneyland), Harry Anderson (que também começou como mágico… notas o padrão?) que comecei a ver o potencial da coisa. Esses artistas eram mais entertainers que mágicos… e isso foi importante. Depois, pelo facto de ter tido contacto com o trabalho de comediantes que me faziam sentido (Eddie Izzard, Tim Minchin, Dylan Moran, David O’Doherty, Jerry Sadowitz…), comecei a escrever os meus textos e a apresentá-los em pequenas salas. Os meus espectáculos vivem, assim, do texto, da performance, da música, dos truques, dos poemas e das luzes a acender e a apagar.

Quais são especialmente as tuas mensagens e os alvos dos teus espectáculos?

Gosto de falar de temáticas que considero interessantes. No primeiro espectáculo (“A Fraude”) estava interessado na temática do pensamento crítico relativamente a pseudo-ciências e práticas esotéricas. No “Status”, e amplamente inspirado pelo trabalho do Alain de Botton e do Erving Goffman, falei do estatuto social. No “Appendix”, e depois de leituras de comboio de Lipovetsky, falei sobre o consumo e o materialismo. E agora o “Busílis”.

Fala-nos um pouco deste espectáculo mais recente: “Busílis”.

O “Busílis – Morrer não é vida para ninguém” é um espectáculo que fala sobre a morte. Acho que o facto de um dia morrermos é o busílis da vida. Andamos muito ocupados com muita coisa e evitamos pensar muito sobre a nossa mortalidade.

O Ernest Becker no “Denial Of Death” diz que, de certa maneira, lá no fundo, achamos mesmo que a morte é uma coisa que só acontece aos outros. Saroyan dizia que tinha esperança que quando chegasse a vez dele lhe abrissem uma excepção. Ainda vivemos muito o tabu da morte e tratamos o assunto com paninhos quentes. Mas a verdade é que quando falamos objectivamente do assunto percebemos que nos ajuda a pôr a nossa vida em perspectiva e a relativizar muitas ansiedades.

O “Busílis” é um espectáculo que fala precisamente disso. É um espectáculo de comédia, poetry-slam, magia e música… sobre a morte.

Como foi voltar nesta edição ao palco do Musicbox, entre slammers uns mais profissionais, outros amadores?

Foi muito bom. Tinha estado na edição anterior como convidado mas agora foi como concorrente. É sempre um prazer participar nas noites de slam no Musicbox.

Como é que descreves uma noite de poetry slam, para quem ainda não foi ao Musicbox viver essa experiência?

São noites muito bem passadas. O Filipe Homem Fonseca, o nosso mestre-de-cerimónias, faz um excelente trabalho e vai fomentando alguns rituais entre o público (a pontuação Nadia Comaneci, por exemplo, que é quando um slammer recebe a pontuação máxima – 10). Sinto que grande parte do público que está presente nessas noites está mesmo pelo slam, ou seja, fazem silêncio na maior parte das vezes. Os que não fazem, são agredidos violentamente pelo Filipe. São noites relativamente longas. São oito slammers ao início, depois passa a quatro, que são os que vão às meias-finais, e desses são escolhidos dois para a final. Da final, resulta um vencedor que é levado em ombros pelas principais praças da cidade. Isto não aconteceu muitas vezes. Na maior parte dos casos recebe prémios catitas – livros, CD’s e Jameson!

Deixa-nos um alerta, mensagem, para quem, não tendo o à-vontade de palco que tu tens, ainda deixa os poemas na gaveta.

Fazer slam, primeiro que tudo, é um prazer. Temos de esquecer a história do “medo de correr mal” e coisas do género. Poetry Slam é… falar. Falar do que quisermos e da forma que quisermos. As pontuações ficam em segundo plano. O importante é arriscar e experimentar. Apareçam! Tenho a certeza de que não se arrependem.



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