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Social Disco Club & Maia

Os produtores portuenses Humberto Matias (Social Disco Club) e Rui Maia falam do seu recente trabalho editado na Bear Funk, da sua história, parceria e futuro.

A conversa que se segue desenrolou-se num final de tarde, no topo de um parque de estacionamento em plena baixa do Porto. Humberto Matias e Rui Maia são produtores – um mais DJ e outro mais músico, mas confundem-se e complementam-se na fusão das suas capacidades.

Humberto, também conhecido como Social Disco Club, dedica-se ao diggin’ pelas pérolas da era dourada do Disco Sound e manobra o som em edits de toque pessoal; o Rui, para além da presença na tríade portuense x-wife, não se cansa de pesquisar novos caminhos, seja pelas teclas de um computador ou pelas teclas reais, daquelas que fazem som.

Recentemente uniram esforços e criaram «The way you move», faixa que será editada na conceituada Bear Funk, de Steve Kotey.

Com os Maus Hábitos como anfitrião da RDB deixámos os convidados discorrer sobre os seus usos e costumes, mas sempre com espaço ao improviso e alguma divagação.

RDB – Começando por ti, Humberto. Como começou a tua ligação ao Disco?

Social Disco Club – Sou DJ há muitos anos – 13,  fui DJ residente durante muito tempo e dedicava-me ao House, mas ia comprando sempre Disco. Fui comprando e cresceu o meu interesse pelo estilo… tornou-se a minha grande paixão; com a Internet comecei a mandar vir discos e a percorrer as cash converters e a minha colecção começou assim.

E quando começaste o projecto Social Disco Club?

SDC – Fiz uma pausa na residência e comecei a elaborar este projecto. Estive um ano até conseguir arrancar, com uma fase de preparação dos edits. O Club 31 foi a minha primeira noite, o Rui Trintaeum convidou-me sem me conhecer, acreditou no projecto e a partir daí tive uma residência mensal.

Porque te iniciaste nos edits das músicas que compravas?

SDC – Sempre achei, mesmo antes de iniciar, que muitas músicas que ouvir faziam me pensar “estes 30 segundos são incríveis, mas o resto…”. O edit é a versão própria de quem o faz.

Entre ti e o Rui parece haver uma relação Edit vs Original.

Rui Maia – São duas coisas complementares. Eu sou músico e tenho a escola do Rock e tocar os instrumentos e o Humberto tem a visão da pista.

SDC – Sim, acho que tenho a particularidade de conseguir pré-avaliar um tema ou a noção se irá resultar ou a sua direcção na pista. Como o Rui dizia, pelos diferentes backgrounds, tem piada a nossa junção e neste tema [«The way you move»] nota-se isso.

RM – Acaba por ser engraçado porque nos conhecemos via myspace – o que é importante focar. Combinámos um encontro, o Humberto enviou-me as bases (bateria e baixo) e combinamos na sala de ensaios dos x-wife. Liguei uns teclados e gravei uns baixos; a parte que tinha gravado foi depois cortada e colada pelo Humberto, acabando por resultar na faixa que vai ser editada pela Bear Funk. Ou seja, acaba por ser interessante porque é bem dividido.

Com a focalização na pista de dança acham que há demasiados edits neste momento?

SDC – Acho que é bom haver tantos porque se pensares aqui há uns anos não havia quase nada, apenas meia dúzia de discos, e agora há uma oferta que nunca mais acaba… é uma questão de escolher os bons e os maus. Há de tudo e é mesmo uma questão de escolha.

E no teu caso, Rui. Quando crias os originais pensas na pista?

RM – Normalmente não. Como não tenho um background ligado à música de dança, às vezes é difícil criar músicas para pista, as músicas que tenho não são propriamente “pista de dança”, são mais formato canção, versos, refrão…

SDC – O conceito de pista, neste momento, é diferente. Aqui há uns tempos tinha aquela ideia que um tema de pista tinha de ter 120 bpm e neste momento toco temas a 90 bpm e abala a pista… mas é preciso prepará-la.

RM – Tive um convite de uma editora que me convidou a gravar um disco a solo com exigência que fosse “música de dança”…e para mim é complicado.

O teu edit «Contonese Man» [editado pela Untracked] é uma espécie de híbrido.

RM – Foi o único edit que fiz na vida. Nunca tinha feito e aquele foi por acaso, acho piada aos edits, mas valorizo os originais. Gosto quando uma música não tem samples, gosto de tudo tocado. Se calhar tens o dobro do trabalho, mas vale a pena.

SDC – Ultimamente ouvi discos incríveis e usam muito os samples. O de Quiet Village por exemplo…

Têm planeada alguma ética de trabalho?

SDC – Até aqui só temos este disco em conjunto, tem um original e duas remisturas, uma do Greg Wilson e outra do Diskjokke. Esse tema foi como o Rui já disse… houve um trabalho pré-feito já com local e com a melodia planeada e depois fomos ao estúdio o Sr. Rui tocou um belíssimo solo.

RM – Foi um solo que nunca pensei que entrasse na música, mas foi natural, muito orgânico. Acho que resultou bem. Quando ouvi a música a primeira vez senti logo que não tinha a ver com o meu universo, mas não me incomodou nada, não tenho de estar agarrado a uma coisa, não tenho de ser punk toda  a vida.

E o teu futuro EP na Optimus, como o defines?

RM – São tudo originais, é um EP electrónico, há músicas de dança e outras nem tanto, mas é muito diferente do que eu faço como o Humberto e os x-wife; há uma música com  o João Vieira e outra que tinha feito com o The Dark Squire, outra com o Valter Hugo Mãe que é Spoken Word

Podes fazer um edit dessa…

(risos)

RM – Mas eu não quero! Ele canta muito bem… é um EP um bocado conceptual, as músicas não param e é para ouvir de seguida. Ah, tem uma música de dança…

SDC – Eu acho que essa é Italo Disco. Aqueles teclados são mesmo Italo e acho que vou fazer uma versão disso. Tenho uma ideia que precisa apenas de uns beats para ficar mesmo Italo anos 80.

RM – Essa foi feita a pensar na pista de dança… mas é o máximo que consigo. No EP meti umas vozes para não se tornar muito maçudo. Além disso, o contrato com a Optimus dá-me margem para editar as músicas noutro sítio, só tem exclusividade em Portugal. Pelo menos esta com o João quero editar.

E recorrer a remisturas ou versões?

RM – Sim, aqui o Humberto está à vontade…

No 12” na Bear Funk têm remisturadores de peso.

SDC – O Greg Wilson foi uma espécie de padrinho desde o início. O primeiro 12” que fiz, a meias com o Barna Sound Machine, foi ele que acreditou nos temas, falámos e editámos o disco. E agora neste tema com o Maia foi enviar-lhe o original e ele respondeu a dizer que tinha gostado imenso e se lhe podia mandar o instrumental e o vocal à parte… ele próprio quis fazer uma versão do tema. Quando enviei às editoras já tinha o peso do Greg… mas o Steve Kotey [patrão da Bear Funk] ainda deu um edit à sua versão.

Foi como os Hot Coins fizeram com o Cantonese… um edit do edit.

RM – Mais ou menos, disseram-me que iam fazer um mix da minha versão e eu fiquei “mas vão fazer um remix do edit”, um “edit de um edit”. Mas vamos ser realistas, não é uma versão brilhante mas resulta dentro daquele universo da música de dança.

SDC – Tem uns efeitos para cativar um bocado esse público.

Falando em apelar ao público, com o teu blogue conseguiste potencializar o teu trabalho?

SDC – O blogue começou na altura que iniciei o projecto e sem dúvida que contribuiu muito para o meu reconhecimento ou que levasse o meu trabalho a mais gente, tanto que tenho muitos mais visitas no blogue que no myspace.

E escreves directamente em Inglês…

SDC – Sim, mas por vezes ponho alguns temas, procuro informação e copio alguns textos. Depois tenho sets meus, edits meus, sets de convidados como o Greg Wilson ou Pete Herbert.

O que leva a datas para passar discos fora de Portugal. Estranho é que tenhas menos datas aqui.

SDC – É engraçado… mas estranho. Estamos numa fase complicada, mas isso não explica tudo. Eu até há uns meses atrás tinha várias datas em Portugal, mas muitas delas eram em sítios onde já andei enquanto “residente” em locais mais mainstream… porque me conheciam e vêem que tenho algum hype, nem sabem porquê… mas é difícil entender como não consigo ter mais datas no Porto. Estou muito ligado ao 31 mas sinto que há duma divisão com os outros locais… em Lisboa talvez o pessoal rode mais, não sei.

RM – Há casos de DJs que vieram para o Porto e não conseguem entrar no circuito. Mesmo conhecidos e com provas dadas não conseguem entrar no circuito de festas que se acabam por repetir. Um amigo meu diz que o Porto é um quarteirão e é um bocado verdade…

O que gostavam de ver em termos de dinâmica entre espaços nocturnos e DJs?

RM – Acho que este mal já acontece há uns anos… do DJ que não é DJ e o gajo que decide fazer uma festa e vai sacar tudo aos blogues da moda. Os donos dos locais deviam saber separar as águas.

SDC – O que leva a que um DJ da cidade com trabalho reconhecido não seja suportado pela própria cidade.

RM – Infelizmente, mas há vários casos assim…

Em termos de produção, quais são as vossas influências?

RM – Eu sempre admirei o James Murphy. Influencia-me a nível musical e de selecção. A nível de produção, remisturas… gosto bastante do que ele faz. Gosto também da cena nórdica Todd Terje, Linstrom, Prins Thomas; dos Optimo… coisas com o toque Rock.

SDC – Muitas das minhas influências são dos anos70 e 80… um dos primeiros, pelo conceito de festa, edits, DJ foi o Larry Levan. O espírito do Garage, foi o que me fez pensar mesmo nisto. Outro é o Tom Multon, ele no fundo fazia os primeiros edits com as extended versions. Danny Krivit… não há ninguém a fazer edits tão limpos como os dele. E ultimamente a nova vaga do Todd Terje, o Greg Wilson, os Idjut Boys…

RM – Tenho ainda o Moroder e os Kraftwerk. Gosto do Moroder, mas não sou fanático. Bem, o meu guilty pleasure é o «Take my breath away», produzido pelo Moroder. Tem influência em ter começado a tocar teclados.

Próximos projectos, o que têm alinhado?

RM – O Humberto passou-me umas faixas, vou pegar nisso e gravar algumas coisas…

SDC – Nós tínhamos falado…talvez pensar num álbum na Bear Funk, mas é difícil arranjar vocalistas. Eu tinha pensado numa vocalista pelo menos para um tema que era a Donna McGhee, é uma senhora do Disco. Ela tem um disco incrível para aí de ’78 e dispôs-se a entrar num tema, mas são coisas que faladas são engraçadas mas até conseguir concretizá-las… vamos dar um passo de cada vez. Fazer 1 ou 2 EPs.

Entretanto tens a faixas «Portuguese Revenge»… na compilação Cosmic Balearic Beats, na Eskimo.

SDC – Sim, sai em CD mixado e são temas originais ou reworksPortuguese Revenge… bem, o nome tem duplo sentido, mas na verdade saquei uns samples de uma música, «Chinese Revenge», e depois pus portuguese. Vou editar também na Disco Deviance no final do ano.

Não temem um aumento exagerado do preço do vinil – como acontece recentemente com as edições limitadas da Whatever We Want?

SDC – Cada um é livre de fazer o que quiser. Esses discos daqui a uns tempos vão valer quatro vezes mais e são edições limitadas. E por incrível que pareça, a melhor forma de publicitar é disponibilizá-la na internet.

E fazer uma edição de luxo em vinil?

SDC – No meu blogue estiveram 2 ou 3 edits disponíveis durante um ano e depois surgiu interesse de algumas editoras de os colocarem em vinil e se calhar já se fizeram milhares de downloads. Acho que nesta área o pessoal gosta de ter os discos. Na Juno, uma das lojas que mais vende, no top de vendas de todas as categorias os primeiros são de Disco. O que pode querer dizer que pessoal de outros estilos compram o mp3 e quem liga a coisas mais orgânicas compra os discos.

RM – Conheço o universo Rock e Pop em termos de vendas e vejo a música de dança para DJs e os discos também como uma ferramenta de trabalho. Neste caso as pessoas podem fazer os downloads de forma legal ou não, mas alguns DJs no seu trabalho querem ter o objecto. Não é a norma, há muita gente a sacar, mas quem gosta mesmo…

SDC – Não consegues criar uma relação com o artista se não tiveres o original. Já me aconteceu diversas vezes. Recebo uma promo e acho piada, vou a uma loja e compro. Só aí sinto a música.

RM – Mudei de casa há pouco tempo e penso: Se eu só tivesse cópias, a minha casa era horrível. Tinha o quê nas prateleiras? Não tinha CDs, nem discos? Tinha cópias?! Era horrível! O objecto conta!



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