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Sociedade Harmonia Eborense

Elite. Decadência. Pólo cultural.

Cumpre-se em 2009 o 160º aniversário da SHE. Por sorte e um empenho desmesurado de uns quantos, a cidade de Évora e não apenas meia dúzia tem razões para comemorar a sério. Não há quem tome, como esta gente anónima, as rédeas da dinamização cultural da capital alentejana.

Há dez anos não era bem assim. As portas da Sociedade Harmonia Eborense (SHE para os íntimos) eram mais pesadas e não se abriam para a cidade de Évora. Embora com vista privilegiada para o coração da terra, a Praça do Giraldo, o edifício em que se encontra uma das raras excepções ao domínio de bancos, seguradoras e afins, tinha uma aura fantasma. Pouco dizia a quem por ali passava e a maioria dos autóctones dificilmente entraria numa aposta sobre que espaço era aquele. Para muitos, seria provavelmente um edifício abandonado. Para os outros, que conseguiam transpor a algum custo as pesadas portas, a SHE era um lugar que facilmente estimulava doses iguais de fascínio e repulsa. Em torno do bar, bastava escolher uma das muitas portas e era certo que à primeira espreitadela se descobriam homens de mangas arregaçadas dedicados a práticas clandestinas. Era toda uma sequência de salas num prédio imponente que acolhia uma economia paralela movida a baralhos de cartas e outras actividades que faziam puxar da carteira. No fundo, era um clube privado com muito pouco do requinte inglês e muito do bas-fond latino.

Foi este retrato, quase caricatural, que o actual presidente da SHE, Alexandre Varela, foi encontrar há cerca de 15 anos, “levado pela mão de uns amigos mais velhos que eram sócios”. Essa sensação imediata de passar a fronteira para o lado de um ambiente marginal, onde a legalidade ficava suspensa num limbo de orgulho másculo, e de um convívio longe dos habituais locais de diversão nocturna funcionava como íman de sedução óbvia. Ou, como recorda Alexandre, a imagem com que ficou era a de um local “de aspecto seboso embora majestoso na sua decadência” – a ligação histórica a uma elite cultural local e a um espaço de discussão política, onde existia um grupo de teatro e se podiam ler jornais estrangeiros em finais do século XIX e princípios do século XX, deu lugar durante o Estado Novo ao sector meramente recreativo da colectividade.

No Alentejo, o ambiente pesadamente masculino da tasca sempre puxou o jogo. E a existência de sociedades que o promovessem debaixo dos bigodes das autoridades não é certamente uma invenção mais recente. Naturalmente, na SHE facilmente era detectado qualquer elemento novo naquelas paragens, o qual era observado com uma reserva de desconfiança. Não espanta por isso que o actual presidente se tenha sentido constrangido na primeira visita à sociedade. A reincidência levou a que, aos poucos, percebesse que a venda de álcool não era apenas o reverso da medalha de um baralho de cartas e um molho de notas em cima da mesa, e alimentava igualmente a desinibição de uns quantos fadistas espontâneos. Afinal, já se insinuava de forma atabalhoada a vocação que a colectividade acabaria por assumir em breve.

Foi apenas no princípio desta década que a SHE e o seu magnífico espaço passaram progressivamente a fazer parte da vida (visível e não decadente) de Évora, sobretudo a partir da chegada de Manuel Piçarra à direcção, quando a tornou apetecível para menores de 50 anos. Alexandre Varela, que reconhece a importância desta gestão, mantinha ainda assim um pé atrás: “Era uma colectividade com muito fôlego mas descaracterizada”. E não lhe agradava que do 8 a SHE tivesse passado num ápice quase ao 80, conhecida por muito boa gente como “O Harmonia”, numa operação de mudança de sexo que denunciava a forte atracção de um bar praticante de preços generosos. Por outro lado, havia quem insistisse em carimbar-lhe um passaporte inglês e a tratasse por “she”.

Já existindo alguns espaços ditos alternativos na cidade, nenhum até então reunira tão boas condições: localização, tamanho, uma bela esplanada, música que não tentava enfiar uma discoteca num buraco que matava qualquer conversa e a possibilidade e disponibilidade de um grupo de pessoas para a criação de uma agenda cultural mais marginal. Ou seja, se antes uma nova geração que cresceu com livre acesso à cultura era órfã de um espaço de encontro evidente, a SHE passou a representar e a transplantar para Évora o mesmo espírito dinamizador que se via na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, ou no Maus Hábitos, no Porto.

Rapidamente, ao lado das mesas de snooker, do bar e das mesas de jogo, começaram a brotar exposições, concertos, sessões de cinema, peças de teatro, leituras e debates, longe do espírito formal das iniciativas produzidas com fato e gravata pelas estruturas autárquicas. Pela primeira vez, criava-se uma dinâmica e uma regularidade de programação que puxava Évora para a sua obrigação de capital de distrito, aproveitando um imenso buraco cavado entre as manifestações artísticas pesadas e institucionais, e aquelas mais marginais que esporadicamente tentavam lembrar que havia um pulsar fora do bastião do Teatro Garcia de Resende. Finalmente, todo um conjunto alargado de bandas – do pop-rock ao metal e à música tradicional – que corriam o país num circuito estabelecido tinha uma sala e um público em Évora. E nem por isso se perdia a oportunidade de ir assistir a um concerto ou a uma peça de teatro, empurrar uma porta e descobrir um grupo de velhotes a assistir a um jogo de futebol pela televisão, ou entrar na sala que costuma acolher o DJ e dar de caras com duas ou três senhoras que trocavam a solidão da sala lá de casa por um episódio da telenovela preferida com direito a comentários em tempo real.

O reconhecimento por parte dos músicos da importância da missão – em certos aspectos, nomeadamente as dificuldades financeiras, quase heróica – da SHE chegou, por exemplo, pela mão de Azevedo Silva, que lançou online o disco “Ao Vivo na Sociedade” e que protestou contra a falta de resposta quer de músicos quer da população eborense quando, há escassos meses, a SHE passou por um período difícil que ainda não deixou de ensombrar o presente e o futuro próximo de uma colectividade com 160 anos. Após uma visita da ASAE, as irregularidades detectadas obrigaram a uma redução drástica das actividades – o que, por sua vez, levou a um desânimo e consequente abandono de vários membros da direcção de então. Perante o cenário, Alexandre – à época presidente da mesa da assembleia-geral, convocou eleições antecipadas e, em cima da hora, resolveu chegar-se à frente quando mais ninguém o fazia, candidatando-se ao leme da casa. Agora, diz que o objectivo da sua equipa passa por relançar as actividades da SHE, diversificando-as também, alargar o público-alvo, ver reconhecido o estatuto de utilidade pública e, mais do que tudo o resto, garantir a sobrevivência “num imóvel muito apetecido”, esquivando-se às manobras de sociedades de reabilitação urbana, apelando ao apoio de empresas e entidades públicas. É que bancos e seguradores em Évora há muitos, mas Harmonia há só uma.



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