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SÓNAR GALICIA 2010

A Coruña - 17, 18, 19 Junho

O festival este ano foi passear, já se sabe. Fez-se ao norte e aproveitou os caminhos de Santiago para, sem sair da Galiza e ao rumo dos festejos de Xacobeo, tentar uma dupla festa de carácter exclusivo e uma nova casta: Sónar @ Coruña.

A apurar inéditos, a versão galega mostrou o que de melhor se faz por lá e também convidou destaques portugueses (poucos, dois, mas que bons!); sublinhou artistas e colectivos sónicos (SónarMàtica); elegeu Finisterra e chamou mais alguns ao pódio de SonarCinema; ampliou as sonoridades dos pavilhões da EXPOCoruña, nunca antes tão galvanizados e, por vezes, roçou o desconcerto (à tarde todos os concertos podem ser desconcertantes?).

O mal de quem começa cedo é não poder contar com o desconto do público tardio, nem com o barulho das luzes amigas da noite. Nem mesmo a claridade pode evitar o desvendar da má ventilação que, à mistura com cepticismos e Ph’s limpos (leia-se sóbrios) dá… confusão.

Os Fuck Buttons foram dos primeiros exemplos disso. No fim da tarde dois (ou início de noite, mas é que ‘lá na’ Espanha a “noite” tarda a sê-lo), e mesmo com Andrew Weatherall a produzir e juntar préstimos ao último álbum, “Tarot Sport”, os senhores passaram desconforto às meias dúzias que iam entrando, com o barulho ensurdecedor da nuvem de fumos ainda em crescimento, na super sala SonarVillage. A constelação de sons hipnóticos e cósmicos dos Buttons juntou-se ao ruído exacerbado, já detido nas suas melodias, e exagerou em noise. É assim que são, ok, mas mereciam soar noutro cenário.

Labrador + P.MA (Pedro Maia) são produtor e artista visual, relativamente desconhecidos por cá e por lá, e vai daí os hermanos, mais atentos que nosotros, juntaram-nos muito bem na sala onde melhor podiam estar juntos (e que sala!). O SonarComplex, preparado para fazer esquecer a poluição sonora-visual do palco Village lusco-fusco-corta-barato, ofereceu a junção perfeita entre um Techno profundo e imagens repetitivas manipuladas em tempo real, criando um ambiente audiovisual raramente visto em club. No primeiro piso da EXPOCoruña, o desComplexado palco/teatro/performance/tela foi o generoso depositário de uma das grandes e boas surpresas do festival. Queremos encontrá-los mais em território vernáculo.

No mesmo dia, já de noite, este é um daqueles que não dá: Matthew Herbert. Incontornavelmente genial, está para tudo o que já deu tão bem como para o que há-de dar, seguramente. Não pára nem se quer inactivo. De novo projecto na tenda (sim, tivemos direito a acampamento ao vivo e no palco), One Club é demais um trabalho que não se insurge em consentimento. Porque ainda que não se esperem as direcções que resolve tomar, o genial génio celebra a dança instigada por novos estilos, cheio de style. Vai buscar sons gravados ao vivo num club alemão, de risotas a palminhas, pezinhos de dança e toques de telemóvel, e multi-dispara um Herbert novo, eclético, único, sem precedentes tão manifestos que se possam chamar influências, e com uma alegria criativa bem tatuada nas talentosas mãozinhas sónicas. Arrasou em técnica e dá-se bem por todos os lados, das melodias mais confortantes do Trip Hop inicial, aos Loops ruidosos (contudo) harmónicos que cozinha em tempo real.

Laurent Garnier mostrou o porquê de ser considerado uma lenda da música electrónica. Numa altura em que cada vez é mais difícil categorizar géneros e sub-géneros, fez uma demonstração, ao vivo e com mais cinco músicos, do verdadeiro objectivo da música electrónica: Dançar. E fê-lo. Do Techno ao Dubstep, passando pelo Drum n’ Bass, numa actuação contagiante que levou o público ao rubro, transformou o SonarVillage numa enorme Rave onde tudo e todos se mexiam, e Laurent era o maestro condutor de todas as emoções. Goste-se ou não. (Roberto Fernandes)

Flying Lotus foi a primeira emoção forte esperada para Sábado, terceiro e último dia do festival. Levou com a cena luminosa-sonora-enevoada afectante à percepção do público, sempre menor nos inícios, e podia ter entornado o caldo. Pragmatismos fora, e não entornou. “Cosmogramma”, o terceiro álbum, apresentou-se à Corunha, pelo corpo do seu Steven Ellison, jovem entusiasmado agarrado ao novo Beat que vem do Dubstep, do Funk, do House e do Espaço. Cheio de bichinho Minimal, dançarino de “pulinhos”, também se anseia por cantar, ou ser MC está-lhe nas amígdalas e, quando lançou a aparição surpresa do bem-vindo Joy Orbison ao dueto, aproveitou para mostrar que não canta nada, mas é encantador e finca mesmo o que Burial fez explodir. Se Lotus já voava, JO veio cansar o sentido dos que tentavam entender como raio deslizavam os seus dedos mágicos (uns 40) pelos pratos da mesa. Não se percebe, desfruta-se.

Outra vez em panorama superior, foi a vez de Blixa Bargeld e Alva Noto fazerem o que de melhor os anos lhes ensinaram e que muita gente nunca mordeu. Experimentar é palavra de ordem e, entre voz e máquina, sintetizam toda a sua energia virtuosa. A garganta experimentada de Blixa sobe e desce de timbre como diapasão na sua praia, e oferece a Alva os motes exploratórios para divagar na indústria. Resultado: não é para todos.

A correr de novo ao Village ainda visitámos Octa Push, ilustres convidados deste main stage que detiveram, em conjunto com Labrador + P.MA, a exclusividade benemérita da representação portuguesa em terras de Sónar galego. Diferentes, recorrem ao que já se sabe (sons de Buraka, daqui e dali), mas envolvem tudo na técnica festiva que lhes abriu o convite e, mesmo depois de Flying Lotus, ainda captaram energias por gastar.

Depois de muitas, e sempre marcantes, passagens da dupla pelo nosso país, era grande o interesse em ver os 2ManyDJs num festival como o Sonar. E não desiludiram. Conhecedores como poucos da música contemporânea, deram um festival de remisturas, com a atenção só desviada pelo trabalho vídeo, onde as capas dos discos que se ouviam eram superiormente animadas e misturadas em perfeita sincronização com a música. Um trabalho sem dúvida a merecer uma edição em DVD, deixou os vários milhares de pessoas, que por esta altura lotavam o SonarClub, em delírio total.

Para finalizar, pelo menos o que nos interessa abranger, os britânicos Hot Chip já contavam com a concorrência 2Many sem interferir nas expectativas de ninguém. São um pouco mais do que se adora desde Coming On Strong (2004), mas já se topa que andam a tocar muito. Algum repetitivismo nas suas actuações pode ceder-lhes a estampa de girar discos e cantar o mesmo. Mas também o que têm feito é seguramente tão consensual, que já não têm muito para provar. Está provado que “Over and Over”, por si só, faz qualquer memória recente jubilar de reconhecimento bom e querer ouvir tudo o que eles nos relembram. “Ready for the Floor”, assim se está preparado para as lembranças (que velho hoje é ter seis anos) e para “One Life Stand”, último disco dos chip caliente. Representam o agrado que toca a todos e, mesmo que não se venere, “I Feel Better” é concerteza o modus saltatio que se apodera do público auto-contaminável.

Houve mais, é Sónar, mas nem tudo merece ou a justiça nem sempre é justa. Verdade e justo é que o line-up reduzido de Barcelona trouxe indiscrição e excursões à Corunha, que não saíram defraudadas com o ambiente mais cosy, rural, veranil e menos cosmopolita do norte de Espanha.



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