Sonar

Tudo o que se passou num dos maiores festivais de electrónica do mundo.

O CONCEITO

Cerca de 400.000 pessoas inundam a capital da Catalunha nesta altura ano. Infelizmente, o festival só tem capacidade para menos de um quarto destas. Estima-se que o impacto económico para a cidade nesta altura seja qualquer coisa como 47 milhões de euros!!!

As entradas ficam esgotadas dias antes do início do festival e, ainda muito antes disso, a cidade encontra-se em autêntico estado de êxtase, repleta de amantes das últimas da música vanguardista ligada a arte e multimédia de toda a parte do mundo. O Sonar funcionou para Barcelona como um evento que catapultou a cidade para, neste momento, ser considerada como umas das mais bem recheadas em termos de clubs, lojas de discos, Dj bars e actuações constantes ao longo de todo o ano.

Nascido em 1994, desde muito cedo se percebeu que rapidamente este festival iria chegar a uma bandeira/montra de apresentação da música electrónica assim como da arte multimédia.

Um dos factores principais do sucesso alcançado está relacionado com a localização do festival (o SONAR BY DAY é realizado no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona mesmo no centro da cidade, o SONAR BY NIGHT não é tão fora de mão quanto isso). Tem a praia bastante perto e toda a cultura que caracteriza Barcelona. Mas o principal factor está mesmo relacionado com a sua fórmula de apresentação de música, filmes, multimédia que inspira todos anos músicos, artistas e promotores.
O primeiro SONAR apenas teve uma assistência de 6.000 pessoas, nada comparados as actuais 90.000 (só não são mais porque as entradas são limitadas).

Barcelona foi a cidade escolhida porque, como diz um dos ser criadores, Eric Palau  (juntamente com Ben Osborne e Sérgio Caballero), o conceito do festival teria que ser obrigatoriamente numa “open mind city”. O facto da cidade ser multiracial originou audiências bastante diversas; dum lado o amantes da electrónica, do outro o da arte experimental, do cinema, do hip-hop. O fascínio do festival era fazer o clash de todos esses diferentes tipos de nichos.

Os seus organizadores juram que o conceito todos os anos continua a ser o mesmo do primeiro festival há treze anos, o aliar da música à arte e multimédia,  apresentando as novas propostas e apostando fortemente na vertente multimédia. A décima terceira edição voltou a apresentar uma ampla amostra das propostas mais vanguardistas e emergentes do panorama electrónico, em redor das temáticas lançadas estes ano: a homenagem às raízes da música negra, que sem dúvida funciona como um dos alicerces do groove existente actualmente e por outro lado a celebração do ano Japão no SONAR com inúmeros artistas do país do sol nascente .

Um dos pontos que distingue o SONAR dos outros festivais é a tentativa de fazer de DJ´s não só “simples” tocadores de discos mas sim apresentarem as suas novas ideias e conceitos criando a sua própria performance. Todos os anos artistas como Laurent Garnier, Tiga e Kittin, por exemplo, exibem as suas novas experiências musicais, realizando sets diferentes dos apresentados no resto das suas tournées. O objectivo “major” é apresentar o DJ como ele deve ser reconhecido, um artista.

Aparte do Sonar by Day e by Night haverá ainda tempo para dois concertos de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto com a apresentação do seu espectáculo “Insen” no Auditório.

SONAR BY DAY

Enganem-se aquelas que pensam que o SONAR é um festival onde se assistem a performances dos melhores DJ´s/artistas do momento da área da musica electrónica, de facto isto acontece, mas o SONAR é algo muito mais abrangente que simples Live Acts. Tal como o nome indica – 13º Festival Internacional de Musica Avanzada y Arte Multimédia de Barcelona –  é uma mistura de dj sets, live acts, cinema, feira discográfica, exposições, exibições. Toda esta oferta é possível porque o festival é dividido em duas partes – SONAR BY DAY – do meio-dia às dez da noite no centro de Barcelona –  algo que parece apenas ser possível numa cidade com a arquitectura de Barcelona – esta parte diurna do festival é sem dúvida a vertente mais completa do SONAR, sendo complicado num só dia apreciar todo o seu esplendor.

As performances dos artistas no SONAR BY DAY eram realizadas em quatro “pistas de dança”, o SONAR DÔME, um tenda de Dj´s emergentes que criavam cenários bastante divertidos sem exagerar nas batidas. A muitos deles o público assistia na posição de sentado/deitado; o SONAR COMPLEX, uma pista fechada, bem escura em que os sons experimentais reinavam, cenários caóticos e distorções bem fortes dando a sensação que entrávamos num festival à parte de todo o resto. Fica a actuação dos TAPE e OPTRUM como duas das mais “esquizóides” do festival.

Na tenda principal, SONAR VILLAGE, ficaram algumas das actuações mais memoráveis de todo o festival. Em primeiro lugar, destacadíssimo e importante, falarmos de SENOR COCONUT e a sua orquestra, um maestro electrónico que se adaptou aos nossos dias e, com o seu pequeno portátil, dirige a sua grande e divertida orquestra que toca versões «cha cha cha», que vão dos KRAFTWERK (tem um disco apenas com versões dos pais da electrónica) a DEEP PURPLE passando por SADE e mesmo DOORS. Outra actuação a realçar são os FAT FREDDY´S DROP da Sonar Kollectiv, transmitindo muita boa energia para o público. Realce ainda para a banda surpresa do SONAR, “apenas” os SCISSOR SISTERS.

Por último, temos o ENCENARIO HALL, onde são apresentadas novas correntes jazzísticas, de rock, blues explosion numa sala em que as condições acústicas e de multimédia são das mais avançadas do momento. Por esta sala passaram, debitando apenas alguns nomes, actuações memoráveis de artistas como os KNIFE, com um espectáculo multimédia que fará inveja a qualquer mega banda com milhões de toneladas de equipamento, os espanhóis 12TWELVE protagonizaram um blues explosion arrojadíssimo com uma guitarra poderosa e um contra baixo demolidor, destaque também para os LIARS, talvez a actuação que mais fugiu à electrónica de todo o festival.

Para além da citada pista existe ainda o SONAR CINEMA onde existe a conciliação entre a imagem e a música avançada e o SONORAMA fora do recinto (MACBA e CCCB), no Centro de Santa Mónica onde ocorreram debates e concertos de Ryoi Ikeda e V-Scratch.

O SONAR BY DAY é sem dúvida a essência do conceito criado por este festival, pela grande variedade de oferta – pistas de dança em open space, pistas de dança tipo club, pôr-do-sol ao ritmo de dança (apenas choveu na primeira noite) – podemos afirmar que se trata talvez de um dos, senão o, festival mais versátil do mundo.

SONAR BY NIGHT

Esta parte do festival é dirigida aquelas que vão para verem os melhores artistas da música de dança actualmente. No local fora da cidade, numa zona de armazéns, das 22h às 7 da madrugada, os grandes nomes da electrónica passam pelos quatro palcos montados.

Pistas gigantes, debitando milhões de watts, projecções monstruosas, televisões plasma em todos os cantos focados nos artistas e nos seus pratos… o difícil mesmo é saber qual dos palcos escolher, ecletismo por bandeira é o que abunda nesta fase.

A maior das pistas é a SONAR CLUB, com cerca de 400m de comprimento e 250 de largura é considerada a pista principal da noite. Por lá passaram os grandes nomes do house e techno internacional como Jeff Mills, Agoria, Angel Molina , Miss Kittin, Goldfrapp, Modeselektor… A outra pista fechada, à semelhança desta é o SONAR PARK, aqui proporcionaram actuações artistas que misturam a musica electrónica com outros estilos: Dj Shadow, Dj Krush, Giles Peterson, Hot Chip, Dave Clarke, Disco D. Do outro lado destas duas pistas ficava a SONAR PUB outra pista gigante com cerca de 500m de comprimento, um open space que acolheu nomes como “Mr” Laurent Garnier, Herbert, Sasha ou Isolée. Foi nesta pista que houve o fecho do SONAR com um confronto dos “tubarões” do techno-minimal: o Chileno Ricardo Villalobos a tocar em conjunto com um “habitué” deste festival: Richie Hawtin. Set de quatro horas que ficará no coração de todos os que o presenciaram por ter parecido demasiado curto. Descargas de ritmos harmónicos, mãos no ar, sol a nascer, seguranças a mandarem os artistas embora e o público mais resistente a cantar qualquer coisa como “só mais uma”, Richie Hawtin a tocar enquanto os seguranças retiravam o material… quero mais quero mais!

Por fim, existia no meio desta três pistas outro open space que, embora de dimensões mais curtas que as restantes, tinha a característica de ter um comprimento que atravessava o recinto todo (tirando uma pista de carrinhos de choque que existia no meio). Desta pista, os intervenientes davam asas à sua vertente mais experimental e selos discográficos difundiam o seu som. Destaque para as actuações e Tiga e Audion a.k.a. Mathew Dear, LOD entre outros.

No dia 16 de Junho, notas de destaque para as actuações dos quase old-school de Nightmares on Wax, com a apresentação do seu novo álbum “In a space outta of sound”. O único e mestre dos sintetizadores, “Mr” Laurent Garnier teve a sua sétima actuação no SONAR e, depois de ter realizado sets que vão desde o Jazz ao Hip-Hop, não esquecendo as suas raízes techno, drum n´bass e mesmo reggae, este ano apareceu com o seu saxofonista Phill e o “homem das teclas” Bugge a fazer algo parecido com o seu ultimo albúm, “Cloud Making Machine” num vertente bastante experimental.

Mathew Herbert, como não podia deixar de ser, apareceu com o seu roupão e toalha ao pescoço mas desta vez sem a sua Big Band, poucas semanas depois de lançar o seu albúm de samples “Scale” e… claro “it rock´s”, som alucinante, samples à Herbert, um conjunto de músicos que fazem inveja a qualquer um e Herbert na caixa de ritmos ao seu mais alto nível, as always…

Dj Shadow, dois dias depois de ter enchido o LUX, apresentou (tal como já tinha feito na discoteca de Santa Apolónia) o seu novo projecto Hip-Hop, dando a sensação de um certo deslocamento do resto do festival, com três “manos” a rasgar com as vozes características do género, ficou a sensação do público querer mais ver o “show” Shadow que propriamente as vozes loucas dos MC´s.

Bem para o final da noite Kenny Dope (Masters at Work) mostrou que a solo também consegue fazer coisas bastante “engraçadas” mas sem dúvida que a nota de destaque vai inteiramente para LOD com a sua minimal progessiva.

No dia 17, e último dia do festival, o palco Sonar Club estava autenticamente “minado”, tendo um alinhamento de Goldfrapp, MFA, Modeselektor e Agoria.

Os MFA criaram um cenário quase semelhante ao que os Chemical Brothers nos apresentam, com batidas fortes quase sem quebras e projecções coloridas do princípio ao fim.

Modelektor foi a melhor surpresa e, quem sabe, a melhor actuação do todo o festival. Estes alemães da B Pitch Control consegue conjugar ritmos do hip-hop a malhas techno como ninguém e sem dúvida que poderão ser considerados como um dos candidatos a “next big thing” no panorama da musica electrónica. Fica a dica para o albúm “Hello Mum”. A venda de T-shirts com o macaco (capa do álbum) disparou no SONAR.

Incontornável é a actuação de MISS KITTIN nesse dia, pouco tempo depois de lançar o CD bombástico com a sua actuação o ano passado no festival. Kittin volta a lançar autênticas descargas de adrenalina para a maior enchente deste ano, mixando musicas suas, grandes hit´s como «1982» a «Requiem for a dream» a mixes de outros, que só alguém com o seu estatuto poderá a meio de um set fazer e ser levada tão a sério  como se de um malhão electro se tratasse. «Song 2» ou «Gostbusters» são alguns dos exemplos que Kittin lançou a meio do seu set. Sempre interactiva com o público, como é seu hábito, dividiu o seu tempo pelos pratos e sintetizadores e com a dança no meio do palco como se de uma vocalista se tratasse.

Para fechar em grande quem melhor do que dois dos DJ´s responsáveis pelo crescimentos das, relativamente novas, correntes minimais. Ricardo Villalobos, que consegue conjugar perfeitamente o minimalismo cru de Berlim e o minimalismo mais dançável de Detroit e Mr. Richie Hawkin, um habitué nestas andanças. Como já foi referido atrás, os dois foram autenticamente “corridos” pelos seguranças do palco para parar de tocar. Pelo meio da actuação ainda tiveram direito a visitas de Miss Kittin e Mathew Dear, entre outros. Para o ano há mais.



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