Sonic Boom / E.A.R. @ Teatro Maria Matos, Lisboa (06.02.2014)

Sonic Boom / E.A.R. @ Teatro Maria Matos, Lisboa (06.02.2014)

Impressiona como no meio de tantos loops e samples Kember nunca nos leva duas vezes pelo mesmo caminho

Tenho o hábito de começar muitos dos reports a escrever sobre o tempo e não vejo porque não hei-de fazê-lo neste. A noite é de chuva e está tudo menos convidativa para sair. Uma parte de mim preferia de longe ficar em casa no quentinho. Acontece que por vezes sinto necessidade de sair um pouco da minha área de conforto. De escutar sonoridades diferentes. Variar os estímulos.

Peter Kember provoca reacções um pouco díspares na minha pessoa. Produziu o álbum de MGMT que nunca consegui digerir. Sim, é o “Congratulations”. Mas também colaborou com os My Bloody Valentine do Kevin Shields, de que é quase impossível não gostar. Acho que é algures por aqui que encontro o ponto de equilíbrio. Para além disso, é impossível ficar indiferente ao percurso do senhor e às colaborações que tem vindo a coleccionar.

É um Maria Matos bem composto mas sem atingir a lotação esgotada que se prepara para receber Peter Kember na pele de Sonic Boom e E.A.R. – Experimental Audio Research. O concerto tem início ao som de «Walking & Falling» de Laurie Andersson. Está dado o mote para uma noite intensa e repleta de experimentalismo. A canção vai evoluindo gradualmente, camada sonora após camada, sob um registo vocal mais falado do que propriamente cantado. “I was looking for you. But I couldn’t find you”. De certa forma estes versos têm o poder de sumarizar, de uma forma que tem tanto de simples como de verdadeira, a missão a que Kember se propôs. Entre as canções não há paragens. Em vez disso, as camadas de som apenas se desvanecem até chegarem a um mínimo para depois começarem novamente o ciclo. Atrás de Kember vão sendo projectadas imagens, da sua autoria, e que encerram em si uma aura psicadélica. Tal como as suas canções, ou experimentações se o preferirem (penso que o termo se adequa perfeitamente neste contexto), as imagens que as acompanham reflectem padrões.

Todos os olhares estão centrados no inglês. Parece que a sala está mergulhada numa hipnose colectiva. Não se escutou nenhum aplauso, excepção feita a uma tentativa frustrada de alguém, lá mais para o fundo. Não pegou. Os aplausos não são para aqui chamados de momento. No momento oportuno surgirão, com toda a certeza. No palco continua-se a desenhar paisagens sonoras com o auxílio precioso de sintetizadores, samplers e de uma drum machine. A pesquisa acontece ali mesmo, à nossa frente, e nós somos as cobaias perfeitas. O som parece ser centrífugo, sempre a querer escapulir-se, com uma vontade própria.

Impressiona como no meio de tantos loops e samples Kember nunca nos leva duas vezes pelo mesmo caminho. Isso é algo que não está ao alcance de todos. A drum machine faz-se escutar. Batidas intensas, como as de um coração acelerado, enquanto lá atrás são projectados pontos que juntos foram o símbolo do infinito. É um trabalho impressionante. Minucioso. Intenso. Que implica inúmeras tentativas e erros até chegar ao resultado pretendido. Sem direito a encore (não fazia qualquer sentido dada a natureza experimentalista e livre de pausas e interrupções) o concerto chega ao fim. Kember despede-se e deixa o palco com meia dúzia de palavras. O seu trabalho está feito. E bem.

Já lá fora julgo vislumbrar o Panda Bear e não consigo deixar de pensar que realmente há um pouco da essência de Kember nas suas composições.



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