Lars Ole 5c.

Sorg og Glaede

Dissecação de uma paisagem emocional

A carreira autodidata de Nils Malmros teve o seu início com alguma humildade em 1973. Lars Ole 5c. é um auto-retrato, perfeitamente modulado a preto e branco, de uma infância capturada aos pedaços como se de documentário de ficção se tratasse. Nem o realizador, nem os seus filmes têm alcançado grande destaque, tanto por parte do público como da crítica. A razão subjacente a este facto poderá ser a ausência do uso da língua inglesa. Além disso, quando falamos de cinema dinamarquês vem logo à conversa a obra de Lars von Trier e as suas inúmeras polémicas. No entanto, os filmes de Nils Malmros são, muitas vezes, bem mais provocantes do que a obra de Lars von Trier.

Aos sessenta e nove anos o realizador dinamarquês decide desenvolver uma obra autobiográfica. De facto, a esposa de Nils Malmros cometeu um assassinato, em 1984. Isto, num filme já de si provocante no que toca à sua estrutura, desenvolve conotações bem mais preocupantes aos espectadores.

Encontramo-nos perante um filme onde as pessoas realmente debatem as coisas, e se esforçam para ouvir e compreender a opinião dos outros. Apercebemo-nos disto quando as conversas entre o protagonista e o psiquiatra forense que trabalha para o governo começam. Este último começa por surgir como o vilão da história, ao representar a burocracia governamental. A discussão entre os dois personagens é inteligente e esclarecedora. Dois seres humanos tentam trabalhar em conjunto para encontrar a melhor solução possível.

Não existe propriamente um vilão na história, algo muito pouco visto. Essa inexistência em nada prejudica o argumento, ou lhe tira intensidade ou tensão. Pode alguém, envolvido com a morte acidental de uma criança, permitir-se encontrar novamente perdão e felicidade? O realizador não tenciona levar os espectadores a desesperarem com detalhes gráficos e, como tal, nunca chegamos a ver como tudo aconteceu. Ele consegue pontuar a história com humor e decência, sem nunca esquecer a tragédia subjacente a tudo isto.

É preciso de dizer, ainda que seja claro, que o filme inteiro entraria em rota de colisão caso o trabalho dos actores fosse aquém das expectativas. Felizmente os protagonistas são absolutamente fantásticos. Com eles viajamos na ténue linha entre arrependimento e a tentativa de seguir em frente. Percebemos, melhor que nunca, a necessidade de uma segunda oportunidade.

Há um aspecto de uma auto-perpectuação na carreira de Nils Malmros, onde eventos passados se tornam fontes de inspiração e que, por sua vez, se tornam inspiração para eventos futuros. Este filme recria, ficcionalmente, as filmagens de Kundskabens træ e de Skønkeden Udyret. Nada disto é incomum, contudo com o realizador dinamarquês este aspecto é a combinação estrema entre a ficção da sua vida e a forma firme, exigente e distintamente moral de como é transposta para o grande ecrã. As suas obras não são confissões bacocas ou vulgares actos de auto-humilhação. Nem tão pouco são catalisadores terapêuticos.

Sorg og Glæde não se trata de problemas pessoais do realizador, mas uma tentativa de compreender o mundo em geral. O filme é um subtil retrato da profunda compreensão e respeito que existe entre o realizador e a sua esposa.



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