Soundfiction @ Setúbal

Eppur si mouve.

Eppur si muove [e no entanto, ela move-se], terá murmurado Galileu entre dentes, após ter sido obrigado a reconhecer perante a Inquisição que as suas teorias sobre a rotação dos planetas estavam erradas e que a Terra era, realmente, o centro do universo. Eppur si muove terão murmurado os setubalenses mais cépticos, após a noite do passado dia 12, ao verem que afinal a cultura musical na cidade não está morta.

A Experimentáculo, responsável pela organização da Soundfiction, noite musical que juntou no palco da mítica Sociedade Musical Capricho Setubalense os Praga, os Veados Com Fome e os Act-Ups, estava à partida de parabéns. Mas no início da noite, podia-se ainda sentir alguma apreensão no ar, principalmente perante a pouca afluência à hora de abertura das portas. No entanto, mais ou menos timidamente, o público foi chegando e, quando arrancou o concerto dos Praga, a casa já estava bem composta.

ACTO I – Estrelando os Praga

Os Praga, um recente colectivo de Lisboa, estreava-se ao vivo. Contudo, quem não soubesse não o adivinharia. Fazendo uso da experiência adquirida com projectos anteriores, os Praga não se amedrontaram com o facto de abrirem a noite e subiram a palco com confiança e determinação.

Com um universo sonoro que gravitou sempre à volta de um território pop-rock (ou rock-pop, consoante os temas), os Praga fizeram da língua portuguesa o seu trunfo, fundindo o universo letrista de uns GNR com uns Linda Martini. O vocalista Nuno Mota, com uma presença em palco que fez lembrar Morrissey, comandou as hostes, sempre com os passos de dança certos de forma a despertar a líbido do público feminino das primeiras filas.

No final, o concerto apenas pecou por ser curto. Mas estavam feitas as apresentações e de certeza que os cartões de visita ficaram bem guardados na mente do público.

ACTO II – Estrelando os Veados Com Fome

Era possível notar alguma desconfiança por parte de algum público, perante aquele trio que subia ao palco, sem um único microfone por perto. No entanto, não é por acaso que os Veados Com Fome são um dos fenómenos musicais nacionais mais recentes. E a auto-intitulada “melhor nova melhor banda de S. Paio de Gumarei” vinha preparada para não deixar os seus créditos por mãos alheias, nesta sua primeira actuação a sul do Tejo.

O início do concerto não foi fácil; alguns problemas técnicos com o som na primeira música e a quebra da baqueta por parte do baterista, logo ao segundo tema, pareciam não pressagiar nada de bom. Nada de mais errado. A partir daí, os Veados Com Fome iniciaram a sua performance arrasadora, com as guitarras abrasivas do Sr. Gonçalves e do Sr. Pinto a transformarem as malhas da bateria do Sr. Ferreira em autênticas bolas de fogo, que explodiam aos pés do público, que começava a bater o pé e a ensaiar o primeiro headbanging.

O baterista Sr. Ferreira era o mestre de cerimónias, numa eloquência sóbria e quase mórbida, que apenas usava para introduzir os peculiares nomes das músicas. Tudo o resto era rock instrumental de natureza experimental, que se aproximava por vezes do noise, como no final da tríade musical diabólica que foi a sucessão dos temas Sandes, Paquito e Nelson.

O momento mais alto surgiu com a interpretação de Eléctrica Cadente, o original do outro conjunto intrumental Dead Combo, aqui em versão electrificada e distorcida. No final, os Veados Com Fome ainda regressariam a palco para mais um tema a pedido do público, rendido ao colectivo de Santo Tirso, que saiu claramente vencedor.

ACTO III – Estrelando os The Act-Ups

Apesar de naturais do Barreiro, os Act-Ups nunca tinham actuado na capital do distrito, Setúbal. Por isso, para além da curiosidade para ouvir os novos temas do segundo álbum de originais da banda, The Marriage Of Heaven And Hell, havia ainda essa particularidade.

Liderados pelo frenético vocalista-guitarrista Nick Nicotine, os Act-Ups iniciaram o concerto com Gold e ao terceiro tema já estavam a tocar Heavn’n’Hell, um dos temas fortes do novo disco, a mostrar que não iriam haver momentos para descansar.

O público começava a aproximar-se do palco, timidamente, à medida que se ia apercebendo que aquele concerto era inimigo da letargia. Em palco estavam os Cramps, os MC5 e os Rolling Stones a tocarem ao mesmo tempo, tal era o poderio rock’n’roll que era debitado pelos The Act-Ups.

Três décadas de punk-rock era digerido e regurgitado pelas guitarras de Nick Nicotine, Johnny Intense e N Very, pelo baixo de Tony Fetiche e pela bateria de Pete Pistol. Nick Nicotine não acusava o desgaste e ora como pregador do evangelho rock (Love Is A Terrible Thing), ora como soul singer (Slam Wham…), incitava o público a aproximar-se do palco e a render-se ao fascínio lascivo do diabo quando criou o rock’n’roll.

O público naquele momento era um barril de pólvora cujo rastilho tinha sido aceso há já bastante tempo e por isso não foi de admirar que tenha explodido com o poderoso I Bet You Love Me Too. O concerto dos Act-Ups tinha-se transformado numa festa e nos últimos temas tudo foi possível. E este “tudo” engloba espectadores num estado alcoólico duvidoso a cantar o fado ou membros do público a tocar guitarra. Ainda houve tempo para o encore que teria durado mais se as condições (leia-se o horário) o permitissem.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This