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Soundstream / Soundhack

Frank Timm, produtor e DJ originário de Berlim que, como Soundstream e Soundhack é responsável por discos idiossincráticos e marcantes no panorama underground dos últimos 10 anos.

Frank é um berlinense de 34 anos, reservado e focalizado. A dedicação à música está patente nos seus projectos como Soundstream, Soundhack e (metade dos) Smith n’ Hack; “profícua” não será propriamente a palavra certa para descrever a sua discografia, talvez “certeira” seja mais indicada.

Genuinamente preocupado com resultados de qualidade, resguarda-se atrás dos seus alter-egos e da maquinaria do seu estúdio, editando doze polegadas (e suas versões digitais) numa média aproximada de um por ano desde 1997, mas com uma média substancialmente superior de actuações ao vivo – não é um eremita.

Representa um lado sensato, evita demasiada exposição (estas respostas demoraram um pouco a chegar) talvez por não se sentir muito à vontade com atenção sobre si, mas mais sobre o seu trabalho.

É um pouco a antítese do DJ/Produtor “moderno”; sim, tem myspace e site mas utilizados de uma forma passiva, o início do manifesto aí escrito explicita bem o seu ponto de vista: “Let’s be honest: most of today’s club music protagonists are as exciting as dead meat. Or if you wish to choose more friendly words, we agree that they are servants of an alternative entertainment industry“. Ok, o resto deste texto não deixa de ser promocional.

No entanto, Frank tem as provas físicas como suporte. A técnica de cut n’ paste – quase DJ tool – fria, viciante e repetitiva como Soundhack; a reconstrução do groove do Funk e do Disco como Soundstream na reabilitação de faixas seminais; a sinergia de Smith n’ Hack e o seu “Tribute Album”, na reinterpretação de influências numa espécie de homenagem esquizofrénica; e as sólidas remisturas para Herbert, Rythm & Sound ou Ricardo Villalobos.

Via Berlim surgiram algumas respostas.

O teu som é bastante característico. Como encontraste a tua identidade musical?

Quando era miúdo ouvia muita música de raiz negra em casa e quando comecei a produzir queria criar algo deep e funky, mas ao mesmo tempo moderno e intemporal, algo que passasse como DJ.

O que te influenciou?

Como mencionei, os artistas negros desempenharam um papel muito importante no meu desenvolvimento musical. Detroit e Chicago deixaram-me uma forte marca, mas também o Soul, Funk e Disco tiveram grande influência no meu gosto musical.

O que veio então primeiro, a tua faceta de produtor ou de DJ?

Comecei como DJ por volta de 1990, primeiro em festas e depois em clubes como o Bunker e o Tresor. Comprava os meus discos na Hardwax e fazia aí os meus contactos. Mais tarde fiquei cada vez mais interessado em fazer música e arranjei um sintetizador emprestado por um amigo para começar a produzir.

Qual foi a influência da cena nocturna berlinense?

A influência de Berlim foi dark & dirty, todos os clubes da cidade tinham ambientes industrial e hard – foi um bom ambiente para produzir o tipo de som que imaginava.

Porque sentiste a necessidade de criar dois alter-egos?

Porque não tinha liberdade criativa apenas com um deles. Queria ter uma espécie de continuidade nas minhas produções e Sounstream e Soundhack eram demasiado díspares. Desta forma, ter dois projectos permite-me satisfazer o meu lado mais duro e o mais lado mais suave, mais Disco.

Como escolhes entre um DJ set regular e um Live Act?

Na realidade, não escolho. Sou contratado sem depender disso; às vezes prefiro DJ set porque posso actuar consoante a minha disposição. Tenho mais pedidos para Live Act e disfruto da mesma forma, conheço muito bem a minha música e às vezes é mais divertido tentar algo novo.

E em termos de produção, como constróis as tuas faixas – tens algum set-up favorito?

Sim e Não. Acho que encontrei uma maneira de construir as faixas, mas o set-up é livre. Uso tudo, hardware e software… depende mesmo da minha disposição. Às vezes é mesmo divertido ficar trancado no estúdio, entrar naquele mundo de música e deixar as coisas acontecer. Raramente faço planificações.

Juntamente com o Eric Wiegand [Errorsmith] tens o projecto Smith & Hack. Como começaram esta pareceria e como é a vossa ética de trabalho?

Juntámo-nos porque ambos produzíamos e os nossos caminhos cruzaram-se. Começámos a trabalhar juntos e notámos que estávamos  a criar um som que era totalmente diferente do que fazíamos individualmente. Quando trabalhamos juntos começamos por improvisar e normalmente acabamos por encontrar algo de que ambos gostamos e partimos a partir daí.

Em 2008 lançaste o 12″  “Soundhack/MMM 10th Anniversary EP”  – que acontecimentos gostavas de destacar desta década?

2008 foi um bom ano para as minhas produções, com o lançamento do “10th Anniversary EP” e a minha última edição [“Soundstream – Live goes on”] em Setembro. Desde a minha primeira edição, há mais de 10 anos, tentei produzir algo sólido e de qualidade que as pessoas possam ouvir por muito tempo. Nunca quis ser um “one hit wonder”. Acho que é isso que quero que pensem de mim – alguém que produz música para todas as épocas.

Editas tudo em vinil. Com tanta tecnologia disponível porque achas que o vinil prevalece?

Porque acho que a qualidade do seu som não consegue ser superada, o vinil é bem mais apelativo aos meus ouvidos. O som digital ainda não conseguiu atingir o mesmo nível de superioridade. Sou um grande fã do vinil e espero trabalhar com ele mais uns anos, especialmente nos clubes.

Qual a importância que dás à loja Hardwax e ao estúdio Dub Plates & Mastering?

Como já mencionei a Hardwax desempenhou um papel muito importante na minha carreira musical; primeiro sendo o local onde comprei os meus discos e mais tarde como plataforma de distribuição para as minhas edições. Quanto ao Dub Plates & Mastering, sou muito crítico com o meu trabalho e como confio em muito poucas pessoas para a masterização recorro ao seu estúdio. Trataria da masterização, mas o meu estúdio não está tão bem equipado quanto o deles e trabalhamos bem em conjunto – sei que as minhas faixas estão em boas mãos quando são aí trabalhadas.

És bastante reconhecido entre os teus pares, os teus discos aparecem destacados em diferentes playlists e tens reconhecidas capacidades de remistura. No entanto pareces manter-te num verdadeiro estado underground – qual é a tua opinião acerca do panorama actual da música de dança?

Acho que é uma estranha dicotomia, ser conhecido mas underground. Tento aparecer um pouco mais para pessoas que gostam da minha música e que querem saber mais acerca do homem detrás das produções. Mas em termos de “club scene” fico feliz por vê-la transformar-se. Tenho um pressentimento de que as pessoas estão fartas da época do “todos soam ao mesmo”.

Qual é a tua motivação para os próximos meses?

Idealmente editar um novo disco, mas estou bastante ocupado com actuações… espero encontrar algum tempo para o trabalho de estúdio.



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