Spartak

O vocalista Tiago Matos apresenta os Spartak e o seu EP de estreia.

Vêm de Alcobaça, mas distanciam-se da cena Madbaça. Cruzam ambientes pop diversos, de diferentes fontes e origens: juntam tudo, e a coisa resulta, resulta. O EP de estreia chama-se “Spartak! One” e encontra-se disponível para download no site oficial (http://www.spartakonline.com). Aproveitem, descarreguem, que não receberão nenhuma carta com uma multa em casa – é totalmente legal e gratuito. O vocalista Tiago Matos apresentou “Spartak! One” à rua de baixo, falou de Alcobaça, da Internet e de jogos de andebol com os… Loto.

Pergunta cliché: como surgiram os Spartak? Resume-me a história da banda até à saída deste primeiro EP.

Somos um grupo de amigos de Alcobaça que, visto gostarmos muito de música e termos gostos musicais semelhantes, resolvemos… formar um grupo! Que surpresa, hein? (risos).

Tudo começou comigo, com o Márcio, o Wagner e o Carlos. Tivemos um projecto há uns anos, nada de muito sério, uma coisa mais experimental, até que resolvemos visitar o bom e velho formato canção – fizemos uns temas num teclado para crianças e entretanto começámos a “vestir” as canções com os clássicos elementos guitarra e baixo. Entretanto, no início do ano passado, juntou-se-nos o Ricardo Almeida e combinámos gravar um EP com o Ricardo Coelho, dos Loto. Gravámos o EP durante o Verão enquanto o Ricardo ia começando aos poucos a juntar equipamento para fazer o estúdio no qual os Loto estão a gravar o seu próximo disco.

Vocês têm todos 27 anos, mas entretanto recrutaram o Miguel Nicolau, que tem apenas 19. Isto aconteceu depois da gravação do EP, já?

Sim. Era necessário alguém para nos ajudar ao vivo e gostámos tanto do Miguel que o convidámos para fazer parte da banda – é a nossa Academia de Alcochete a funcionar (risos)… Ademais, o Ricardo (Almeida), por estar muito ocupado a fazer filmes não ia ter tempo para ensaiar… Nem o Carlos, que de qualquer maneira vai estar ocupado a tratar da parte visual no concerto.

“Spartak! One”, o vosso EP de estreia, foi produzido pelo Ricardo Coelho, dos Loto. Como é que surgiu essa possibilidade?

A vantagem de Alcobaça sobre Lisboa é que tem só sete ou oito mil habitantes. Por isso, é natural que elementos das bandas se conheçam. Por exemplo, eu joguei andebol com os Loto e fui “colega de carteira” do Samuel Jerónimo (que editou pela this.co). Nós precisávamos de gravar para termos um empurrão que nos iniciasse, e o Ricardo precisava de testar o estúdio que estava a construir em alguma cobaia – e nós fomos, portanto, perfeitos.

Os Spartak vêm de Alcobaça, terra dos The Gift, terra dos Loto, terra de recriações e reformas musicais sob o nome de Madbaça. O que é isto da Madbaça, afinal?

Bem, para os Loto será algo com significado. Eles gostam de se divertir, festa a toda a hora, e até têm uma ou outra influência das bandas “Madchester”. Mas não acho que isso seja extensível a toda a cidade. Aliás, o ponto forte de Alcobaça é precisamente o seu ecletismo. Aqui, a justiça manda que se faça uma retrospectiva e se fale no Bar Ben. O Bar Ben era um sítio de confluência para quem gostava de música na zona e tinha duas características que foram muito importantes para o florescimento de uma futura cena alcobacense – a primeira era o facto de haver muita música ao vivo, criando aquela ideia de “tu também podes fazer isto”; a segunda era o ecletismo dos seus principais mentores – lá, tanto ia tocar o Elliott Sharp ao vivo como se ouvia Velvet Underground, Cypress Hill ou Therapy?.

Ora, mais do que qualquer coisa, a promoção do ecletismo é imprescindivel para tornar sólida qualquer “cena”. E, de facto, nós, ao contrário dos Loto, praticamente não ouvíamos “Madchester”. Para mim, Manchester são os Fall, os Joy Division ou os Buzzcocks. A nossa escola, aquilo que ouvíamos nos nossos “anos de formação”, os 13, os 14, eram mais Velvet Underground, Sonic Youth, Pixies, Einstuerzende Neubauten, etc. Tínhamos a sorte de ter gente mais velha por perto conhecedora. Eu tinha um primo, o Márcio, um irmão mais velho, e por aí. Mas claro que também foi imprescindível a nossa curiosidade para não irmos atrás do óbvio. Claro que quando o «Nevermind» chegou e eu tinha 12 anos aquilo bateu muito forte. O «Year That Punk Broke» rodou muito nos nossos vídeos, por exemplo…

Era uma cultura diferente da de hoje em dia.

É preciso dizer que havia uma cultura que, de facto, valorizava a descoberta. Como não havia Internet, cada vez que se conseguia um disco novo era um acontecimento. Daí que, não havendo discos ilimitados, se tivesse de gastar algum tempo com os que havia, o que permitia vencer a “barreira da estranheza”. Muitos dos grandes discos são rejeitados a uma primeira audição quando não se tem o “ouvido treinado”.

Referiste a Internet. Vocês, para além do site oficial, têm uma página no MySpace, onde mostram canções, trocam mensagens com anónimos ou outras bandas. Concordas que sites como o MySpace são, hoje em dia, ferramentas promocionais muito fortes?

Claro que são. Assim como o eram as cassetes piratas, e, refira-se, ilegais. São meios de exposição a um público que nunca teria acesso. Em vez de fazeres música para a tua cidade, ou o teu país, tens um público muito mais vasto que te vai ouvir, e, muito importante, passar a palavra. Já o era assim com as cassetes, mas agora numa escala muito maior. Porque é um processo tendencialmente instantâneo.

A estreia do vosso EP na rádio deu-se no programa “Discos Voadores” do Nuno Galopim (DN), na Radar. Nada mau para uma primeira mostra da vossa música…

Nada mau, de facto. E é importante, pelo valor simbólico, que tivesse sido ele, que é quem, justiça lhe seja feita – juntamente com o Henrique Amaro – mais tem contribuído para dar visibilidade às melhores novas bandas numa altura em que a indústria lhes virou as costas.

Mas, se reparares, o nosso início é todo ele, e não só esse detalhe, atípico. Não é normal uma banda ir dar o seu primeiro concerto um ano depois de ter gravado o seu primeiro EP. As coisas foram, portanto, planeadas de forma a poder oferecer qualidade logo desde o início, mesmo que houvessem, por ainda não haver “rodagem”, problemas de escassez de recursos. Claro que esta virtude também é um defeito: pode levar ao perfeccionismo, e consequentemente ao arrastar indefinido das coisas.

Spartak ao vivo – a estreia está marcada para dia 20 de Maio no Clinic, em Alcobaça. Como vai ser?

Vai ser mais orgânico e menos “arrumado” do que no EP. Aí estávamos limitados – muito mais do que estaríamos se fossemos agora gravar outro com o Ricardo – porque era a primeira vez de toda a gente e ele ainda só tinha parte do material que tem agora e com que está a gravar o segundo disco dos Loto.

Vamos estrear mais uma mão cheia de músicas, pelo que será também curioso por isso. E, muito importante, como já disse, o espectáculo vai ter também uma componente visual, que a ajuizar pelo que o Carlos fez há uns anos atrás, vai ser muito boa. Aliás, esta é uma das razões para eu preferir falar em “grupo” em vez de “banda”. Na minha maneira de ver as coisas, não nos devemos limitar, décadas e décadas depois, à fórmula Crickets, Beatles, etc. As funções de alguém num grupo não podem ser só de tocar o seu instrumento. É bom que haja curiosidade de experimentar várias coisas, sejam na ou fora da vertente puramente musical. É curioso verificar que esta minha opinião era também a do Tom Waits, que gosta de pôr músicos a tocar instrumentos com os quais não estão familiarizados, porque fogem à ortodoxia do instrumento. Tocam logo de maneira diferente, porque pura e simplesmente não sabem tocar segundo os cânones. É também o que pensa a Kim Deal quando diz que não quer aprender escalas.

Em jeito de remate final: depois do EP, para quando o álbum de estreia?

Hoje não te sei dizer. Talvez no fim do Verão o saiba. Uma coisa é certa, para haver um “LP” tem de ser bom. Lá está, a minha exigência de qualidade não me permitiria ir para uma coisa dessas sem acautelar o respeito por padrões de excelência mínimos. E, para isso, é preciso maturidade e muito trabalho. Canções em si não faltam. Conseguiria escrever um álbum inteiro amanhã, se fosse preciso. Mas é contra essa minha filosofia fazer isso. O nosso problema é termos ouvido tantos discos demasiado bons durante tanto tempo. Depois, tudo o que seja pior que essa excelência, pelo menos a mim, deixa-me sempre insatisfeito. Mas não descarto a possibilidade de, entretanto, se gravar um single. Tenho centenas de canções à espera, mas tenho andado a preparar duas para essa possibilidade. Adicionando-lhes paulatinamente pedaços na minha cabeça, enquanto conduzo ou como, ou tomo banho… E sim, pelo menos uma delas vai ser de muito longe muito melhor do que qualquer canção do EP.

 



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