SPRING BREAKERS

“Spring Breakers”

Os dentes metálicos de James Franco e a rebeldia das princesas da Disney

O novo filme de Harmony Korine dificilmente poderia surgir sob um contexto mais remoto: assenta na premissa de um grupo de quatro raparigas que financia a estadia de férias primaveris através de um assalto a um restaurante, para mais tarde cruzarem percursos com o tipo de aspecto mais duvidoso de que nos conseguimos lembrar. A somar a isto, as quatro jovens ganham vida através de um quarteto de actrizes catapultadas pela indústria Disney Channel e semelhantes, habituadas a papéis que vivem mais das aparências e não tanto das capacidades performativas. O tipo, esse, é James Franco, que aqui se apresenta com um penteado entrançado colado à nuca e uma dentadura metálica. 

“Spring Breakers” arranca com uma sequência em que os corpos (que se vão despindo) interagem com garrafas, funis, bongos, entre outros utensílios, ao som de Skrillex. Quem não souber ao que vem, é capaz de pensar que está perante mais uma convencional comédia adolescente da máquina Hollywood, até se dar um corte para o anteriormente referido núcleo feminino, na vaga intimidade de uma residência estudantil. E o filme acaba por ser várias vezes certeiro ao nível destas disparidades, capaz de se inteirar rapidamente numa frágil intimidade, erguida com uma banda sonora minimalista e uma câmara tremida. Isto acaba por se tornar num dos pontos mais interessantes: o uso e abuso das cores primárias, num formato quase psicadélico, acentuado precisamente por estas duas forças antagónicas em movimento.

Também esse dualismo vai erguendo um jogo de poder, que orbita entre a personagem de Franco e as suas companheiras, e que vai tomando mais força à medida que os peões começam a abandonar a parada. Há uma grande ironia associada a isto, também ela com forte sentido interventivo sobre um monopólio quase primitivo a gravitar em torno de um conceito de poder conspurcado.

Não menos interessante será o posicionamento do filme relativamente a uma cultura pop estéril (a cena em que a personagem de Franco e o quarteto feminino refaz ao piano uma música de Britney Spears será, porventura, um momento de antologia e êxtase destes elementos), inserindo-se nela e erguendo uma crítica que a extravasa largamente. Mas, tal como ela, baseia-se em artíficios.

A maior fraqueza de “Spring Breakers” reside, precisamente, aqui: a sua estrutura vai sendo construída sobre estes artíficios e falha redondamente ao libertar-se deles para exaltar a sua mensagem. E que boas oportunidades existiam – à cabeça a mais óbvia, o desenlace. Assim, fica registada uma peça de entretenimento delirante, mas também a incapacidade de derrubar as muletas de que se serve para crescer.



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