Springshoes

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A propósito do concerto no Bacalhoeiro, conversámos com a banda

Actuaram no Bacalhoeiro e estiveram à conversa com a Rua de Baixo, onde nos falaram sobre a sua forma de ver e estar na música. São eles Francisco Esteves (bateria), João Nunes (baixo) e Alexandre Vaz (guitarra).

Interessam-se pelo rock progressivo, pelo psicadélico, pelo experimental e o post-rock. E a vossa música, como a definem?

Francisco Esteves: Eu acho que essas influências continuam, como é normal, mas… já passámos por um processo de influência maior e estamos a passar agora pelo processo de composição pessoal. E acho que todos os estilos que mencionaste se integram bastante bem no que são os Springshoes.

João Nunes: Se tivéssemos de catalogar, seria isso. Embora não gostemos de o fazer.

Vocês eram os Springshoes and the Funky Man. Que aconteceu ao funk?

Alex Vaz: Matámos o funky man. Não foi consciente. Nós de facto tocávamos funk, e corria, só que naturalmente começaram a sair outras coisas. Acho que estávamos a ouvir coisas mais estranhas. Não só progressivo, mas o elemento dissonante, o que não é tão bonito. Isso começou-nos a interessar.

FE: Foi o dissonante, os tempos compostos, uma mistela de conceitos musicais novos aos quais não estávamos habituados quando começámos a tocar funk.

AV: E em boa verdade o funk é limitado. Nós inventávamos com pedais de efeitos, e aquilo já era uma misturada entre funk e rock e psicadelismo. O psicadelismo tinha muito mais por onde explorar!

O vosso reportório é rico em sons e texturas, muito apoiadas pelo recurso à electrónica, que acaba por ter um papel importante. Porquê esta opção?

JN: Acho que a opção da electrónica nos abre portas para aquilo que nós não conseguimos fazer apenas com os nossos instrumentos. Conseguimos com pouca gente e poucos instrumentos, uma textura rica e complexa. Daí os delays, loops, efeitos, reverbs e distorções.

AV: E acho que também tem a ver com uma coisa que sempre falámos, que é criar uma experiência diferente ao vivo e em estúdio. Nós somos só três, mas em estúdio somos quantos quisermos. Há tanto mais que podemos explorar com esses elementos electrónicos, digitais… Também não era muito consciente: estávamos a gravar e surgia um som marado que ficava bem, e ficava. A nossa composição sempre foi assim.

JN: Em composição somos bastante impulsivos. Depois tem trabalho, uma reflexão sobre o que fizemos. Mas no acto da composição, é quase improviso.

FE: A maturidade e os anos a passar ajudaram-nos muito nisso, porque nós como Springshoes and the Funky Man éramos capazes de fazer uma música em 20 minutos. (risos) E agora…

Faziam uma música em 20, e agora levam 10 minutos a tocar um tema. No álbum “O Encontro” quase todos os temas são largos. Que aliás, é uma característica do rock progressivo.

JN: Quanto aos temas serem longos, nós em 9 ou 10 minutos conseguimos obviamente contar mais do que se conta em quatro.

FE: E acho que não fazemos de propósito, de todo. Porque nos dá tanto gozo tocar, às vezes as músicas são mais longas e nem damos por isso. Mas agora nestas últimas composições que estamos a fazer, parece-me que está a haver um processo de encurtar um bocado mais as músicas.

AV: O que também não é bem verdade porque as músicas são mais pequenas mas depois há situações de improviso controlado no meio delas. Há casos em que uma música pode ter tanto 20 minutos como 7. Há um espaço ali onde nos podemos encontrar o tempo que quisermos. Isso é bom, acho que é saudável.

E quais é que são as vossas influências?

JN: A minha inquestionavelmente são os Gong, uma banda franco-inglesa de rock progressivo-psicadélico. Até os Smashing Pumpkins e Red Hot Chili Peppers. Foram incontornáveis na nossa adolescência!

AV: Sim, os Gong, os Pink Floyd e os King Crimson. Aliás, a minha guitarra está assinada pelo guitarrista dos King Crimson! Mas principalmente os anos 70… Yes, Gentle Giant, Genesis, Pink Floyd, King Crimson. O alternativo dos anos 90, com os Sonic Youth…

FE: É realmente como eles disseram, é um encontro de várias influências. É normal que cada um tenha um guilty pleasure! (A: uns Bee Gees!) Um Michael Bolton! Mas, Red Hot Chili Peppers…

Numa entrevista disseram que “hoje em dia tudo começa com umas riffs e muito improviso”. Falem-me sobre esse processo de construção musical.

FE: Riffs… e muito improviso!

JN: Nós temos uma espécie de ritual quando começamos a ensaiar, que é tocar o que nos apetecer na altura, sem falar nem fazer mais nada. Às vezes é daí que surgem as músicas. Um começa com uma riff, outro faz uma textura por cima, depois vamos mudando… Nasce o esqueleto daquilo que será uma música.

Por falar em improvisos, sei que recentemente tiveste [João] a oportunidade de experimentar tocar num ambiente diferente daquele a que estás habituado – no Sabaduos, na Vizinha. Fala-nos dessa experiência, como foi tocar com um músico que não conhecias? O que falhou? Que contributo tiraste dessa actuação?

JN: Confesso que estava um bocadinho nervoso. Não conhecia o Iuri, nunca tinha tocado sozinho… Gostava de ter falado com o Iuri, antes do concerto o que não aconteceu. As primeiras duas correram bastante mal, depois as coisas foram evoluindo. E acho que é isso. Acho que o improviso é possível e a experiência do Sabaduos fez-me perceber bem isso, mas quanto melhor se conhecem as pessoas, melhor correm os improvisos. Parece-me isso.

Sei que gravaram um álbum, “O Encontro”, que foi muito bem recebido.

FE: Nós queremos acreditar que foi bem recebido… o concerto de lançamento do álbum correu bastante bem, tivemos bastante adesão e as pessoas gostaram. E isso é bom.

JN: Nós ainda não encontrámos o nosso público-alvo. Vamos encontrando pessoas, aos poucos.

No entanto, sei também que a gravação desse trabalho foi peculiar.

JN: A gravação foi caseira, mas ficou com qualidade.

AV: Eu tenho fases de interesse pelo meu próprio instrumento, há alturas em que eu não gosto sequer de tocar guitarra. Então, substitui esses momentos pela produção musical. Foi bom deixar de pensar em mim como guitarrista e passar a ser simplesmente músico. O grande responsável foi o Steven Wilson, vocalista dos Porcupine Tree. Gostava das produções dele e foi assim que começei a interessar-me pela produção, misturar sons e usar o estúdio como um instrumento. Portanto fiquei o produtor não-profissional d’O Encontro. Gravámos baixo, guitarra, bateria, instrumentos de sopro, jambés, tudo em minha casa.

Como estão de concertos?

AV: É difícil em termos de público como em termos de espaço. Ter de ser relativamente específico. Gostamos de tocar em pequenos teatros, tocámos no da Malaposta, e correu muito bem. E também em Carnide. Esses espaços fazem sentido. O Bacalhoeiro, também faz sentido.

JN: Como ainda não encontrámos um público, não encontrámos um espaço. As coisas poderão estar ligadas.

AV: E acho muito positivo associarmo-nos a bandas que têm alguma coisa que ver connosco, criar uma espécie de movimento. Hoje vamos ter os Electric Super Sex, a fazer-nos a primeira parte.

O que esperam que o futuro vos reserve?

FE: Um concerto no Incrível Almadense. Eu estou a ser ao mesmo tempo sonhador e realista, se é que isso se pode conjugar. Acho que a curto prazo é um bocado impossível alcançar o Incrível Almadense, mas acho que se continuarmos a trabalhar como até aqui, acho que somos muito capazes.

JN: O que eu gostava era de estar a tocar e ter muita gente a curtir. Acho que para mim é o mais importante. Vamos ter de dar concertos em sítios diferentes, tentar várias formas diferentes de promoção, divulgação.

AV: Eu concordo com ele e só para acrescentar o elemento de gravação, eu gostava de super-produzir. Isto é, para mim era um sonho conseguir lançar um álbum todos os anos. Nem precisa de ser num formato físico, mas estar sempre não só a dar concertos mas a criar música nova e fazer produções novas.

Para quando a edição de um álbum novo?

JN: Está a acontecer!… Vamos usar a mesma estratégia de gravação, já com a experiência do álbum anterior.

AV: Há uma coisa que eu gosto nesta estratégia de gravar em casa, que é a ideia de termos o nosso espaço e o nosso tempo.

FE: Sem qualquer tipo de pressão.

AV: Nesse sentido somos um bocado dominadores da nossa própria música, gostamos de estar em cima de tudo o que estamos a fazer. E é por isso que nunca nos vão assinar numa major label!



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