Steve Gunn @ Musicbox

Steve Gunn + Afonso Rodrigues @ Musicbox (29.04.2017)

O Musicbox tem um palco pequeno esta noite parece ser bem maior, de tão despedido que está; há alguns amplificadores e colunas e, encostados ao lado oposto ao da entrada para o backstage, três caixas de guitarras. Esperamos uma noite especial e intimista, divida por dois actos a solo que em comum têm a paixão pela guitarra e pela escrita de canções.

São quase 23h quando Afonso Rodrigues, membro dos Sean Riley & The Slowriders e dos Keep Razors Sharp, sobe ao palco de guitarra em punho para apresentar algumas canções “calminhas” – segundo o próprio – mas felizmente isso não quer dizer que sejam desprovidas de alma, antes pelo contrário. Durante cerca de 30 minutos temos o prazer de escutar uma série canções, apresentadas com contornos acústicos, como «Sixteen Days» ou «Sweet Little Mary» do álbum “It’s Been a Long Night” de 2011, e outras tocadas pela primeira vez, resultado de uma viagem recente pela Califórnia, como Afonso fez questão de explicar antes de avançar para «LA» e entre uns goles de cerveja. A dada altura Afonso canta “I’m off to see the world” e nós acreditamos porque é fácil sermos transportados por estas canções. À medida que o concerto se vai aproximando do final, a cada canção, maior é a urgência que cada uma encerra si.

Um songwriter é um contador de histórias e pode optar por deixar a canção contar a história ou emoldurá-la um pouco, apresentá-la, contextualizá-la. Se Afonso Rodrigues optou por combinar um pouco destas duas vertentes, já Steve Gunn optou por deixar cada canção falar por si. E a verdade é que cada uma destas canções encerra em si um mundo.

Antes de Gunn tomar o palco como seu, não se inibe de passear por ele enquanto desembaraça os fios dos pedais que vão tomando cada um o seu lugar no chão. Afina a guitarra. Olha para a sala com um olhar profundo e concentrado. São 23h45 quando entra em palco, desta vez para ficar. O olhar continua o mesmo mas vem acompanhado de um simples “Tudo bem?”. Os primeiros acordes de «Old Strange» tiram-nos logo o tapete. Raios parta aquela guitarra. Gunn parece mergulhado num transe e quer levar-nos com ele. E todos iriam de bom agrado. Mesmo. Mas há algo que o incomoda a ele a outros… Ruído… Mas Gunn é directo e pede a quem quer falar que se desloque para o fundo da sala. Deste momento em diante há barulho apenas entre canções; ora para trocar uma impressão, ora para aplaudir. E também há vezes em que é fácil ficar sem palavras.

A canção americana é influência constante nas canções de Steve Gunn. «Ancient Jules» do mais recente “Eyes On the Lines”. É uma canção fantástica mesmo assim, numa versão simples, apenas com a guitarra acústica que nos convida a partir e a perdermo-nos embalados nas palavras da canção.

À medida que as canções vão desfilando, damos por nós a abrandar um pouco, a desacelerar deste ritmo frenético em que vivemos constantemente. Pensamos e contemplamos um pouco aquilo que nos rodeia. Deixamo-nos perder durante esta hora. É bom. É revigorante. Há canções que têm este efeito em nós.

O pedal de loop está presente mas é usado sempre com critério e muitas vezes de uma forma quase cirúrgica, para acrescentar aquele detalhe ou aquela camada adicional que a canção estava mesmo a precisar. Aqui há folk mas também se pisca o olho ao country. A voz grave de Gunn ajuda. Escutamos «Milly’s Garden», «Water Wheel» (com uma magnífica e simples linha grave, pela qual a canção se começa por apoiar), «Night Wander» ou «Way Out Weather» e comprovamos isso mesmo. Não há duas canções iguais e Gunn é um executante fenomenal. A natureza e o meio que nos rodeia são presenças constantes nestas canções. Há sempre espaço. As canções atravessam-nos; levitam; aceleram para de repente abrandarem e nos deixarem recuperar um pouco o fôlego. Acompanhamos Gunn e sentimos que vamos na direcção certa.

«Park Bench Smile» é sobre perda e saudade. Pela primeira vez durante a noite sentimo-nos tristes mas a tristeza faz parte da vida. Já «Wildwood» é sobre ninguém gostar de se sentir preso, “pull him out from the sinking sand”, e sobre a indiferença e talvez por isso a paleta sonora seja tão ampla; notas graves e notas agudas, como que para chamar a atenção de quem está a escutar.

O encore trás «Mr. Franklin», incessantemente pedida por alguém do público, entre canções. É uma aviso, uma cavalgada desenfreada que vai desaguar numa cacofonia controlada. Depois, Gunn deixa o palco com uma distorção a inundar a sala. Nós, aplaudimos.



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