“Submissão” de Michel Houellebecq

“Submissão” de Michel Houellebecq

e se o Islão fosse uma realidade viável no Ocidente?

Paris teve um ano de cão.

Começou-o atacada na sua dignidade e tão distintos e históricos valores laicos e republicanos, com o horrendo ataque ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, reduto indefetível de liberdade de expressão e escolha dos conteúdos, independentemente dos seus destinatários, algo quase impossível em qualquer outro país da U.E. ou do outro lado do Atlântico.

No chamado “mundo ocidental”, os clássicos “eles é que provocaram/pediram” ou “não tinham nada que ofender outras religiões” foram bem audíveis, contemporâneos aos ubíquos “Je suis Charlie” que pululavam nos fóruns sociais e outros mais ou menos institucionais, rapidamente banalizados e esquecidos, como qualquer outra moda inócua e passageira.

Os posteriores atentados de 13 de Novembro revestiram-se de contornos inéditos. A frieza na execução, os locais e os horários escolhidos, desconcertaram uma Europa já em grande buliço e uma nação francesa, novamente de luto, atingida no seu coração.

O livro que involuntariamente se tornou indissociável desta Paris massacrada, chegou a Portugal há uns meses, mas a sua pertinência e atualidade não se desvaneceram.

Houellebecq conseguiu com Submissão a proeza de ser fortemente criticado ainda antes da publicação do livro (exatamente a 7 de Janeiro, dia do massacre no Charlie Hebdo, pouco depois de ser publicada uma capa em que o próprio surgia caricaturado).

O título evoca a raíz etimológica da palavra Islão (que significa literalmente submissão), jogo de palavras progressivamente mais relevante com o desenvolvimento do romance.

A palavra em si surge apenas na página 230, em que François, o nosso protagonista, conhece Robert Rediger, um dos poderosos do novo regime político, que lhe explica o fascínio subjacente ao Islamismo.

“- É a submissão (…) a ideia espantosa e simples (…) de que o máximo da felicidade humana reside na submissão mais absoluta.(…) para mim há uma relação entre a absoluta submissão da mulher ao homem (…) e a submissão do homem a Deus, tal como é encarada no Islão.(…)o islão aceita o mundo, aceita-o integralmente(…) para o islão, a criação divina é perfeita, é uma obra-prima absoluta.”

Em Submissão, pairam os demónios que a França insiste em ignorar e Houellebecq nunca se fez rogado em exorcizar: a diversidade cultural, étnica e religiosa (com o passado colonialista sempre em fundo), a vacuidade da classe artística e mais mediática (os famosos são tratados por tu, como qualquer outra personagem) e o hiperbólico consumismo pós-moderno.

Inadvertidamente (ou talvez não) e com as devidas distâncias, é percetível a alusão ao colaboracionismo do Governo de Vichy com os nazis, durante a II Guerra Mundial, presente na silenciosa aceitação das circunstâncias e das mudanças, mediante a conveniente retribuição, nas palavras por dizer ou nos longos solilóquios mentais de François, impulsos e ensejos inconfessáveis, mesmo entre amigos.

O inevitável paralelo com a Alemanha do 3º Reich, na década de 30, surge na página 53: “Este tipo de cegueira, aliás, nada tinha de historicamente inédito: encontra-se por exemplo, em todos os intelectuais, políticos e jornalistas dos anos 1930, unanimemente convencidos de que Hitler «acabaria por voltar à razão».”

A religião, justificação para algumas das maiores atrocidades experienciadas pelo ser humano, é o pretexto para Houellebecq operar uma mudança ficcional de paradigma, colocando uma hipótese ao leitor: e se o Islão fosse uma realidade viável no Ocidente?

Ao tentar colocar-se na pele de um muçulmano, entendeu que faria sentido a existência de um partido em que este se revisse. Analisando a situação política dos muçulmanos no Ocidente, constatou ser-lhes completamente alheia e distante: não se reveem na direita nem a direita se revê na sua cultura e a esquerda, pela sua ótica, roça o libertinismo.

A solução encontrou-a na História, que ciclicamente nos relembra a importância do homem providencial, o líder carismático e mobilizador. Mohammed Ben Abbes é a personagem-chave do romance, embora nunca surja no mesmo. A sua Fraternidade Muçulmana, partido que acaba por vencer as eleições em França é, à sua imagem, conciliador e iconoclasta.

Com esta bagagem, regressemos a François.

O professor, misantropo proficiente e profissional, com quinze anos de uma carreira para a qual nunca teve vocação, encontra na vida académica o seu habitat preferencial.

Entre dislates sobre o quotidiano, reflexões existenciais típicas de um quarentão solitário e irrelevantes disputas filosóficas com os seus pares, encontra nas alunas a companhia perfeita para o tipo de relação que lhe convém: fugaz, sem qualquer compromisso, fisicamente satisfatória e com a leveza emocional de um romance de cordel.

Até que conhece Myriam, e cedo percebe que nada seria igual depois dela. Apesar de ter alguns namoricos depois de também ela o deixar, sente que o inexorável peso da idade e o tédio da rotina e da previsibilidade lhe alteram os padrões que tanto estimava, desiludindo-se também com estas relações episódicas.

Começam a surgir indícios de graves problemas sociais logo nas primeiras páginas, com fações rivais à espera do pretexto certo para se confrontarem, impedimentos e dificuldades aos professores israelitas e rumores preocupantes de agressões a professores em plena universidade.

Mas quando a vitória da Fraternidade Muçulmana parece ainda uma hipótese remota, o nosso anti-herói fica devastado, perante a notícia de que a “sua” Myriam ia regressar à sua Israel natal, receosa do que se antecipava ser uma revolução social e política onde as mulheres da religião “errada” seriam ostracizadas.

A violência banaliza-se, juntamente com o conformismo de imprensa e inteligentzia, e o sentimento geral é de impotência e desresponsabilização, inclusive das autoridades policiais.

Neste contexto, o nosso protagonista decide refugiar-se no campo, em busca de algo que nem o próprio sabia identificar. É aí que, como Paulo de Tarso no deserto, tem uma revelação, momento chave do livro, em que, perante a Madonna Negra de Rocamandour, assume em definitivo a sua incapacidade de aceitação da fé cristã e regressa à civilização.

Houellebecq confessa encarar as personagens como projeções e nunca autorretratos, meras hipóteses para um futuro alternativo. Por exemplo: será que, estudando Huysmans e literatura, poderia um dia ser professor universitário? Talvez a impossibilidade desse futuro justifique a tristeza e a solidão latente em toda a sua obra literária. Mas em Submissão sobressai uma resignação quase obscena, que também se estende ao plano emocional.

Contudo, a base da obra é bem mais profunda do que poderá parecer. Houellebecq professa o fim do Iluminismo, hoje reduzido à irrelevância, gerador de infelicidade, recuperando a natural tendência humana para o metafísico. É simbólica a despedida de uma civilização, dos seus valores, uma viragem para um futuro ainda incerto, mas já, de certa forma, claro nos seus desígnios.

Apesar de Submissão se assemelhar ao clássico romance de ideias, Houellebecq é um homem do seu tempo, consciente da finitude do seu papel, quer como escritor-pessoa, cidadão francês, europeu e do Mundo, quer como escritor-espectro, inevitavelmente projetado nas personagens que cria, rejeitando responsabilidades sociais ou outras imputáveis meramente pela sua obra publicada.

Por ironia, é exatamente essa obra que o contradiz, retratando os intelectuais franceses como absolutamente passivos e irresponsáveis, praticamente inimputáveis sociais.

Em última instância, são os livros que desafiam as nossas conceções, aqueles que mais tarde ou mais cedo recordamos, quando a realidade se cruza com a ficção. Houellebecq tem o dom de usar a cultura que o rodeia para criar essas “pedradas no charco”, cujas ondas inevitavelmente nos tocam, criando admiração ou repulsa.

Dizia Pessoa, melhor que ninguém: “Sentir, sinta quem lê!”. Porquê contradizê-lo?



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This