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Super Bock Em Stock – 3 de Dezembro

Subindo e descendo a Avenida.

O Super Bock em Stock é um festival de escolhas. Escolhas obrigatórias, que por vezes dão pena. Concertos impossíveis de ver do início ao fim porque algures no outro lado da rua está a decorrer outro espectáculo que pode interessar um pouco mais. Umas vezes fica-se com pena, outras com a dúvida em relação às escolhas feitas; mas ficam sempre as descobertas. E é, afinal de contas, para isso que este festival serve.

A noite começa, então, na sala 2 do São Jorge, onde os The Shoes começam cinco minutos atrasados (cada minuto é fulcral, num festival destes), com o seu electro energético e bem construído, muito à base de samples, com dois vocalistas ao sintetizador, e outros dois em mini-baterias. Impossível não abanar o corpo perante o som feito pelo quarteto, e foi com pena que abandonei a sala após três ou quatro excelentes músicas e atravesso a rua para chegar ao Tivoli, onde Owen Pallett ia começar. Pede-se uma vinda dos The Shoes em nome próprio.

Owen Pallett, esse, foi o que se esperava: genial. Assinou um dos melhores concertos do ano no Maria Matos, e no Tivoli apresentou-se mais directo, interactivo e com maior dose de energia. Não foi, claro, melhor que no Maria Matos (menos tempo em palco, ambiente diferente…), mas foi mais um concerto magnífico dado pelo músico dentro das nossas fronteiras. Pallett sabia bem que o tempo era pouco, e usou-o da melhor forma possível, sem poucas paragens e com o músico a acabar uma canção já prestes a preparar-se para a seguinte; só lhe podemos agradecer o facto de ter tocado o maior número de canções possíveis. Num alinhamento que percorreu todos os seus álbuns (quando ainda usava o nome de Final Fantasy), com particular destaque para “Heartland”, lançado este ano, o músico deu um concerto lindíssimo, onde mostrou bem o porquê de ser considerado um dos mais únicos e talentosos violinistas/songwriters da actualidade. Aquele espectáculo de violino em loops com um toque de teclado é algo que só um verdadeiro génio musical conseguiria fazer, e o Tivoli cheio rendeu-se facilmente (mesmo com gente a abandonar a sala a meio do espectáculo, algo frequente no festival) a, por exemplo, espantosos momentos como «This Lamb Sells Condos» (com um pequeno engano a meio que forçou uma rápida paragem, mas com o músico a mostrar todo o seu talento ao retomar segundos depois a canção exactamente onde tinha parado), «This is the Dream of Win and Regine», e «Lewis Takes Off His Shirt», esta a encerrar o concerto de certa duma hora, após uma épica (não há outra palavra) cover de «Odessa», dos Caribou. Concerto lindíssimo e genial como só Pallett sabe dar, certamente para muitos o melhor de todo o festival. Que regresse depressa.

De seguida, saída a correr para ainda apanhar um pouco de B Fachada com Sérgio Godinho. Fila à entrada, com imensa gente à espera para entrar num São Jorge esgotado. O mecanismo era simples: sempre que alguém saía, entrava alguém para ocupar o lugar, e foi assim que se fez ao longo de todo o festival. Lá dentro, viu-se um Sérgio Godinho em excelente forma, e um B Fachada com o estilo de sempre. Quando alguém pede a canção «Zé», B Fachada responde à letra: “Por favor! Quando eu tocava essa, tinha aqui cinco pessoas à frente a ver-me, e o resto tudo vazio. Mas os jornais já sabiam! Os jornais já sabiam…”. Vi apenas três músicas, e não via B Fachada ao vivo já há imenso tempo. É interessante ver o quão grande o cantautor se tornou; não duvido que, caso estivesse sozinho, fora do festival, teria enchido na mesma a sala um do São Jorge. Foram minutos agradáveis.

Depois, corrida para o Hotel Tivoli, onde os Spokes, promissora banda britânica, iam começar. A chegada ao terraço, onde vai decorrer o concerto, é mais lenta que o esperado devido à avaria inesperada de um dos elevadores, sobrando apenas um para transportar todos os que queriam ver a banda, formando-se assim uma enorme fila. Quando lá chego, já eles começaram mas foi, para minha grande satisfação, possível ver ainda um bom bocado da actuação da banda. Ao vivo, a influência que o post-rock tem no seu estilo é ainda mais óbvio, com longos segmentos instrumentais e climaxes bem calculados em cada música. Estavam obviamente contentes por ali estar (como me tinha confessado um dos membros da banda em entrevista, algumas semanas antes, aquele era o primeiro concerto deles no estrangeiro), e aquilo que lhes falta só o tempo pode dar: experiência. Se continuarem assim, vão longe.

Infelizmente, os Adam Kesher tinham cancelado. Por isso, sai-se do Tivoli e vai-se a correr para o teatro de mesmo nome, onde Kele tinha acabado de começar a actuação. Energético em palco, com uma banda de três membros, e perante um Tivoli cheio e todo ele de pé, o concerto prometia vir a ser óptimo. Rapidamente se ouviu «Everything You Wanted», single do seu álbum a solo, recebido com entusiasmo. Kele corria, saltava, e a sua banda interpretava na perfeição as suas canções electrónicas. E foi com pena que decidi sair do seu concerto para ir ver antes Zola Jesus, que estava prestes a começar no São Jorge, um dos poucos concertos do festival que conseguiria ver do início ao fim.

Mais uma corrida até ao outro lado da rua, com um sentimento de pesar perante os concertos que já se perderam e se vão perder. Quando lá chego, Zola tinha acabado de começar, a a sala um do São Jorge estava já cheia. Entro de imediato graças à acreditação que transporto ao pescoço, e sento-me para ver aquela que foi, para mim, a maior surpresa do festival. Esperava que fosse bom, sim, mas não que a jovem Zola (de aspecto frágil) desse a cada canção uma interpretação tão teatral e intensa, movendo-se pelo palco (onde está acompanhada apenas por um músico no sintetizador, a um canto), por vezes atirando-se ao chão, vivendo cada canção enquanto a canta. A sua voz, essa, mostra perfeitamente o treino que teve em ópera e que depois abandonou: timbre forte, por vezes grave por vezes mais suave, impressionante e única. Um espectáculo de intensidade rara, que terá surpreendido pela positiva tanto aqueles que já antes gostavam como aqueles que foram à descoberta. Sai-se da sala com a sensação de se ter feito a escolha acertada. Praticamente sozinha, Zola Jesus encheu na perfeição o palco e deu um concerto exemplar.

Mais uma corrida para o Teatro Tivoli após o final do concerto, para ver mais um pouco de Kele, que está prestes a chegar ao fim. Como esperado, encontra-se um público em pura apoteose, e um Kele com ar profundamente satisfeito. Corpos a dançar por todo o lado com sorrisos na cara. Que belo concerto que deve ter sido. Vénia da banda, após uma excelente interpretação da grande «This Modern Love», dos Bloc Party, e o concerto termina.

Aproxima-se o último concerto da noite: Wavves, na garagem do Marquês de Pombal. À chegada, existe já uma enorme fila para entrar, mesmo faltando ainda cerca de vinte minutos para este começar. Aliás, foi possível ver ainda as duas últimas canções dos The Hundred in the Hands, que acabaram bem o espectáculo, numa agradável pedaço de rock com bom gosto. Mais um que se fica com pena de não se ter visto.

Quando os Wavves entram em palco, já a garagem estava cheia. Espaço curioso para concertos. Surpreendentemente, tudo corre bem: a acústica não é má de todo, e o estilo da banda adequa-se bem ao espaço. Entram em palco com ar “we don’t care”, e é moche instantânea mal começam a tocar. Não os considerei uma banda particularmente interessante no primeiro álbum, não os considerei uma banda particularmente interessante com o segundo álbum, e ao vivo são engraçados e é um bom concerto, mas continua a ser um hype que me passa ao lado. Som básico e até ocasionalmente genérico, feito por e para adolescentes que gostam de drogas e detestam tomar banho. E pelo que se viu, os dealers devem andar contentes com o negócio, e Portugal deve andar a poupar imensa água: tiveram todo o público à sua mercê. Mesmo para quem, como eu, não acha a banda nada por aí além, é impossível não gostar de um concerto de Wavves; o seu som contagia facilmente, e é uma verdadeira onda de energia rock. Riff’s daqueles divertem, tal como toda a postura da banda em palco. Percorreram os seus dois álbuns, tocando «King of the Beach» (single do segundo registo de mesmo nome) logo perto do início. «So Bored» e «Post Acid», já em encore, terminaram o concerto e o primeiro dia de festival em apoteose absoluta. Para mim, não foi o melhor daquele dia; mas certamente muitos dirão o contrário. Mas lá que foi bom, lá isso foi.

Sai-se da garagem a suar e provavelmente com uma ou outra nódoa negra, mas com ar satisfeito. Alguns concertos vistos, alguns concertos perdidos; alguns vistos aos pedaços, alguns vistos do início ao fim. E após uma bela noite de música, chega-se a casa com um único pensamento: amanhã há mais.



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