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Super 8

Na Era do vídeo digital e da imagem de alta definição, alguns revivalistas preferem filmar com rolos de filme gasto e pouco polido O Super 8 tem sido cada vez mais utilizado em curtas e longas-metragens, anúncios e videoclips. Um formato analógico que voltou para ficar.

De certa forma, este novo entusiasmo pelo super 8 acaba por ser mais um elemento do revivalismo que caracteriza os dias de hoje. “Podemos observar nos últimos tempos uma tendência revivalista em muitos sectores como a moda, o design de produtos, até nos automóveis” diz Fernando Marques, webdesigner e um dos fundadores da Comunidade Super 8, um site de partilha de informação sobre este formato. “O cinema também não passa ao lado dessa tendência retro, por isso vemos cada vez mais artistas com vídeo clips, anúncios de TV e mesmo filmes gravados em super 8.” Por outro lado, Fernando considera que há uma certa saturação da imagem digital: “o excessivo uso do digital nos dias de hoje, que nos permite até ver filmes em 3D, saturou um pouco o cinema, daí que se verifique uma tendência de recuperar formatos mais fiéis à essência da película”.

O fenómeno é mundial, mas Portugal tem acompanhado o passo. Realizadores como Rodrigo Areias, Patrick Mendes e Edgar Pêra recorrem muitas vezes (ou, nalguns casos exclusivamente) a este tipo de película nas suas curtas e longas-metragens.

Mas Paulo Furtado, vocalista dos Wray Gunn, é provavelmente o entusiasta do Super 8 que mais se destaca no nosso país. O artista compara a imagem do Super 8 com a sua música, visto ambos não serem “limpos nem perfeitos. Notam-se os erros, mas os erros também fazem parte da obra”.

A sua relação com o formato começou com o seu primeiro álbum como Legendary Tigerman, “Naked Blues”, lançado em 2001. O fotógrafo André Cepeda realizou em super 8 o videoclip da música que dá nome ao álbum. “Atraiu-me logo o aspecto plástico e a simplicidade de filmar, mesmo com pouca luz e com poucos meios”, conta o músico.

Desde então sucedem-se os seus projectos com esta película. Filmes gravados no formato são projectados nos seus concertos como Tigerman, como complemento à sua actuação. “Visto ser uma one-man-band, acabo por ficar muito tempo parado em palco, e o cinema empresta algum movimento ao espectáculo” explica.

Em 2006 lançou também um DVD em simultâneo com o álbum “Masquerade” que incluía curtas realizadas por cineastas como Paulo Abreu e Edgar Pêra.

A realização do vídeo da remistura pelos Bullet de Love Train (incluída no álbum “In Cold Blood”), a sua primeira “aventura pública por trás da câmara. Mais recentemente realizou sozinho uma série de curtas para acompanhar o seu último álbum, “Femina”, onde participaram Asia Argento e Inês de Medeiros.

Paulo Furtado conta que a única educação cinematográfica que recebeu foi um “curso intensivo de 30 minutos” dado pelo realizador Rodrigo Areias. “Ele aconselhou-me acima de tudo a não me preocupar com os aspectos técnicos e estéticos da rodagem, mas sim apenas com o saber contar uma história”. A partir daí, Paulo Furtado aproveitou a simplicidade do super 8 para a experimentação. “Utilizei, por exemplo, películas fora do prazo ou então filmei cenas a uma velocidade diferente da recomendada para este formato.

Em 1965, a Eastman Kodak Company lançou o formato super 8, essencialmente como um “upgrade” ao anterior formato de 8mm. A principal vantagem introduzida foi o cartucho de filme, bastante mais prático de carregar nas máquinas do que o filme normal, que apenas podia ser carregado no escuro. Por outro lado, a perfuração da película foi reduzida, aumentando assim a área de impressão do filme em mais ou menos 50%. Outras empresas (Agfa,Fujifilm, Polaroid) entraram também neste mercado. O super 8 tornou-se assim em pouco tempo o formato mais acessível para os realizadores amadores gravarem os casamentos e baptizados das suas famílias.

No entanto, a tecnologia desenvolve-se numa tendência darwinista e, com o surgimento do vídeo, mais barato, mais prático e com melhor qualidade de imagem, o super 8 foi destronado. Pouco a pouco, deixaram de se fabricar máquinas super 8 e grande parte dos modelos de cartuchos. Actualmente só a Kodak produz ainda cartuchos, mas as as películas sonoras, por exemplo, foram descontinuadas por completo.

Assim, os superoitistas da nova geração têm que explorar sótãos e garagens de pais e avós, visitar lojas de antiguidades e feiras da ladra ou pesquisar no eBay à procura de equipamento que suporte o formato.

Foi para facilitar esta busca e também para divulgar informação em português sobre o formato que Fernando Marques e Rita Tanqueiro criaram a Comunidade Super 8. O site desta comunidade funciona como fórum onde os participantes podem trocar informação sobre o formato, comprar e vender câmara e até partilhar os seus vídeos no formato.

O casal apaixonou-se pelo aspecto retro de uma máquina super 8 que um amigo lhes ofereceu quando faziam Erasmus em Paris. “Curiosamente a máquina estava avariada”, contam, “no entanto, devido à sua simplicidade e ausência de qualquer “modernice” electrónica, facilmente ficou a funcionar. A curiosidade levou-nos a adquirir um cartucho de super8 e a fazer o nosso primeiro filme, que pode ser visionado no nosso website.” O filme foi revelado nos estúdios da Kodak na Suíça. O casal depois comprou um projector numa loja de velharias, para poder ver a versão final. “Quando o vimos, foi mágico!”

Segundo Fernando, a grande parte dos entusiastas que participam no fórum do site são “pessoas que trabalham com vídeo ou apenas gostam de vídeo”. O aspecto “retro” de tudo o que envolve o formato, desde a câmara, o projector e a película parece ser factor de interesse dominante. “Temos casos de jovens que descobriram um projector e umas bobines de filme em casa dos pais ou avós e ficaram imediatamente fascinados, mas também os próprios “avós” nos pedem informação pois ficam muito admirados por ainda se falar em super8 e gostariam de reavivar boas memórias e saber onde podem voltar a adquirir material ou recuperar velhos filmes que se degradaram com o tempo.

Apesar de as máquinas já não serem tão difíceis de encontrar quanto isso, surge ainda um grande obstáculo: a revelação. Como é óbvio, não é vulgar encontrar laboratórios que ainda revelem este formato. Mas ainda existem alguns, espalhados pela Europa fora.

Cá em Portugal, surgiu em 2007 o Átomo 47, um laboratório especializado na revelação de formatos analógicos de cinema e fotografia. Situado na Rua do Almada, no Porto, é o único na Península Ibérica que revela formatos de cinema como16mm, 8mm e super 8, e 35mm, 120mm, de fotografia.

Ricardo Leite, um dos impulsionadores deste projecto conta que já houve fases em que o laboratório era mais procurado por fotógrafos, mas que actualmente “são mais os superoitistas que aparecem cá. Procuram-nos para trabalhos, para comprar câmaras ou película, ou simplesmente para obter informações”. Ricardo atribui o interesse pelo formato à “nostalgia” e a busca de uma imagem “mais quente, mais física, mais presente” que não se consegue encontrar no vídeo.

Ricardo afirma que a revelação neste laboratório é um pouco diferente do comum. “Não é uma loja em que chega o cliente, preenche uma ficha a dizer o que quer e vai se embora. Aqui a pessoa explica o projecto, nós vemos em que é que podemos ajudar, damos sugestões, dizemos em que podemos contribuir ou não. É um espírito mais associativo do que empresarial” esclarece.

Paulo Furtado já colaborou com a Átomo e considera “um grande passo” a abertura de um laboratório destes em Portugal. Os seus filmes a cores tiveram, no entanto, que ser revelados em Itália, pois por agora, o laboratório portuense encontra-se limitado a revelação de preto e branco.

Sendo o processo completamente manual e por isso trabalhoso, a Átomo ainda só tem capacidade para revelar curtas-metragens. Mas o projecto está a crescer. Em breve irá mudar da Rua do Almada para uma rua mais próxima do ESAP(Escola Superior Artística do Porto) e do IPF (Instituto Português de Fotografia) e novos equipamentos serão adicionados, que permitirão a revelação mecanizada, que já irá permitir a revelação a cores e de grandes metragens.

Com o crescimento deste laboratório e com o surgimento de cada vez mais cursos e escolas de audiovisual em Portugal, é provável que a tendência superoitista venha a ganhar cada vez mais força no nosso país.



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