rdb_48_header

“48”

Quantas imagens contam um Regime? Entrevista com Susana de Sousa Dias.

Susana de Sousa Dias, cineasta portuguesa, lança em 2009, pela Kintop – produtora que fundou em 2001 e que tem especial foco nos temas da história e sociedade contemporâneas -, ‘48’ (93′, 2009). O filme aborda as “acções da polícia política sobre o corpo e a mente dos prisioneiros”, conforme escreve a realizadora, durante a ditadura portuguesa. Fortemente aclamado pela crítica, e apresentado em festivais um pouco por toda a Europa, Brasil, Senegal e Cabo Verde, foi galardoado com o Grande Prémio do Cinéma du Réel 2010.

36 anos depois da Revolução e do fim da Ditadura em Portugal e com todas as abordagens – desde filmes a documentários e debates –feitas ao tema, como é  que surge o ‘48’?

O ‘48’ surge a partir de um percurso que começou nos anos 90. Foi nessa altura que surgiu o meu interesse pelo Estado Novo, sobretudo pelo cinema produzido no período anterior ao final da 2.ª Guerra. Depois, em 2000, comecei a centrar-me nos materiais existentes no Arquivo da PIDE/DGS. Estava a fazer um outro filme, ‘Processo-Crime 141/53 — Enfermeiras no Estado Novo’, e foi nessa ocasião que vi os álbuns de reconhecimento com as fotografias dos presos políticos. Foi um momento absolutamente marcante do meu percurso enquanto cineasta. Foi também nessa altura que entrei pela primeira vez no arquivo audiovisual do exército. Todo esse conjunto de imagens esteve na base de um filme sem palavras, também sobre a ditadura: ‘Natureza Morta’ (2005). Ou seja, trata-se um pouco de filmes que vão saindo de filmes — 48 foi o filme que saiu de ‘Natureza Morta’ — mas que têm a sua génese no arquivo. Costumo dizer que uma vez dentro de um arquivo, dentro do arquivo para sempre.

O tratamento das imagens e os relatos na primeira pessoa atribuem sobretudo uma veracidade e crueza aos relatos, quase como se tivesses montado uma história pouco tempo depois do fim da ditadura. Como é  que seleccionaste os intervenientes e os relatos?

O filme, na sua origem, parte de três fotografias. Quando estava a fazer ‘Natureza Morta’, tive de pedir autorização aos antigos prisioneiros para poder filmar as suas fotografias no Arquivo da PIDE/DGS (Arquivo Nacional da Torre do Tombo). Isto foi em 2003. Falei com algumas pessoas sobre as suas próprias fotografias de cadastro e o que elas disseram revelou-me todo um outro lado da imagem, para além da sua visibilidade, um lado passível de ser apreendido somente através do complemento da palavra. Foi nessa altura que comecei a pensar que talvez fosse possível construir um filme a partir de uma ideia aparentemente — e friso aqui o aparentemente — muito simples: mostrar a imagem, ou seja, colocar o espectador em confronto com a imagem, e deixar ouvir a voz da pessoa fotografada. Portanto, houve esta situação “imagem e história associada”, mas também houve outras imagens, cuja história interna desconhecia, que achei fundamental fazerem parte do filme: as fotografias do António Gervásio, por exemplo. Independentemente de tudo o que revelam, conseguem-nos transmitir por si só o que foi a violência da duração da ditadura. Outro critério de escolha foi também o da história pessoal. Conhecia episódios da vida de algumas pessoas que achei importante incorporar. E finalmente, o caso dos prisioneiros africanos. Quando iniciei o filme não previa incorporar prisioneiros das antigas colónias. Quando comecei a centrar o filme na tortura, cheguei à conclusão que era impossível não o fazer. Claro que houve também muita investigação: nos arquivos, nos livros já publicados e também por meio de conversas que ia mantendo com os próprios ex-prisioneiros e com historiadores.

Qual foi o teu principal objectivo ao realizar este documentário?

Há sempre vários objectivos. Um deles é trazer à luz vivências que correm o risco de permanecer no esquecimento. O que temos garantido são os documentos depositados nos arquivos. Ora, que documentos são esses? O que nos revelam? Que lacunas contêm? Estas questões são tanto mais importantes quanto sabemos que se trata de um arquivo de uma polícia política de uma ditadura que durou 48 anos. Para além disso, o arquivo nunca poderá ascender ao estatuto de memória verdadeira, será sempre uma “memória de muletas”, como diz Ricoeur. É preciso trabalhar os materiais, questioná-los, reinterpretá-los, confrontá-los; só assim se trabalha a memória, memória que é a matriz da história. Quando mostrei num festival aqui em Portugal, o ‘Processo-Crime 141-53’, um filme que tem por base o processo judicial de duas enfermeiras que foram presas por quererem casar, um realizador da RTP acusou-me de o filme não ter contraditório. Afirmava ele que eu deveria ter entrevistado os pides. Ora, os pides têm voz: todo o arquivo da PIDE/DGS é um testemunho das suas acções, dos seus métodos, da sua forma de pensar. Quem não tem voz são os prisioneiros. Nenhuma tortura aparece descrita. É, por isso, muitíssimo importante proceder a esta recolha, fazer todo um trabalho de história oral enquanto as pessoas que viveram nesta época estão entre nós. No meu caso, tento contribuir fazendo filmes.

O director do Doclisboa, Sérgio Tréfaut, apelidou o ‘48’ do filme “mais ousado e vanguardista”, explica-me a nível de produção e realização, como é que tornaste um tema como a Ditadura num filme de vanguarda.

O que se passa com o filme é que procurei encontrar a solução estética que mais se coadunasse com o que pretendia mostrar e dar a ouvir. A solução encontrada foi original — é um comentário que tenho ouvido nos mais diferentes círculos onde tenho mostrado o filme — e por isso mesmo também mais arriscada. Antes de mostrar o filme não fazia ideia de quais seriam as reacções. No fundo, tratou-se apenas de articular, da maneira mais justa, quanto a mim, as questões tratadas com as opções formais.

Que significado ou que importância teve o fim da ditadura e a Revolução na tua vida em particular? Social e politicamente quais sentes que foram as grandes mudanças –  positivas ou negativas?

O 25 de Abril teve um grande impacto na minha vida. Isto parece uma evidência — uma revolução tem sempre um grande impacto na vida das pessoas que são directa ou indirectamente atingidas por ela — , mas no meu caso, como era muito jovem, acabou por me formar. O mais impressionante, para mim, foi ver o país mudar de um dia para o outro. Só quem viveu uma situação destas pode imaginar como é. Depois, comecei a ter actividade política, que passava também por ir para outras zonas do país, no meu caso o Alentejo, trabalhar no campo e alfabetizar. Esta experiência vivi-a, sobretudo, no período entre os meus 12 e 14 anos. Foi aí, verdadeiramente, que percebi o que tinha sido o fascismo. E que encontrei camponeses de uma dignidade e honradez impressionantes; de certa forma, também eles contribuíram para o que sou hoje. Foi uma experiência fundadora e posso dizer que se hoje faço estes filmes, a esse momento o devo.

Conta-me um pouco sobre o percurso do «48» desde que estreou.

O filme foi estreado no DocLisboa em 2009, alguns dias apenas após estar concluído. Depois, foi seleccionado para o Festival Cinema du Réel, em Paris, onde viria a ganhar o Grande Prémio, e para o Festival ‘É Tudo Verdade’ em São Paulo e Rio de Janeiro. Em Portugal foi exibido também no Panorama e no Doc’s Kingdom. Já foi mostrado em Cabo Verde, no Senegal, vai ser apresentado em festivais na Grã-Bretanha, na Itália, na Áustria, entre outros países. Também tem suscitado o interesse de outros circuitos: falei sobre o filme no Collège Iconique do INA (Institut National du Audiovisuel), em La Fémis, a escola de cinema de Paris, na Universidade de Verão da Sorbonne-Nouvelle, etc. Onde tem sido mostrado, o filme tem originado discussões vivas e tem ganho outras dimensões, é muito interessante. Também tenho sido contactada por pessoas do público, que me escrevem a comentar o filme. É como o José Gil diz: o objecto é lançado no espaço público e quando retorna ao seu autor já vem transformado, ampliado pelo pensamento dos outros. Mas isto é o que se passa lá fora. Aqui em Portugal, muito pouco se disse sobre o filme. O que não deixa de ser surpreendente, dado o tema.

Qual é o teu maior orgulho na realização deste documentário?

É esse mesmo: tê-lo realizado.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This