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Swans @ Lisboa Ao Vivo (09.10.2017)

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Está uma noite a convidar o Outuno na zona mais oriental de Lisboa. Entre os armazéns que se estendem pela Avenida Infante Dom Henrique, ergue-se por ali um espaço recente (inaugurado há coisa de um ano) ao qual decidiram chamar Lisboa ao Vivo. É por ali que os nova-iorquinos Swans se iriam apresentar ao público da nossa capital, depois de em Junho passado terem estado no NOS Primavera Sound, no Porto. À porta, as poucas pessoas que por ali se vêem já estão a tomar a direcção do interior da sala. Ainda dá para espreitar um pouco o que se passará lá dentro. Na mesa de merchandising, um anúncio suscita a curiosidade de todos os que entram na sala: Michael Gira, vocalista, guitarrista, fundador e a principal cara dos americanos, iria estar ali presente no fim do concerto para se encontrar com os fãs da banda. E esta será provavelmente a última vez que veremos os Swans por Lisboa, pelo que era sem dúvida uma noite bem especial. Muitos sabiam disso, daí que pela sala se veja um grande cruzamento de gerações, com uma boa parte a envergar orgulhosamente indumentária com o nome da banda estampado. E não é para menos: a história dos veteranos do drone e do experimentalismo com umas boas bases de rock já vai longa e já conta com muitas vidas.

Chegam às 20:30 e é altura de Baby Dee, multi-instrumentista que ali se mostra só com acordeão e acompanhada, como veio mais tarde a apresentar, pelo seu sobrinho na guitarra acústica e que foi aquecendo o público com o seu folk celta, negro e bem humorístico, contando histórias bem sinceras de bebidas, desacatos e encontros familiares, com um ambiente bem misterioso e negro, quase como se estivéssemos no meio de um conto de Edgar Allen Poe.

Terminado o concerto da abertura, é tempo de preparar o palco para os Swans. E bem, bem que já podem ter mais 30 anos de carreira e 14 álbuns gravados na bagagem, mas não é por isso que deixa de ser a própria banda a acabar de por os instrumentos em ordem. E assim que Michael Gira entra em cima do palco para tal, sente-se imediatamente o poder da sua figura. Ainda com a música de fundo da sala a ecoar, experimenta um acordes para confirmar que tudo está ok. E assim que o faz, o peso da sua guitarra deixa desde logo uma antevisão para o que está aí a chegar. Como se alguém por ali não o soubesse. E à hora marcada chegam os americanos para dar início ao concerto, recebidos calorosamente pelo público.

O instrumental vai começando, gradualmente, com camadas de ruído a sobreporem-se sucessivamente o que faz o volume ir aumentando também. Faz-nos mergulhar naquele mar de sons, vindo dos 6 músicos que ali estavam. O “maestro” Gira ia puxando pelos seus companheiros, dando os tempos para entrar, ditando quando se deveria aumentar mais volume ou criar mais ruído, ora olhando para eles, ora fechando os olhos e levantando os braços e à cabeça, como que a chamar a si uma tempestade. Todos os outros muitos atentos, especialmente quando o seu líder dava o mote despejar um acorde para que toda a banda o desse em simultâneo, num extenso drone onde se deixava tudo soar o máximo de tempo possível. Há tempo para tudo.

O primeiro momento de pausa vem passado uma hora de concerto e com ele o segundo aplauso caloroso, como se toda a gente tivesse de repente acordado de um transe e quisesse agradecer por aquela viagem que tinham acabado de fazer. Gira aproveita o silêncio para pedir encarecidamente para baixar o ar condicionado a soprar por cima dele e que não pode recomeçar enquanto não o fizerem, podendo assim afectar a sua voz.

Recomeçamos com mais algumas malhas do último álbum, “The Glowing Man”, editado no ano passado. Gira vai cantando palavras longas e fulgurosas, mas apoia-se sempre na sua estante com uma data de folhas empilhadas. Quer garantir que diz as palavras certas. Estamos assim perante um espetáculo muito medido o que, apesar de ser um som carregado de ruído, deixa a sensação que tudo ali é bem pensado e que cada pequeno uivo das guitarras ou cada subida da steel guitar faz sentido naquele mundo, que por quase três horas deixou a tremer o armazém. Eles já são conhecidos por concertos longos mas esta é a tour de despedida, tinha de ser mesmo especial. E assim foi. No final, a maior parte das pessoas que viu o anúncio na banca de merchandising acedeu ao convite e ficou por ali para conseguir troçar uma palavra com Gira. Afinal de contas, era uma espécie de fechar um livro. Mas, como disse há pouco tempo, ele não vai parar, pelo que é bem provável que o possamos ver por aí, numa nova vida qualquer. Estaremos cá para ver o que se segue.

 

Texto por Tiago Covas e fotografia por Margarida Ribeiro.

 



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