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SWANS

Migrar para onde mais dói

Ser. Pertencer. Recuar. Mexer no passado. Sair da zona de conforto, não porque há algo além de mais desafiante mas porque a tua mãe, que nunca conheceste, está em coma e mudas de país para conhecer, agora, um corpo desconhecido com o qual tu, corpo e mente, não sabes lidar.

Este é o universo da nova longa-metragem de Hugo Vieira da Silva que estreia esta semana em exclusivo no Cinema City Classic Alvalade. Não é por isso um convite meigo, mas é sem dúvida um convite bastante aguardado depois do já premiado “Body Rice” onde o realizador explora outro não-lugar, o Alentejo desértico, cheio de uma realidade de adolescentes alemães enviados para Portugal a fim de reeducação social, e que encontram um ritmo sensorial diferente. Aguardada sobretudo era a estreia de “Swans”, agora em Portugal , depois de ter estreado no Festival de Berlim, de ter recibo a menção honrosa no IndieLisboa em 2011, passado nos festivais de Buenos Aires, Las Palmas, Jerusalém, Wroclaw, México, Finlândia e Turim.

“Swans” é um voo doloroso de um pai e filho que viajam para Berlim para enfrentar na cama de hospital o coma de uma mulher que parecia tão distante da vida dos dois mas que os conduz, numa quase obrigação, ao confronto com ela, um com o outro, com eles próprios e com o medo da morte. Este voo passa ainda pela intimidade, sentidos, sensações e sentimentos porque de tão diferentes estes podem às vezes fazer parte de uma só experiência num momento da vida em choque com o temor da morte. E este novo filme de Hugo Vieira da Silva quer chegar de forma crua a essa experiência da vida em choque com a morte.

O cenário é Berlim onde reside o realizador, que acaba assim por contar a sua experiência de migração, nesta Berlim que o acolhendo o mantém passageiro, explorando de novo o conceito do não-lugar, de um corpo em busca de lugares familiares. Já em “Body Rice”, e de novo em “Swans”, há esta constante pergunta: onde é que me sinto em casa, se o meu corpo parar agora oiço o meu ritmo, mas é um ritmo normal, ou está alterado pelo lugar onde estou, consigo eu apanhar a batida do meu próprio corpo, ser e estar se a procurar nos lugares certos?

O que também está vincado em “Swans” é a ideia de passagem e de pertença, tanto em lugares como em objectos e sentidos. Afinal, migramos como as aves, mas e se perdemos a rota? Em “Swans”, quando não há memórias de uma mãe ou lugares de “conforto” e encontro, a busca faz-se incansável a esses lugares. Afinal, ruas são ruas, aqui ou em Berlim, ou talvez não, mas mais que lugares a sentidos e sensações: cheirar, tocar, ouvir, vai-nos dar respostas, tem de dar respostas quando o lugar onde estamos nos é deserto de qualquer emoção.

Este é um caos sentido em todo o filme; uma desorientação, uma busca de sentido pelos sentidos, forçada pela força das imagens cruas e pelos não diálogos. Esta ausência de diálogos é usada em todo o filme como um dedo teimoso na ferida. Uma imposição do silêncio que nos inunda e faz mergulhar no universo deste pai e filho a ponto de a certa altura do filme perdemos quase o ar, para o voltar a suster e gritar no silêncio da sala. Gritos de ajuda a um pai perdido no tempo e no espaço do filho em que não consegue penetrar. Gritos de fúria ou de angústia para um filho que na insensibilidade aparente quase que sangra o próprio corpo quando sente o estranho magnetismo para com o corpo da mãe que, de início ao fim do filme, está prostrado na cama de hospital, respirando, o respirar que não se apaga e que aviva uma ligação entre os dois. Este respirar a que os médicos dão poucas mais esperanças é um tic-tac constante, tenebroso e brilhante.

Hugo Vieira da Silva foi altamente aclamado pela crítica pela sua vertente alternativa de ver e dar a ver, sendo que o que vemos na tela depois da forma é o conteúdo banal da perda, da morte de quem nos é mais próximo, do tempo que foge, das barreiras dos diálogos nesse tempo e de tudo o que nos distrai do que nunca queremos ver; e se de repente alguém tão íntimo nos estivesse a morrer perante os olhos? Viramos o olhar tantas vezes, mas não podemos virar o olhar quando é connosco que se passa. E como se passa e ultrapassa esta interioridade da dor?

A ver, mais cinema português, todo falado em Alemão, com toda a atenção a tanto que é dito sem ser, este filme cheio de coisas que custam.



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