Takk, Sigur Rós

Duas perspectivas sobre um dos concertos do ano.

Há duas formas de descrever jornalisticamente concertos, bem como um sem número de outras situações e eventos: há aquela toada mais conservadora, mais formal, mais rígida, e há outro registo mais livre, mais espontâneo, mais emocional, se quisermos. Falar de um concerto dos Sigur Rós não é fácil. Longe disso.

Podemos tentar uma aproximação mais formal, primeiro. Para esse registo, comecemos por dizer que os Sigur Rós apresentaram-se pela terceira vez em Portugal para uma dupla data nos Coliseus de Porto e Lisboa, respectivamente. O intuito era a apresentação de “Takk”, mais recente disco de originais dos islandeses. Recuperaram-se também temas dos discos anteriores, mas a ementa maior foi servida de composições novas, dotadas de um brilho ainda mais intenso quanto transpostas para palco. Na primeira parte actuaram as Amina, meninas que acompanham os Sigur Rós nas cordas, electrónicas, e não só.

Muito, muito resumidamente, isto seria um relato formal, meramente descritivo e pouco contemplativo do concerto que se viu no Coliseu de Lisboa. Mas não, não é este tipo de relato que a cerimónia quase religiosa vivida merece.

A música dos Sigur Rós é uma música de emoções. É aquele tipo de música que nos remete para a mente, para sensações, para experiências. É aquele tipo de música que nos faz lembrar a nossa namorada do Secundário, que nos faz pensar na pessoa querida que perdemos recentemente, é o tipo de sonoridade que nos faz acreditar que o silêncio, o vazio, o nada, pode ser a coisa mais ensurdecedora, recheada e preenchida de todo o sempre. Os Sigur Rós fazem-nos sorrir, fazem-nos olhar para a pessoa que está ao nosso lado na plateia e pensar que, não obstante essa pessoa tentar, com ruídos imperceptíveis, cantar numa língua que desconhece, todos estamos em comunhão. Todos fomos ali para o mesmo. E esse mesmo não é só um concerto, comprovámos todos. “Agaetis Byrjun” é uma obra-prima difícil de superar, mas o vazio parentético de há uns anos e o “Obrigado” de agora mostram ainda uma banda em estado de graça, que consegue, ao vivo, superar tudo aquilo que pensávamos insuperável.

Pensemos, por um instante, no nada. No tudo. Fechemos os olhos, deixemo-nos guiar pelas intensas emoções que a voz de Jónsi carrega. Sejamos intuitivos, pensemos na comunhão que os quatro Sigur Rós e as quatro Amina demonstram em palco. Alguém liga o telemóvel para deixar a namorada ouvir alguns segundos de «Viðrar Vel Til Loftárása». Outro alguém prefere, curiosamente, fazer os chamados “cornos do metal”. Tudo bem, cada um celebra como quer, e a exteriorização de sentimentos é uma das características chave de um concerto dos Sigur Rós.

Tudo nos Sigur Rós é tão celestial como demoníaco. Quero acreditar que, caso a minha viagem terminal tenha como meta final o Paraíso, uma música como «Glósóli» me acompanhe na viagem. Mas também vos garanto: se o Inferno for o meu destino então que «Olsen Olsen» ou «Popplagid» me sirva de banda-sonora para tamanha travessia. Ah, e lembram-se da namorada do Secundário? Passou-me novo flashback dela, agora. E daquelas tardes em casa da minha avó, a comer torrões de açúcar e a brincar com o cão da vizinha. E aquela ida ao Circo com os colegas do Infantário. Isto é o poder que a música dos Sigur Rós tem. Remexe com o nosso interior, palpita os nossos mais íntimos momentos, alivia qualquer sensação de impotência perante os factos da vida.

Posso voltar agora ao registo formal? Só por um instante. Somente para dizer que há muito, muito tempo que não se via um Coliseu de Lisboa tão composto e tão convertido a uma causa musical. A despedida, difícil mas inevitável, incluiu cenas de choro, histéricos gritos, ensurdecedoras palmas. Concluía-se assim uma das grandes noites musicais do presente ano, momento que figurará como localização maior do mapa pop de concertos de 2005.

Resta uma coisa para dizer (já estou no estilo livre outra vez): “Takk”, Sigur Rós. Que a luz vos continue a iluminar e que o reflexo se abata sobre nós, como hoje o vivemos, como ontem o recordamos, como amanhã o aguardamos. Porque há coisas simplesmente “bigger than life” e vocês sabem que são uma delas.



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