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Teatro de São Paulo na invicta

A Falecida Vapt-Vupt + Prêt-à-Porter (Colectânea 2) @ TNSJ, Porto

Ao abrigo de um protocolo entre o Teatro Nacional São João (TNSJ) e o Centro de Pesquisa Teatral do SESC – São Paulo, a cidade Invicta teve a oportunidade para receber, durante cerca de duas semanas, um suculento cartaz, composto por duas peças da companhia brasileira e ainda um workshop com o encenador brasileiro Antunes Filho. Em Junho, será então a vez do TNSJ levar à cena, no Teatro Paulo Autan, em São Paulo, a peça “Turismo Infinito” (encenado pela dupla António M. Feijó e Ricardo Pais). Pais também irá realizar uma masterclasse neste âmbito.

Um primeiro factor de surpresa foi a disposição espacial de ambas as peça, extremamente intimista com o palco e a plateia a serem montados na boca de cena. Como resultado, em ambas as peças o público estavam “em cima” dos actores, podendo observar com cuidado todos os pormenores e acompanhar de uma forma mais próxima todos os movimentos das peças. Esta proximidade permitiu também aos actores um registo muito mais intimista, designadamente pontuando o registo vocal com frequentes oscilações de volume, por vezes que roçando um sussurro que só conseguíamos ouvir pela escassa distância física que nos separava.

Apesar de poderem ser vistas de um modo integrado (como fez a RDB), uma vez que, na prática, as apresentações se sucedem (com um intervalo de hora e meia para jantar), importa sublinhar que se tratam de duas peças bastante distintas.

“Prêt-à-Porter (Colectânea 2)” recupera alguns dos melhores momentos de uma década de apresentações teatrais neste registo “pronto-a-vestir”. Do que se trata? Pretende-se, utilizando o mínimo de artifício em termos cénicos (os adereços de palco ficam reduzidos ao mínimo essencial, o jogo de luzes é, ainda que bem trabalhado, simples), dar destaque aos actores e aos seus skills. Criados em 1997, por Antunes Filho, os “Prêt-à-Porter” tornaram-se numa espécie do paradigma da abordagem cénica inovadora proposta pelo encenador do CPT/SESC-SP.

Nesta colectânea foram apresentados, três momentos distintos (“Estrela da manhã”, Bibelô de Estrada” e “Poente do Sol Nascente”), um conjunto de breves histórias, sempre estruturadas no formato diálogo, em são os próprios actores que escrevem, encenam e actuam. Tratam-se quase de exercícios de estilo que, apesar do tom despreocupado, revelam o rigor técnico e a excelência do corpo de actores do SESC – destaque para Emerson Danesi, brilhante, que se conseguiu transfigurar na perfeição aos três registo diferentes (foi travesti, fugitivo e ainda o cliente tímido e perturbado de uma prostituta). A permanente ambiguidade do registo constitui outra das marcas de “Prêt-à-Porter (Colectânea 2)”, nunca se sabendo muito bem, no contexto descontraído com que os actores vão fazendo as mudanças de cenário e de guarda-roupa, quando começa e termina a representação – assumindo, na prática, que tudo o que é movimento em palco é representação. Muito bem interpretado e encenado, “Prêt-à-Porter (Colectânea 2)” é um elogio à criatividade e à versatilidade dos actores, provando como, com poucos recurso, é possível obter magníficos resultados! Ficamos a aguardar que, em próximas vinda ao Porto, sejam apresentadas outras colectâneas dos melhores momentos de “Prêt-à-Porter”.

Baseada num texto do célebre escritor e cronista brasileiro Nélson Rodrigues, “A Falecida Vapt-Vupt” assume-se como uma peça muito mais estruturada do ponto de vista formal. Destaque-se o trabalho de cenografia, iluminação e sonoplastia, que resultou de um modo muito interessante na recreação de um “boteco” carioca onde o espectador pode observar as vidas caóticas de um conjunto de personagens. Escrito na década de 50, o texto de Rodrigues mantém uma curiosa actualidade, adaptando-se particularmente bem (imaginamos nós!) ao ritmo frenético e ao cacofónico do quotidiano de uma grande metrópole como o Rio de Janeiro, num encadear de cenas e situações que, progressivamente, ajudem a compor um mosaico de histórias que só seriam possíveis aqui. Sempre num registo ácido e negro que caracteriza o estilo do autor, “A Falecida Vapt-Vupt” impressiona menos que “Prêt-à-Porter (Colectânea 2)” (as comparações são sempre injustas e conjunturais), apesar da excelência e da versatilidade do elenco do CPT/SESC-SP.

Aguardamos com expectativa próximas sequelas desta inspiradora parceria entre São Paulo e o Porto que, acreditamos, ainda trará aos públicos de ambos os lados do globo, óptimas surpresas com a arte da (boa) representação!



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