The Bling Ring

“The Bling Ring”

A pancada não é seca, mas o interior é oco

Quem a conheceu enquanto o pouco carismático rebento adolescente de Michael Corleone, dificilmente poderia prever que Sofia Coppola se viria a revelar enquanto uma das mais surpreendentes cineastas da última década e meia. Movendo-se por terrenos cuja epiderme raras vezes é dilacerada, a artista veio a alicerçar a sua linguagem em contos assombrados de alienamento mais tangentes a uma leitura atmosférica do que à retórica.

Foi assim que se apresentou no determinismo visceral das irmãs Lisbon, num conto de transição para a idade adulta que remexeu as entranhas de um domínio genericamente associado a alguma leviandade. Mas era isto o início, assente numa base literária, de uma emancipação que nos traria mais tarde uma fábula onde esse alienamento interior se viria a reflectir num suporte geográfico, num dos mais belos e desencantados contos do virar de século – falamos de “Lost in Translation”.

Entretanto, Coppola serviu-se dessa sensibilidade para recontar a história de uma Maria Antonieta contaminada pela cultura popular de uma adolescência em declínio, dando depois dois passos atrás para uma contemplação que acusava já algum simulacro, em “Somewhere”. Como tal, o tema para o seu regresso à tela não poderia ser mais atroz: a encenação do escândalo Bling Ring, ou a sucessão de assaltos a casas de celebridades de Hollywood que teve lugar há dois pares de anos atrás.

Integrada numa tendência de exaltação precoce dos acontecimentos do presente (oriunda de uma máquina capitalista que se habituou a não ponderar a matéria-prima e o lucro na mesma balança), a cineasta tinha, em “The Bling Ring”, uma oportunidade para construir uma perspectiva que abarcasse o grande plano. Mas o que acontece é precisamente o contrário.

Há quem tenha elogiado o filme pela sua imparcialidade moral e pela sua capacidade de narrar os acontecimentos (ou as suas sombras) sem interferências. Mas, em boa verdade, nada disso funciona a seu favor: Sofia Coppola assiste e não tem uma palavra a dizer; é espectadora e salienta esse papel através de dispositivos gratuitos – seja nas rápidas sucessões de fotografias das celebridades envolvidas, seja em tentar trazer realismo à abordagem ao integrar segmentos filmados à qualidade da geração smartphone.

A composição soa toda ela frequentemente caricatural – o facto de nada disto ser assumido pode servir para levantar questões sobre estas intenções -, suportando-se em desempenhos inócuos (evidência em Emma Watson). Mesmo os planos que levantam suspeitas sobre alguma intencionalidade de um conceito maior parecem não ser mais do que comodismos cirscunstanciais da própria arquitectura (ou da cenografia).

No entanto, toda essa tentativa de envolvência nos meandros que visita e ambição por uma frieza mantida em cativeiro pelos factos (convém não esquecer que a “verdade” a que Godard se referia não é exactamente matemática) só serve para denunciar o profundo marasmo que é este “The Bling Ring”.



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