The Dodos

The Dodos

Horas antes de subirem ao palco do Musicbox, conversámos com a banda

Em mais um regresso a Portugal (desta vez com disco futuro na calha), os são franciscanos Meric Long e Logan Kroeber subiram na passada quarta-feira ao palco do Musicbox para uma demonstração efusiva de temas antigos e novos inéditos. Horas antes, estivemos à conversa com os The Dodos.

Sei que o Meric tocava sozinho enquanto Dodo Bird. Como é que isso evoluiu para os The Dodos?

Logan: O Meric queria um baterista, porque tinha muitas partes fixes de bateria no EP. Ele procurou outras pessoas e estava a viver com um primo meu nessa altura, que lhe disse que eu podia tocar com ele. Foi mais ou menos isso.

Meric: Começámos a ensaiar, devagar… Tínhamos concertos e eu pedia ao Logan para vir tocar uma ou duas músicas comigo. Entretanto decidimos gravar um disco, estávamos em Portland, e eu pedi-lhe que viesse. Nessa altura ainda não era uma banda, estávamos a gravar um disco e a ver como é que a coisa corria.

E quando lançaram esse disco [“Beware of Maniacs”] lançaram-se à estrada? Começaram a receber atenção da crítica?

Meric: Não, andámos na estrada mas nem sinais da crítica.

Logan: Demos muitos concertos e só vendíamos os discos nos concertos… por isso estávamos fora do radar.

Qual era a perspectiva nessa altura? Já levavam a coisa a sério ou andavam a ver como corria?

Logan: Acho que era uma combinação das duas. Estávamos com esperança, mas não sabíamos muito bem como ia correr. Acho que ambos tínhamos uma dedicação muito forte em continuar o que estávamos a fazer – sabes, um início humilde. Tivemos a sorte de abrir concertos para várias bandas em São Francisco e eu senti que tivemos um feedback muito positivo dos outros artistas e a resposta do público também era boa. Estávamos a tentar manter essa energia viva e em movimento.

Meric: Não havia essa discussão de “estamos a formar esta banda e vamos dedicar todo o nosso tempo a isso”. Fomos em digressão e ignorámos os aspectos negativos e a falta de apoio, na esperança de, bem… eu lembro-me de voltar de muitas destas digressões e as pessoas perguntavam-me “como é que foi?”, e eu enviesava um bocado a realidade e dizia-lhes “bem, nós só tocámos uns trinta espectáculos e a maior audiência foi para aí de quatro pessoas, mas pelo menos tivemos a hipótese de viajar e tivemos bebidas grátis”.

Logan: Muitas bandas começam por fazer uma data de posters, pensam muito na imagem e têm uma ideia pré-concebida de que vão lançar o material e as pessoas vão gostar e tal… Nós nunca tivemos um masterplan, limitámo-nos a seguir sempre em frente. Conhecemos várias bandas que queriam dominar o mundo e ficaram pelo caminho, por isso nunca fizemos muito alarido.

Esse tempo na estrada colocou as coisas em perspectiva? Diriam que são mais uma banda ao vivo ou uma banda de estúdio?

Meric: Acho que isso mudou quando começámos como uma banda ao vivo, porque a energia que eu punha na banda tinha mais em mente os concertos. Antes dos dois últimos discos, toda a minha perspectiva sobre a banda passava pelos concertos. Mas agora, e especialmente nos últimos dois anos, nem sequer penso em tocar ao vivo, penso em estar no estúdio a fazer música.

Tiveram contacto com audiências muito diferentes entretanto, e penso que sentem a aceitação do público de cima do palco; como é com o público português?

Meric: Todo este canto da Europa é muito positivo, e para muitas bandas, quero dizer, nunca ouvi ninguém dizer “epá, tocar em Portugal foi horrível” (ou em Espanha); sabes, a audiência daqui é muito conhecida por ser muito receptiva e por só querer divertir-se. Já cá tocámos três vezes, mas cada concerto é sempre um ponto alto da digressão, sem querer elevar muito as expectativas para logo.

The Dodos

Têm tido pessoal muito recomendável nos back-vocals: a Laura Gibson no “Visiter” e a Neko Case no último disco, “No Color”. Como é que isto aconteceu?

Meric: A cena da Laura Gibson foi uma coisa mesmo típica de Portland: nós estávamos lá a gravar e pedimos-lhe que gravasse umas músicas connosco. Com a Neko [Case], tínhamos andado com ela em digressão enquanto estávamos a gravar o disco e convidámo-la para entrar. Há muita gente a gravar em Portland, então ela ficou muito entusiasmada de ir até lá e gravar; e no fim até acabou por fazer uma tatuagem. Acho que é muito fácil arranjar pessoas para colaborar contigo em Portland. Foi fantástico, só foi pena ter sido tão curto. Quando ela entrou, já tínhamos metade do disco gravado e éramos quatro tipos numa caverna, então ela trouxe muita energia e a voz dela mudou tudo. Até eu regravei muitas coisas porque fiquei mesmo inspirado com a presença e a voz dela. Fiquei, tipo, “não consigo cantar assim, mas pelo menos posso tentar”.

São Francisco é uma cidade conhecida por produzir música que não é muito convencional, desde a onda hippie dos Jefferson Airplane e dos Grateful Dead até ao punk e ao thrash metal dos anos 80. Como é viver em São Francisco?

Logan: Não é a primeira vez que nos fazem essa pergunta e, para ser sincero, há muita música (especialmente dos anos 60) que conscientemente não me influenciou em aspecto nenhum. Estava a pensar nisso ontem… e se calhar devia ir ouvir esse discos. Porque não conheço os Jefferson Airplane muito profundamente, mas acho que seria fixe fazer essa viagem no tempo na música de São Francisco.

Meric: Nunca fiz música nesses moldes para ter um ponto de referência, mas o que sinto é que não há pressão nenhuma, que tens muita liberdade para fazer o que queres.

Quando lançaram o “Time to Die” senti que houve ali uma mudança de direcção e acho que foi uma coisa mais produzida

Meric: A produção do “Time to Die” não é tão crua, claro. O Phil [Ek, o produtor] tem um sentido muito forte de como quer fazer as coisas. Então nós de certa forma submetemo-nos à visão dele, porque queríamos que alguém viesse ver o que conseguia fazer com o nosso material.

Logan: É produzido no sentido em que tínhamos um produtor. Deixámos o Phil entrar e ouvimos as opiniões dele sobre o que estávamos a fazer; era isso que queríamos, que alguém nos desafiasse e ver se conseguíamos fazer alguma coisa nova, porque nos álbuns anteriores foi mais relacionado com a oportunidade que resultou muito bem, mas tínhamos curiosidade em extravasar isso. Era um bocado aleatório mas resultou, assentimos muitas coisas que o Phil queria fazer. Mas sim, ele fez muito trabalho de estúdio e é uma produção um bocado mais sintética, mas é uma coisa muito espaçada e acho que não há instrumentos nem pessoas a mais.

Mas voltaram a resgatar alguma crueza inicial no último disco [“No Color”]. Foi deliberado?

Meric: Sim, definitivamente. Estivemos mais envolvidos na forma como o disco iria soar. Foi bom sair do “Time to Die” porque eu fiquei satisfeito com o resultado mas acho que houveram muitas intenções que ficaram perdidas na tradução. Não é culpa do Phil nem da produção, mas o processo foi mais de soma das partes para ver o resultado. Com o “No Color” quis ser mais explícito sobre as minhas intenções e acho que foi daí que regressou a crueza. Pensámos “caramba, nós somos uma banda rock!”, não temos necessariamente de mudar o mundo.

O que podemos esperar para o concerto mais logo? E para um futuro mais alargado?

Meric: Vamos tocar muito material novo, o disco está acabado. Vamos lançá-lo lá para o fim do Verão, talvez em Setembro. Entretanto, é suposto irmos dar uns concertos na Ásia… na China e tal.

Fotografia por Sofia Pedro



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