The Gift @ Coliseu

Uma noite especial. Não?

Sobre os The Gift, já muito se disse, muito se falou, muito se questionou. A banda de Alcobaça é, inquestionavelmente, um projecto pop de sucesso fora do comum em terreno nacional, é ponto assente. A noite de 21 de Abril, a terceira presença da banda no Coliseu de Lisboa, prometia ficar na história – não ficou, e as razões podem ser de diversa índole.

“AM-FM”, último disco de originais dos The Gift, data já de finais de 2004. Os singles, já toda a gente os conhece. Os concertos, também já muita gente os viu. O profissionalismo, esse, é imagem de marca e continua imaculado. O efeito surpresa, esse, é que já nem tanto. Culpas de uma promoção pouco eficaz, resultado de tudo isto dito anteriormente, nada disto ou tudo ao mesmo tempo, a verdade é que o Coliseu encontrava-se relativamente distante de ter a sua lotação esgotada, mesmo tendo em conta a dimensão do palco, com uma plataforma que levaria, no encore, os músicos a situarem-se em pleno centro da sala, naquele que foi um dos melhores momentos da noite. Mas já lá vamos.

Na primeira parte, o projecto espanhol Deluxe mostrou que, afinal, ainda há algum rock interessante do lado de lá da fronteira. Não deslumbra, é certo, mas eficácia não falta: a banda é coesa, sabe o que faz, e não se lhes pede mais que isso. “Caetano Veloso” arrisca os Deluxe numa incursão pela bossanova, mas é na recta final com “If Things Were to go Wrong” ou “Que no” que se sente que o concerto começava a arrancar. Fica a curiosidade de rever o projecto numa outra ocasião mais propícia.

O arranque do concerto dos The Gift não foi feliz. O pano do costume estava lá, mas o arranque não se deu com a magistral “I am AM” mas sim com “Fácil de Entender”, numa nova roupagem com toda a banda. Um começo frouxo, murcho e, acima de tudo, pouco eficaz. “Butterfly”, o tema seguinte, deu, esse sim, verdadeiro arranque ao concerto. O tema, retirado de “Film”, segundo disco da banda, continua a ser uma das mais belas composições de Nuno Gonçalves e companhia. A queda do pano, na recta final, continua a ser momento de destaque dos concertos da banda. Já foi visto anteriormente, mas continua a ser um momento alto. Depois, de rajada, “Driving You Slow” e “11.33” aqueceram o público do Coliseu – primeiros saltos, gritos, cantares, palmas.

O concerto prometia convidados e estes chegaram relativamente cedo. Rodrigo Leão e Pedro Oliveira (Sétima Legião, Cindy Kat) reviveram com os The Gift as marcantes “Manchester Mad Remixes”, através de versões de Joy Division (“Atmosphere”, intensíssima, negra, assombrosa) e New Order (“Bizarre Love Triangle”, a festa modo LSD antes da ressaca, as cores de uma trip mal digerida). A conclusão após este momento só pode ser uma – para quando um EP que imortalize esta colaboração e recriação do imaginário “24 Hour Party People”?

A voz de Sónia Tavares estava impecável, já se havia chegado a esta conclusão por esta altura. O preciosismo técnico de Nuno Gonçalves era também nota dominante. Como já fora visto anteriormente, uma e outra vez. Visualmente, os mesmos painéis de sempre, bastante interessantes, um palco tecnicamente irrepreensível – como mais ninguém tem em Portugal.

“Red Light” é apresentada numa versão mais lenta, sem metade do encanto e ambiência festiva; “1977”, o momento mais infeliz de “AM-FM” ganha novo alento ao vivo, numa versão mais alongada, com Nuno Gonçalves a tomar igual protagonismo que a vocalista na frente do palco; “Wallpaper”, dedicada às senhoras, igual a si mesma – lindíssima. Pelo meio, um tema inédito, ainda sem título definido, a incluir num futuro registo de originais. Precisa de mais maturação, mas pareceu orelhudo e estimulante q.b. para ser mais um sucesso na carreira da banda. De resto, poucas mais novidades: “Song for a Blue Heart”, ou como Nuno Gonçalves é também dotado de uma voz relativamente interessante, seguido de uma pequena passagem por “Lovesong”, dos The Cure; “Music”, antes do encore – a canção mais popular de sempre dos The Gift?

O primeiro encore trouxe a tal aparição da banda em pleno coração do Coliseu. Um momento intimista, de maior comunhão, com canções óptimas em adaptações formato quase acústico. Resultou, apesar de problemas técnicos de tempos desajustados que levaram inclusive Nuno Gonçalves a pedir à banda para retirar a monição dos ouvidos. E convenhamos que uma sequência com “Me, myself & I”, “Five Minutes of Everything” e “My Lovely Mirror” não está ao alcance de todos. Nota um pouco menos feliz para as flores atiradas a Sónia Tavares – manifestação de histeria pré-adulta em fase de acne mal resolvida – mais comum num concerto de Enrique Iglesias do que no de uma banda que se movimente pelas paisagens sonoras dos The Gift. Ok, percebe-se o agradecimento, mas não era preciso. Adiante.

O segundo encore trouxe o tema final da praxe, “So Free”, o tal com o theremin, o tal em três actos, o tal da que começa lento, acaba lento, intensifica-se pelo meio, alerta dancefloor, agitam-se as ancas, levantam-se os braços, grita-se pela liberdade, espiritual, ideológica, provavelmente de movimentos corporais, acima de tudo. Começa-se a ouvir, no final, “This is Not America” de David Bowie, sinal do término do concerto. A banda dirige-se uma vez mais ao centro do Coliseu e agradece à plateia. Noite claramente ganha, pois claro. Histórica? Dificilmente.

O saldo final é muito positivo, claro, já se disse. Os The Gift são uma banda com temas excelentes, que dão óptimos concertos. Os seus discos são óptimos, o seu profissionalismo e dedicação intocáveis. Contudo, queria-se fazer da noite do Coliseu uma noite histórica – tal não sucedeu. Foi “apenas” mais um excelente concerto dos The Gift. Um apenas entre muitas aspas, porque um concerto deste calibre é tarefa que, uma vez mais, não está ao alcance de todos. É um pouco como o toque de midas: não é para quem quer, é para quem pode.



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