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The House That Jack Built

Precisamos tanto de Lars Von Triers na nossa vida, como de ver este filme num grande ecrã.

Se achávamos que depois de “Ninfomaníaca” seria difícil para o realizador superar a sua própria arte, enganámo-nos. No entanto, a comparação com o filme anterior surge-nos como inevitável. Senão vejamos os factos: em ambos os filmes temos um protagonista cuja existência é feita de vícios e obsessões, sempre deixando uns quantos prejudicados pelo caminho. Debrucemo-nos também sobre o paralelismo entre a pulsão do sexo (sinónimo de vida?) que pauta o primeiro filme, e a pulsão do assassinato (sinónimo de morte?) de que vive este “The House That Jack Built”. De facto, em ambos a narrativa é um claro ensaio sobre a nossa própria natureza e se na obra anterior era Joe (Charlotte Gainsbourg) quem nos derrubava sem dó nem piedade, aqui é Jack (Matt Dillon) quem entra em cena sem tenções de nos deixa sair dela… vivos.

‘Sair’ é também algo que em nada estranhamos quando ouvimos falar deste filme, depois da turbulenta sessão de estreia no Festival de Cannes. Foram centenas de espectadores que optaram por deixar a história a meio e, se em Lisboa a história não se repetiu ipsis-verbis, verdade é que se registaram uns quantos desmaios e outras quantas dores de cabeça inadiáveis. Já nós ficámos até ao fim e de lá saímos com uma certeza irrefutável: precisamos de muitos mais Lars Von Triers nas nossas vidas.

(…) Lars Von Trier brinca com as nossas perceções do real ao falar-nos dele próprio, num ato de duas horas e meia de pura violência

Este é um thriller psicológico (ou de terror?) onde a teia é, uma vez mais, episodicamente contada.  Mas ao contrário de “Ninfonamíaca” esta narrativa é dividida por ‘Incidentes’, que se vão pontuando com uma voz-off que surge em oscilação com a ação real. Uma ação centrada na personagem principal, que mais tarde viremos a perceber que desde o início estaria a ser guiada pelo poeta Virgílio (Bruno Ganz), numa clara alusão à Divina Comédia. Jack surge aqui como o novo Dante, percorrendo a viagem da sua vida ao cruzar-se com todas as carnificinas de que foi intérprete. Sem demonstrar ódio, amor ou arrependimento por qualquer um dos incidentes, de algum modo vamos percebendo que estamos a acompanhar a punição pelas suas falhas, muito embora sejamos permanentemente interpelados pelos mais diversos detalhes – alguns viscerais – que nos vão distraindo dessa odisseia.

É Virgílio quem vai questionando todas as ações e as afirmações do protagonista, num tom sádico e inclemente, expandindo a obscuridade humana para o universo da Arte por trilhos nunca antes considerados. É como que um caminho rumo ao ‘inalcançável’, em que Lars Von Trier brinca com as nossas perceções do real ao falar-nos dele próprio, num ato de duas horas e meia de pura violência.

Ah, e que violência tão boa. E se houver por aqui quem assim não o julgue, deixamos uma última consideração: se é uma obra de arte, certamente não te deixará indiferente. E a carreira de Lars Von Trier soma-as a olho visto. É (mesmo) de ir ver.

 

 

 

 



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