The Knife | “Shaking the Habitual”

The Knife | “Shaking the Habitual”

Gritos mudos

Fértil em (boas) surpresas, 2013 traz mais um muito aguardado álbum. “Shaking the Habitual” surge cerca de sete anos depois de muito bem-sucedido “Silent Shout” e volta a colocar o fraterno duo sueco The Knife nas bocas do mundo.

Se é certo que os fãs de Karin Dreijer Andersson e Olof Dreijer já desesperavam por notícias sonoras da banda, segundo os próprios The Knife este trabalho surgiu de forma natural e não por qualquer tipo de imposição. De acordo com uma “entrevista vídeo” que pode ser vista no site oficial, “este disco é a consequência da necessidade de fazer algo diferente”. Para Karin e Olof “a música pode ser algo sem um sentido próprio, pode ser apenas som sem mensagem”.

Apesar destas declarações sobre um qualquer vazio de conteúdo, “Shaking the Habitual” é tudo menos um trabalho à deriva. Estamos, sem dúvida, perante o disco mais político, interventivo e acutilante dos The Knife. O título do trabalho, retirado de um conhecido texto de Michel Foucault, insita ao agitar da massa anónima e amorfa de uma sociedade habituada a cumprir ordens sem as questionar. Questões como a monarquia, a família nuclear, a riqueza extrema, a degradação ambiental, as injustiças do neoliberalismo ou a mutação da representação do homem enquanto ser, ocupam a agenda de Karin e Olof.

A crença de uma visão crítica em relação aos vícios da sociedade de consumo leva a dupla sueca a preferir o anonimato, insistindo em ocultar os rostos. Aquilo que começou como uma forma de conseguiram a tranquilidade necessária para fazer a música que queriam acabou por se tornar no seu traço mais identificativo. Segundo os The Knife, “existem outras máscaras por baixo destas. Não queremos que associem a nossa música a rostos mas sim criar uma identidade através da nossa forma de comunicar”.

Dar som às ideias deste novo punhado de canções foi outra barreira que os The Knife tiveram de ultrapassar. “A música deste disco nasceu do improviso, partiu do inesperado e conseguimos criar novas fontes sonoras tocando e inventando alguns instrumentos assim como reinventando a realidade musical que resulta dos instrumentos mais clássicos. Decidimos desconstruir o som dito normal, expondo os limites convencionais do mesmo, ultrapassando a matemática dos acordes”, cita Olof.

Essa nova abordagem está bem patente em “Shaking the Habitual” e, por exemplo, os 19 minutos de «Old Dreams Waiting to Be Realized» resultam numa longa demanda musical de cariz ambiental que pode levar ao limite da capacidade auditiva do ouvinte. Mas é isso que se pretende no disco: explorar a tensão do silêncio face à presença musical. Karin e Olof procuram criar um diálogo entre a obra, quem a concebe e o receptor. É urgente o apelo ao sentimento de fruição, ao sentido de obra aberta, como diria Umberto Eco.

Sobre o conceito das suas novas criações, os The Knife são peremptórios: “queremos questionar as relações da música enquanto objecto pop em relação às regras instituídas da funcionalidade do próprio segmento. Não fazemos música que seja absorvida de forma rápida e imediata, apelamos sim à interiorização da mesma.”

“Shaking the Habitual” é tudo menos um disco imediato e consensual. Ao longo dos seus 97 minutos – duplo CD e triplo LP – viajamos por territórios que nos transportam para ambientes perto de Aphex Twin, Björk, Nurse With Wound ou Einstruzende Neubauten. Ouvir o quarto disco dos The Knife é fazer tabula rasa a tudo, ou quase, que ouvimos (até) hoje. Para além de temas longos, a experiência sonora proporcionada por esta dupla de Estocolmo também proporciona peças musicais que cristalizam a audição em apenas alguns segundos.

Ao ouvir a ambiguidade sonora de “Shaking the Habitual” somos levados a pensar sobre o conceito do formato canção como está “estabelecido”. Será que uma canção deve obedecer a uma estrutura determinada? A música enquanto arte (toda a música poderá sê-lo?) é um produto como uma finalidade estética e comunicativa? Será apenas o apelo à emotividade através de recursos plásticos, linguísticos e sonoros? Em jeito de resposta, ou interpretação definitivamente subjectiva, Karin fala da música como “uma ferramenta que gera movimento, um espaço onde tudo é possível”. No fundo, ou talvez não, uma canção não é mais nem menos que uma forma de expressão encorpada por materiais sonoros, e por vezes palavras, resultando de uma forma mais ou menos agradável e que leva a uma ideia interpretada conforme a percepção individual.

O disco começa com «Tooth For An Eye» e afirma-se como uma das poucas heranças sonoras de “Silent Shout”. Como que a querer fazer a ponte entre dois universos distintos, está marcada por ritmos tribais e afro e resulta como um dos temas mais dançáveis de todo o disco. Esse corte com o passado recente tem o seu primeiro tomo com «Full of Fire». O estado minimal rompe os espartilhos e nasce um ambiente atmosférico com momentos intensos de um terror induzido. A voz de Karin distorce a realidade e faz um exorcismo face ao passado. Nove minutos depois do seu começo, «Full of Fire», o primeiro single do disco, aponta um novo caminho.

«Cherry On Top» continua o caminho errático de “Shaking the Habitual” e oferece mais uma canção desconstruída em si mesma, um som que causa desconforto, que assusta, ainda que seja a tranquilidade que paute o móbil destes quase nove minutos. Podemos descrever esta criação como um sonho que se deixa prender por um pesadelo incómodo em viagem por um universo paralelo. Tal como referido anteriormente, estamos perante um apelo à interpretação do formato canção e a própria voz de Karin, assombrada por registos sonoros díspares ao fundo, faz esquecer uma linha estrutural definida. À medida que «Cherry On Top» avança sente-se a repartição do tema em partes dentro de si mesmo.

Sem anunciar, «Without You My Life Would Be Boring» faz regressar o tribalismo, desta vez com um cheirinho tropical acompanhado por umas flautas desgarradas que são o fio condutor, se ele existir, de todo o tema. A voz surge com novos arranjos distorcidos e é apenas um instrumento em si mesmo. A seguir, «Wrap You Arms Around Me» é um exercício denso com toadas épicas e envolto de uma base musical demolidora, a fazer lembrar, ao longe, os ambientes mais soturnos dos Dead Can Dance. A percussão potente apela ao sentimento da voz de Karin que solta alguns dos versos mais apelativos do disco. “Will You Remind Me? Wrap Your Arms Around Me…” Sem dúvida um dos momentos mais intensos deste complexo trabalho.

Depois de mais uma bomba calórica de ritmos repletos de açúcares diversos, é-nos servido um prato light. No entanto, apesar da curta duração, os 55 segundos de «Crake» soltam uma sensação de angústia atroz onde uns desconcertantes agudos adensam o ambiente. De forma a recuperar deste susto sonoro, de mansinho começamos a ouvir os primeiros sons de «Old Dreams Waiting To Be Realized», o tal tour de force de 19 minutos que desperta todos os sentidos do ouvinte. O ambiente hipnótico e a estranha apatia desta composição é quebrado amiúde por pormenores perdidos num labirinto (vazio) de emoções elevadas ao expoente da interpretação por entre camadas obscuras.

Depois da inépcia, são novamente os laivos tribais que se fazem ouvir, embora em «Ranging Lung» os mesmos sejam, progressivamente, ocultos aquando da entrada da voz de Karin. Neste que é o tema mais free jazzy de “Shaking The Habitual”, a prosa apela a sentimentos adversos. Karin canta o sofrimento: “And That’s Why It Hurts / Is It a Difference? / It’s Raging Now / Is It a Difference? / Ist’s Raging Now / An Indifference / Oh Difference / And an Indifference would make”. O crescendo da música dilui-se em rastilhos sonoros que lembram partituras de gente como os Art Of Noise.

Já «Full of Fire» é um instrumental electrónico até à medula e que convida à dança os mais afoitos. Seis minutos e alguns segundos depois, «Oryx» despacha rapidamente o ouvinte com uns segundos disparados por um azimute controlado por uma força obscura. A dança regressa com «Stay Out There», um tema com uma base grave cujas vozes de Olof e Karin tornam ainda mais misterioso. Um diálogo arrepiante.

A mais desconcertante composição do disco é encarnada por «Fracking Fluis Injection», onde a indefinição de uma lógica sonora pode levar ao limite. Durante dez minutos os The Knife toldam sons e colam acordes de forma aleatória. Indefinível.

Contrariando o sentido niilista de «Fracking Fluis Injection», «Ready to Lose» é uma das mais viciantes e “coerentes” faixas do álbum. A voz graciosa de Karin mistura-se nos graves e na percussão electrónica e somos arrastados para um redemoinho de devaneios do qual hesitamos em ficar ou sair. Talvez a melhor forma de terminar um disco tão especial.

Muitas vezes é complicado qualificar um som, uma ideia, um punhado de canções que se agrupam em forma de disco. A coragem de encarar de frente um projecto novo, inédito, e de contornos assumidamente perigosos, é um feito a ter em conta nestes dias em que a massificação das artes leva a colagens sobre colagens. E, por vezes, como um tiro no escuro, alguns trabalhos – neste caso falamos de um disco – podem ajudar a definir uma época, uma conjuntura.

É essa a sensação que ganha forma depois de se ouvir “Shaking the Habitual” uma, duas, dezenas de vezes. A abstracção tolda-se a cada audição, a liberdade musical molda o caminho e as parcas palavras são âncoras que fixam a metáfora musical que é o quarto disco de originais dos The Knife. Embora seja uma peça que, sendo ouvida como um todo, se possa considerar “exaustiva”, é, sem dúvida, uma experiência única. Não é a duração deste disco que o torna especial mas a natureza inquisitiva do mesmo que tem como suporte uma experimentação electroacústica que abana e destrói convenções.



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