The Legendary Tigerman & HiFi Klub | “Ghost Of Nico”

The Legendary Tigerman & HiFi Klub | “Ghost Of Nico”

Reescrever o passado

A história deste EP remonta a 1978 e debruça-se sobre um concerto mal sucedido da cantora alemã Christa Päffgen, também conhecida por Nico, numa discoteca em França. Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) decidiu, em conjunto com os franceses HiFiKlub, revisitar esse momento e devolver um final feliz à história dessa mesma noite.

Criada nos tubos de ensaio da Factory, e vítima das experiências laboratoriais de Andy Warhol, a modelo alemã foi protagonista de um dos momentos mais emblemáticos da história da música, ao ser uma das vozes do álbum “Velvet Underground & Nico”, um marco que a banda de Reed e Cale deixou em 1967. Apesar de fazer parte do colectivo nova-iorquino, muito por imposição de Warhol, a artista viria a abandonar o grupo, nesse mesmo ano, devido ao facto dos integrantes não a reconhecerem como membro dos The Velvet Underground. Nico fez as malas, lançou-se a solo e editou “Chelsea Girl” (1967), seguindo-se “Marble Index” (1969), “Desertshore” (1970), “The End” (1974) “Drama Of Exile” (1981) e “Camera Obscura” (1985). São estas as pegadas do percurso de Christa Päffgen: um caminho de altos e baixos que ficou marcado pela sua voz e sotaque inconfundíveis, pela sua sonoridade, que viajou do folk ao rock e explorou campos do psicadelismo e do experimentalismo e, claro, pelas relações que estreitou com o mundo das drogas.

No ano de 1978, a artista fez a primeira parte do guitarrista clássico Marcel Dadi na discoteca La Tomate, na Côte D’Azur, acompanhada por Kevin Ayers dos Soft Machine. A poucas canções do início do concerto, Nico foi de tal forma vaiada que foi “obrigada” a abandonar o palco. Quatro temas apenas ficaram para a história dessa noite. Quatro temas que Paulo Furtado e os franceses HiFiKlub (banda com que o músico já trabalhara no álbum de estreia “French Accent”) decidiram revisitar neste EP, um disco que visa vingar essa trágica noite, evocando metaforicamente o fantasma da falecida cantora alemã. Mas os músicos foram ainda mais longe e recriaram o concerto do La Tomate, interpretando os mesmos temas que a cantora haveria tocado em 1978; só que, desta vez, os aplausos substituíram os apupos, os músicos saíram de consciência tranquila, a Côte D’Azur redimiu-se da insensatez que outrora produzira e o fantasma de Nico pôde, finalmente, descansar em paz.

Apenas quatro temas constroem este EP, curiosamente quatro pontos distintos na carreira de Nico. O primeiro, por ordem cronológica, e não pela ordem de EP ou de alinhamento de concerto, remonta a 1967 ao álbum “Velvet Underground & Nico”. Trata-se de «Femme Fatale», uma canção que já conheceu inúmeras versões por um número infindável de artistas e que vive muito da cadência imposta pela artista, pela voz da inocência que a transportou até Warhol e pelo sotaque germâNICO que a caracteriza. Talvez este seja o tema que menos interesse tenha neste disco de Tigerman e HiFiKlub. Nada altera e pouco acrescenta ao original e àquilo que já foi feito por outros artistas.

De seguida, e ainda no mesmo ano, chega-nos «It Was a Pleasure Then», do álbum “Chelsea Girl”: uma canção que revela o alto teor psicadélico que a dupla Reed e Cale depositou aquando do contributo com Nico, e que vive muito do papel da voz e dos efeitos que a acompanham. Na versão para o EP, os músicos camuflaram a vertente psicadélica, deram ênfase às guitarras e à secção rítmica e mergulharam a resultante num mar escuro, profundo e denso.

Depois de ser acusada de racismo, através de declarações que proferiu numa entrevista, Nico esteve grande parte da primeira metade da década de 70 exilada, com receio de uma investida por parte dos Black Panther. Nesse mesmo tempo de refúgio, a artista compôs músicas influenciadas pelos locais por onde passou que viriam a integrar o sucessor de “The End…”. “Drama Of Exile” sai em 1981 e compila essas mesmas canções, sendo «One More Chance» uma delas. Longe da alçada do psicadelismo, «One More Chance» respira uma sonoridade mais rockeira com leves brisas do pós-punk, um estilo que começava a ganhar contornos próprios no final da década de 70. Em “Ghost of Nico” o tema é totalmente retirado do contexto da versão original e novamente embebido na obscuridade e fantasmagoria que caracteriza o EP.

Finalmente, chegados ao álbum que antecedeu a morte da artista, “Camera Obscura”, podemos retirar «Win a Few» uma peça musical onde podemos encontrar a veia mais experimental de Nico a chocar com os sintetizadores herdados dos compatriotas do krautrock. Tamanho choque levou a que a voz se tornasse, em algumas partes da canção, praticamente imperceptível por entre os efeitos sonoros, os apontamentos rítmicos e os sintetizadores do instrumental. Novamente, de regresso ao curto EP de Paulo Furtado e os seus companheiros franceses, encontramos um «Win a Few» bem trabalhado, diferente do original, mas também ele com umas navegações por mares do experimentalismo com recurso a efeitos de guitarra, bem colocados, deixando um lugar definido para a voz se expressar.

Valeu a pena acordar o fantasma de Nico e convidá-lo a ouvir este EP e a reviver o malogrado episódio de 1978, de forma a testemunhar um final diferente daquele que lhe encheu o rosto de lágrimas e lhe destroçou o coração.



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