The National | “Trouble Will Find Me”

The National | “Trouble Will Find Me”

Um sentimento que insiste ser partilhado e não pode nem deve ser detido

Um álbum de The National é quase impossível de analisar sem cair no erro de proceder a aproximações extremamente pessoais, uma consequência ulterior da própria identidade da banda. Desde a sua génese e respectivo álbum homónimo que se debatem extrinsecamente com fantasmas de sentimentos perniciosos, que sombreiam qualquer ser humano nesta era de devassamento pós-moderno, de uma forma tão próxima e nua que ouvi-los parece emitir reflexos sombrios de uma auto-análise que ultrapassa a fronteira racional do alcance da música.

Essa familiaridade, da banda com ela mesma e com aqueles que assistiram à sua evolução na passada década, é, desde os primeiros acordes de “Trouble Will Find Me”, o seu maior trunfo. Mas tal acontece só depois de derrotada uma resistência inicial que surge por uma miriade de razões. A realidade é que é uma experiência agridoce assistir a uma banda como os The National ir de encontro com um público mais vasto e generalizado capaz de encher pavilhões e arenas – o concerto em Novembro no Pavilhão Atlântico será uma experiência por demais bizarra – mas também sintomático de um sentimento que insiste ser partilhado e que, neste caso, não pode nem deve ser detido.

Não havendo um significativo embate sonoro com o anterior “High Violet”, um opus de introspecção sangrenta e o mais celebrado álbum de originais da banda, “Trouble Will Find Me” emerge como o álbum mais acessível e expansivo dos The National. Aliás, tudo parece surgir sem esforço e com uma naturalidade desarmante. Existe logo em «I Should Leave in Salt» um transporte imediato para as melodias de atmosferas melancólicas e pensativas que os distingue de todas as outras bandas no planeta. E ela, apesar de não menos angustiada e atormentada do que no passado, mostra-se cada vez mais acondicionada à sua própria condição de inadequação.

Algo que se reflecte imediatamente no barítono de Matt Berninger, outrora constantemente irado e pleno de raiva, mas que agora muitas vezes se aproxima de um sussurro confessional, ainda mais penetrante e acutilante. Existe, por exemplo, em «Demons», uma contraditória reconciliação com esses mesmos fantasmas persistentes e destruidores. Mais à frente, em «Graceless», um dos muitos pontos altos do disco reforça tudo aquilo que a banda simboliza: uma melodia irresistível e sincopada enquanto veículo de abrupta interiorização do invasivo caleidoscópio de todos sentimentos que englobam… “viver”.

Em Berninger mora também a mesma paradoxal relação com o amor que sempre o definiu e atormentou. Em «Sea of Love» a frustração persiste e a cadência de “don’t they” no refrão é particularmente pungente e em «This is the Last Time» faz a promessa, vaga e fútil, de que tal enamoramento juvenil jamais se irá repetir – negação que se repete ainda antes do final do disco em «Slipped». Mas simultaneamente consegue encontrar refúgio na força da parceira em «Fireproof» e deixa-se emergir na sua nostalgia protectora em «I Need My Girl», voltando a atenuar-lhe a dor quotidiana em «Heavenfaced» e «Humiliation», ainda que se continue a considerar-se não merecedor desse bálsamo. Antes do final surge «Pink Rabbits», possivelmente a mais inesperadamente doce composição de sempre dos The National e de um encantamento tão puro que se torna tão ou mais poderoso do que algo totalmente soturno e inóspito.

Se este espírito de conciliação causar em alguns fãs mais veteranos uma oposição visceral, cedo chegarão à conclusão que a tentativa de alcançar o exterior deve ser celebrada e não renegada. «Don’t Swallow the Cap» começa por ser um dueto de auto-ajuda de Berninger consigo mesmo mas depois deixa-se estender a uma voz feminina secreta, agora revelada como Nona Marie Invie dos Dark Dark Dark, uma das muitas súbtis aparições escondidas de “Trouble Will Find Me”. Toda a abertura e compartilha dos demónios como forma de exorcismo que é espelhada na composição é também demonstrada neste espírito colaborativo tão insólito e autêntico – vemos nos créditos nomes tão sonantes como Annie Clark ou St.Vincent, Richard Reed Perry dos Arcade Fire, Owen Pallett, Nico Muhly e Sufjan Stevens; como se nada conseguisse ser tão drástico e pesado que essa carga não pudesse ser reduzida pela ajuda daqueles que nos rodeiam.

Se “High Violet” terminava com «Vanderlyle Crybaby Geeks», uma oração cruel e devassadora, “Trouble Will Find Me” deixa-se findar com uma nota mais etérea e inspiradora com «Hard to Find», ainda que as sombras passadas e presentes continuem inequivocamente a rondá-los. Assim se (re)definem os The National em 2013, os mesmos de sempre, torturados e assombrados, mas, talvez pela primeira vez de forma plenamente consciente, não só capazes de estender a mão como também esperar e ambicionar contacto na partilha.



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