The Pillowman

O contador de histórias...

O Teatro Maria Matos, em Lisboa, apresenta, até 15 de Outubro, a peça “The Pillowman”, de Martin McDonagh. Tiago Guedes, realizador do filme “Coisa Ruim”, estreia-se superiormente como encenador numa peça bem defendida por Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, João Pedro Vaz e Marco D’Almeida.

Um homem com a cabeça coberta por um saco de papel opaco aguarda sentado numa cadeira. As suas mãos, compridas e completamente livres, afagam as suas pernas. Numa mesa, ladeada por duas cadeiras, jazem papéis e alguns cadernos de capa negra. Após longos minutos de silêncio, dois polícias irrompem sala dentro para interrogar o escritor Katurian. A semelhança entre o conteúdo dos seus contos e o homicídio de algumas crianças na cidade onde vive é o motivo que os reúne naquela sala.

De um enredo que gira à volta da responsabilidade de um escritor pelas palavras que escreve e da sua condenação certa num regime totalitário… partimos para uma história que nos conduz pelo mundo do grotesco, do belo, da inocência, da malvadez, da pureza, da tragédia, das dúvidas, das experiências, das certezas, da manipulação…

Katurian, protagonizado por Gonçalo Waddington, escreve macabras histórias que conta, arriscamos dizer, de forma ternurenta ao seu irmão Michal, o actor Marco D’Almeida. Partilham segredos, protegem-se, revelam-se e surpreendem-se em personagens que vão crescendo e se vão transformando ao longo da peça. Noutro nível, também Albano Jerónimo e João Pedro Vaz, os polícias de serviço, enfrentam verdades difíceis de digerir.

Em “The Pillowman” cada minuto de cena é gasto de forma calculada. Cada efeito sonoro e visual, cada escolha cénica, sejam as sombras chinesas ou o vídeo, são encadeados de forma soberba. As surpresas são constantes e as teorias que vamos montamos na nossa cabeça raras vezes são definitivas. Tiago Guedes deixa-nos suspensos o tempo suficiente para nos inquietar e deslumbrar ao mesmo tempo.

E de repente o tempo pára, viaja-se para outros mundos e Katurian veste o papel de contador de histórias…

Era uma vez uma menina que escondeu lâminas de barbear nuns homenzinhos de maçã e deu-os a comer ao seu pai…

Era uma vez um porquinho verde florescente que gostava de ser um bocadinho diferente…

Era uma vez uma menina que pensava que era Jesus Cristo, não… Era uma vez uma menina que era mesmo Jesus Cristo, mas não ressuscitou ao terceiro dia…

Era uma vez um homem muito grande feito de almofadas fofas e grandes que convencia as crianças a matarem-se para não se tornarem em adultos infelizes… mas que um dia cansou-se da sua dura tarefa.

A história que “The Pillowman” nos conta começa assim… Era uma vez um escritor de histórias sinistras cujo seu único crime foi respeitar o dever do contador de histórias… contar uma história! Entrando no espírito da coisa, como diz Katurian no seu requiem, não querendo ser macabra, mas já o sendo, obrigada Michal! Confuso? Uma visita ao Maria Matos e uma história manuscrita numa folha de papel adensa a trama e talvez resolva o mistério: boa sessão!



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