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“The Quiet Volume”

Espectáculo de Ant Hampton & Tim Etchells para descobrir até 9 de Junho na Biblioteca Nacional

Partir para um “The Quiet Volume” numa biblioteca não nos trará grandes surpresas até que, no caminho entre o hall e o primeiro ponto de paragem, percebemos que a plateia és somente tu e um outro. O que não estaríamos à espera era de um espectáculo na sala de leitura principal, onde tu e o outro vão ser protagonistas de um legado de silêncios.

E quando damos por nós estamos sobre ordens de um mecanismo sensorial de perspectiva.

Uma exploração dos sentidos num espectáculo “auto-gerado” e onde se está sozinho com o outro na consciência da cena. Duas pessoas isoladas, comandadas mecanicamente por auscultadores num espaço público, rodeadas por outros. Esses outros que estão isolados de tudo, ignorantes ao que ali se passa.

Trocar o lugar do espectador pelo de intérprete, passar a ser uma dança de sinais, um teatro mudo, um silêncio gritante, um mundo em paisagem numa página branca. Um guia que questiona como partir do desconhecido e com o desconhecido para um percurso de duas realidades diferentes, mas que pretende, na exploração do seu íntimo e na abordagem das questões subjectivas, encontrar um lugar-comum para os corpos ali extasiados a tentarem entender o mundo a dois.

Uma encenação pormenorizada que é feita no imediato, que varia entre o improviso nos impulsos e o premeditado nas indicações. Tudo isto faz com que não se dê demasiada importância temporal ao acto de questionar uma encenação premeditada, porque a sua fragilidade começa no preciso momento em que o espectador/executante decide optar por violar – propositadamente ou não – o dispositivo.

Ser coordenado e coordenar, ser controlado e controlar, como um filtro entre o que é dito e o que é escrito, o que é proposto e o que devemos imaginar.

Tudo isto cabe numa perfeita sonoplastia que, algumas vezes, nos obriga a deixar cair o papel de “não-actores”, olhando em nosso redor para confirmar se aquele abominável som de páginas a esvoaçarem por entre dedos, as repetições meticulosas em eco, o texto sussurrado nas nossas costas está mesmo a acontecer. Há uma força maior para a inevitável necessidade de desvendar o que é real do que é amplificado.

“The Quiet Volume” é um exercício introspectivo com a extroversão, ali mesmo, em reflexo. Um espectáculo de ansiedades que parte do particular para o geral sem se preocupar com a questão do “não-actor”, mas, sim, com a sua praticabilidade, a sua interacção e as suas reacções pessoais ou colectivas. Uma experiência sensorial que é, também, um escape despercebido para as confrontações do mundo real. Os sons, os gestos, as repetições, as cabeças encerradas em letras. O que lêem?

A obra é clara. Não quer tomar partido de escolha entre se quer pertencer à biblioteca como espaço público ou se pretende ficar centrada nas histórias dos livros que nos foram deixados mesmo ali à frente.

Perante nós, três clássicos literários. Agota Kristof, José Saramago e Kazuo Ishiguro. Ainda um caderno amarelo no lado esquerdo da cena, um vermelho no lado direito e, ainda, um ilustrado fotográfico de Gabriel Basilico para complementar a angústia das palavras. Lugares autenticamente cheios de perspectiva geométrica e espacial, onde as personagens são casas, cidades, espaços retratados a frio, sem cor e invariavelmente desertos.

Há três coisas que, de tudo o que ali se passou, o corpo como executante por certo não se vai esquecer: a palavra decorada, as páginas brancas e a mão do outro executante.

Mas, como espectador exterior, surgem-me a mim novas questões que gostava de conhecer. Qual será a experiência de alguém que não tão ignorante naquele espaço se concentra no cerne do espectáculo? Sim. Alguém que está no espaço público para estudar ou ler mas que no acaso se concentra ali mesmo, em nós, naquela peculiar experiência. Como será o pensamento artístico dessa pessoa ao ver dois quadros similares, uma dança de contextos e todas as susceptibilidades partilhadas num teatro de silêncios mas com uma gestualidade coordenada, e certamente harmónica, principalmente nos seus erros?

Obedecer à última ordem é um desprazer, sabemos que aquela hora era o mundo em esquinas e afinal voltamos a descobrir que aqui, no mundo real, existe a palavra fim. O que vale é que à saída encontramos um “volte sempre” (até 9 de Junho na Biblioteca Nacional).



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