“The Room” + “The Disaster Artist” | A genialidade do ridículo

“The Room” + “The Disaster Artist” | A genialidade do ridículo

I'm not a god, I'm just a simple guy.

Deus ou não, todos sabemos que a inegualável e misteriosa figura de culto de Tommy Wiseau é incrivelmente peculiar e fascinante pela sua diferença. Seja pela sua maneira de ser e de agir ou pelo seu lado mais criativo, quer seja pela sua identidade mantida com enorme secretismo que se estranha e muito, pelos seus dados pessoais fora do comum e desenquadrados da pessoa que é na verdade (ou que aparenta ser) ou pelos elevados valores que possui e pela sua conta bancária que parece não ter fim, tudo o que expõe ao mundo faz dele um génio, ainda que do ridículo.

Penso que já conseguem adivinhar sobre o que falarei adiante, não fosse este senão o pior filme alguma vez concebido, e que, ainda assim, é um enorme sucesso pela diversão que a “tragicidade” do seu resultado técnico e artístico causa no público : “The Room”, lançado em 2003 e da autoria deste dito “vampiro” (que não procura sangue e não se alimenta deste, pelo menos pelo que se sabe até agora, mas que vive da sua quantia monetária exorbitante que nunca lhe foi um obstáculo ou um limite, mas sim um poço inesgotável de investimento nos seus sonhos), foi concebido aquando da negação da ambição de Tommy e do seu melhor amigo, Greg Sestero, de se tornarem grandes atores de Hollywood pelos próprios elementos que compõem a aclamada indústria de estrelas situada em Los Angeles, nos Estados Unidos da América. Num suposto tom de drama que se torna em algo absurdamente constrangedor, causando o riso de tão mal aplicada que está a dita seriedade, o filme em questão retrata, sob o plano da cidade de São Francisco dos anos 90, a traição de Johnny (que é encarnado por Wiseau) pela sua noiva, Lisa (Juliette Danielle), que se envolve romanticamente com o melhor amigo do seu esposo, Mark (Greg Sestero). 

Com cenários desnecessariamente concebidos em estúdio e que perdem toda a sua realidade, tornando-se em algo artificial e disparatado por simular tão falsamente a verdade do ambiente, e com cenas nitidamente mal trabalhadas quanto à sua criação narrativa e performance dos atores, este filme tornou-se muito adorado e acarinhado de tão odiado e reprovado que é, sobretudo pela crítica. Um elemento de culto que ainda hoje tem sucesso, prova que também o que não se encontra dentro dos parâmetros do que é tido como mais acertado e bom é merecedor de reconhecimento, ainda que por motivos negativos, e que exige uma imensa força peculiar  para o  originar e desenvolver, fazendo-se notar uma genialidade arrebatadoramente única e inalcançável de tão distinta que é. 

Com uma interpretação realista e quase similar do inconfundível e excêntrico sotaque natural de Tommy, que supostamente é fundado na típica fala americana de Nova Orleães, “The Disaster Artist”, foi lançado em 2017 por James Franco, que encarna o mítico Wiseau e que imita a sua maneira de ser e de falar com grande excelência, provando que, mesmo sendo algo difícil de se fazer, tudo é possível quando não se desiste, algo que Tommy também louva. Este filme por si realizado retrata todo o evoluir que levou à criação e conceção do “The Room”, abordando os importantes momentos da vida de Tommy e de Greg (que é encarnado por Dave Franco, sendo que a relação de familiaridade de irmãos que existe entre ambos na vida real é aproveitada para ilustrar esta grande e forte amizade em tela, notando-se uma cumplicidade muito bem conseguida) que, com o evoluir do tempo, levou ao lançamento daquela obra “tragicamente” bem-sucedida. Permite ao público conhecer um pouco mais do que se sabe acerca de Tommy, adotando um ponto de vista bastante omnisciente quanto à verdadeira história da genialidade deste, ganhando carinho e admiração pela sua bizarra figura. É o complemento ideal para a compreensão do “The Room” e das suas origens, tomando-se um pouco mais de conhecimento acerca da vida e dados pessoais de Tommy e de Greg, bem como acerca da história, do desenrolar que levou à realização e concretização deste filme. Explora também a vertente do ridículo não intencional da má conceção do filme de Tommy como espelho da sua peculiaridade genial, e como ainda maior fonte de cativação do público pela diversão causada pelo “disparate”.

Dois filmes a ver, aproveitem, que as gargalhadas estão incluídas.



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