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THE SOAKED LAMB

A primeira banda de cozinha.

O tempo que sobeja de um Domingo, reclama mais que uma mesa bem composta de um ensopado de borrego, ornamentado com um ramo de hortelã a pedinchar copos de tinto alentejano, numa dança com a gula. Nesse tempo, um grupo de amigos arregaçou as mangas, lavou os talheres rapidamente, e formou os The Soaked Lamb. Uma Home-Band dividida entre os dotes culinários e uma aptidão natural para compor boas músicas. Falámos com eles sobre culinária, música e dos ingredientes que são indispensáveis para se cozinhar uma boa banda.

‘Hats & Chairs’ é  o vosso segundo disco, o primeiro foi gravado totalmente em casa de Afonso Cruz. Como foi o salto do lar para o estúdio para gravar este novo trabalho?

Não tivemos alternativa porque o Afonso vendeu a casa. A verdade é que nós queríamos um som mais profissional do que no anterior registo. Era um passo lógico. Uma evolução necessária. E um grande alívio para a mulher dele. De certa forma, este novo disco ‘Hats & Chairs’ também é homemade, no sentido em que foi todo gravado e produzido por nós, tal como o anterior. Na realidade, só mudaram as paredes, o isolamento das mesmas e as queixas dos vizinhos. Este segundo registo também só tem originais, ao contrário do primeiro em que metade dos temas eram versões. E tem mais instrumentos. Muito mais instrumentos. As gravações tiveram a mesma lentidão que as anteriores, mas sem o ensopado de borrego para o almoço. Perdeu-se na qualidade das refeições, mas ganhou-se em qualidade de som. Outra coisa que mudou, foi que os temas já estavam ensaiados, rodados e testados, e isso faz toda a diferença. No primeiro CD, foi tudo feito antes mesmo de haver banda.

Antes só se juntavam para tocar ao Domingo, por motivos profissionais. Como é agora, já há uma dedicação a tempo inteiro?

A dedicação continua a mesma. Ou seja, só nos juntamos aos Domingos. Em alguns Domingos. Com ou sem ensopado de borrego. Continuamos a exercer as nossas profissões, e a tocar sempre que podemos. Sempre que as profissões o permitem. Metade da banda tem a vantagem de não ter um emprego fixo. São pessoas que têm diversas profissões: escritores, designers, publicitários, realizadores, ilustradores – tudo concentrado em três pessoas – e a música é mais uma dessas coisas. Encaixa-se onde é possível, sempre que possível. Mas existe uma dedicação e um investimento muito grandes, e sempre a custos pessoais. De todos os seis.

Um prato gastronómico bem português, deu o nome à banda. O que vos inspirou para ir buscar influência à música que marcou os anos 20 e 30, em especial, dos Estados Unidos?

O nome veio da ementa dos Domingos, quando gravámos o primeiro CD, misturada com algum sentido de humor e folhas de louro. Não existe qualquer tipo de relação entre esses dois factos, a não ser a tradução para o inglês e o travo a cominhos. Não negamos as nossas raízes, mas o que nos inspira é a música que ouvimos em casa. É disso que gostamos e é isso que nos interessa. Mas gostamos de muitos estilos de música e não estamos de modo nenhum obcecados com a era que mencionam. É verdade que é talvez a maior influência no nosso som, mas não é a única, nem perto disso. Gostávamos até de começar a escrever músicas noutras línguas que não o inglês, desde que continuem a saber a cominhos. E se puderem cheirar um bocadinho a mofo, tanto melhor.

Nos EUA este revivalismo continua bem vivo em bandas como os Squirrel Nut Zippers, mas em Portugal pouco se tem feito por um estilo musical que marcou uma geração. Acham que encontraram um filão cultural por explorar?

O paralelismo deixa-nos lisonjeados. Mas, sinceramente, não acreditamos em qualquer tipo de filão. Fazemos apenas o que gostamos e sem pensar no retorno que possa vir daí. Não escolhemos este tipo de música porque existia algum espaço não explorado. É isto que tocamos porque é isto que gostamos. Se não vivêssemos em Portugal, talvez pudéssemos ambicionar um pouco mais. Claro que gostaríamos que a nossa música fosse apreciada por muitas pessoas. Não vamos é ceder na personalidade que criámos para que isso aconteça. Esta é a música que queremos fazer, independentemente de qualquer contexto. Sentados e de chapéu. E a soar a preto e branco, mesmo tocando a cores.

Como foi trabalhar para a banda sonora do filme “A Arte de Roubar” do Leonel Vieira e como apareceu a vossa música em anúncios comerciais?

Essa é uma ideia muito mais romântica do que a realidade. Gostaríamos muito de o ter feito, e se algum realizador o quiser fazer e nos propuser isso mesmo, teremos todo o prazer em trabalhar e compôr para um filme. Até porque, de certa forma, a nossa música tem algumas características bem cinematográficas. Mas a verdade é que tudo se passou ao contrário. Tal como os restantes intervenientes na banda sonora da Arte de Roubar (Dead Combo, Legendary Tigerman, etc.), fomos convidados a participar com temas já gravados e editados. Ou seja, as músicas já existiam em disco e foram compiladas para o filme porque faziam sentido e ajudavam a completar o todo. Um pouco à semelhança das bandas sonoras dos filmes do Tarantino. Aliás, Leonel, se estás a ler isto, já pensaste em editar a banda sonora do teu filme? Daria uma bela colectânea. Com os anúncios comerciais para a TV aconteceu algo semelhante. Fazemos parte da “pool”  duma produtora de som, que propôs a música para os anúncios. Resultou bem e foi aceite por agência e cliente. Nunca escrevemos nada de raíz por encomenda. Mas não estamos fechados a propostas, desde que não esteja em causa a personalidade dos The Soaked Lamb.

Neste disco trabalham com diversos convidados que vêm de variadas áreas musicais como o Funk, o Soul, o Rock e a Pop. O que é que esse cruzamento de experiências e sonoridades trouxe ao disco?

Os convidados trouxeram coisas importantes para o disco, mas não foram ao nível das suas outras áreas de intervenção musical. Todos eles têm coisas em comum connosco – para além de serem nossos amigos – e até algumas afinidades com o nosso som. As músicas em que participam, ganharam uma dimensão que não tinham só com os 6 membros da banda, mas não fugiram do nosso universo ou personalidade musical. A participação deles, além de ser uma grande honra para nós, enriqueceu bastante o disco, mas não existiu um cruzamento de sonoridades. De experiências, claro que sim. E nesse sentido o disco está maior e mais forte do que sem eles. Ou seja, manteve-se o espírito mas tem as cores mais vivas. Eles são a cereja no topo do chapéu.

De futuro esperam visitar outras épocas sonoras ou vão continuar nos ritmos do Jazz, da Valsa e do Swing?

Nada disso é muito consciente ou pensado para ser dessa forma. Não procuramos ser puristas ou revivalistas duma época ou estilo específico, pelo menos nesse sentido da pergunta. Fazemos apenas o que gostamos e isso acaba por nos levar a muitos sítios, a muitos estilos e ritmos diferentes. Mas essencialmente, o que nos interessa é a música do período anterior à década de cinquenta e da massificação da indústria musical. Essa forma de composição um pouco mais complexa dos blues e pensada em função da canção como um todo e não dos executantes. Mas também não recusamos o que se passou depois disso, e pomos na nossa música muita coisa posterior a essa época. Simplesmente temos a atenção mais focada nessa altura. E iremos, com toda a certeza, visitar muitos outros ritmos e estilos. E já no próximo disco, que até já está a ser cozinhado em lume brando.



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