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A busca pelo vazio

"The Song" de Anne Teresa De Keersmaeker, no Teatro Maria Matos, dias 23 e 24 de Novembro

A apreensão da espera pela música prolonga-se. Prolonga-se até ao fim de toda a performance, porque em “The Song” a música nunca se chega a ouvir. A coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker, protagonista do programa Artista na Cidade, traz com este espectáculo uma experiência demarcada pelo afastamento do seu registo habitual. É também um estudo de movimento do corpo masculino – são nove os homens em palco, acompanhados de uma presença feminina. O risco de Keersmaeker, em colaboração com os artistas plásticos Ann Janssens e Michel François, é claramente bem sucedido – “The Song” perfila-se nos momentos altos da sua obra.

Trata-se, antes de mais, de uma experiência do vazio, de um discurso de despojamento. O palco é reduzido ao essencial, luz e movimento. O corpo é o centro destas ausências, na sua íntima relação com o som – é na música que está a chave da inventividade de Keersmaeker. A nudez do espaço é desconcertante. Há uma luz cirúrgica que ilumina o palco e a enigmática estrutura que o encerra no topo, uma espécie de película translúcida que nos prende vagamente o olhar e cuja queda parece marcar dois momentos distintos. E é tudo o que nos resta.

Os bailarinos, em trajes informais e despreocupados, relacionam-se mutuamente neste abandono, por gestos e rodopios que são os tão peculiares da artista belga e que nos retomam à sua linguagem. As intermitências de luz – ora total, ora ausente – e os simulacros sonoros criados nas margens do palco pela artista Céline Bernard, através de um sapato, uma poça de água ou um casaco impermeável, colocam os corpos em ambivalência, estando próximos e distantes, sendo realidade ou artifício.

A liberdade e a expectativa são postas à prova. A contingência do espaço e os ecos de um passado de esperança trazem consigo uma pulsão evasiva, segundo movimentos frenéticos de revolta e agitação e pequenas melodias que rasgam a impenetrabilidade do silêncio – existem, sim, parêntesis de música em “The Song”, curiosamente assinalados pelo “The White Album” dos Beatles. Os bailarinos assistem-se mutuamente em redor do palco, a partir de onde intervêm e especulam, como que replicando mutuamente numa expressividade que só a dança poderia oferecer, sob rasgares e cortes pelo movimento ou contorções do corpo que nos falam.

“The Song” é uma busca incessante que traça uma linha que nos divide e compreende essa separação inevitável – há uma corrente luminosa que percorre todo palco e plateia, num movimento de 360º, no desfecho do espectáculo. Keersmaeker ensaia, acima de tudo, a vulnerabilidade pela desconstrução num minimalismo que exala rotura, questiona a essência, os princípios, e pensa o futuro, a transformação.



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