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The Sticks e Black Lips

Caixa Económica Operária, Lisboa, 11 de Novembro.

Os Black Lips são miúdos mal comportados, que partem os instrumentos em palco e incapazes de se portarem bem onde quer que vão. Os Black Lips são também miúdos badalhocos, que se beijam na boca, destapam os órgãos genitais e mijam em palco. E os Black Lips são ainda miúdos rufias, que arranjam confusão com pessoal do público e até de outras bandas (que o diga Nathan Williams, aka Wavves). Os Black Lips são, portanto, maus rapazes. Certo? Errado! Os Black Lips são apenas miúdos que tocam rock’n’roll e o usam como forma de se exprimirem, de se manifestarem, de se revoltarem e de crescerem, sem quererem, propriamente, marcarem uma posição ou mandar uma mensagem. Apenas o são. São maus rapazes, é certo, mas um mau bom, não um mau maligno (a good bad, not evil).

Por isso, foi quase natural que o momento alto do concerto dos Black Lips neste seu regresso a Portugal, desta vez no belo palco da Caixa Económica Operária de Lisboa, tenha sido com o seu hino, «Bad kids», em que o público invadiu o palco de forma espontânea e pacífica (e quase natural, acrescentamos) para cantar, dançar e, especialmente, celebrar aquele momento de afirmação juvenil com a própria banda (bad kids / all my friends are bad kids / kids like you and me). No final, sem ser necessária a intervenção do segurança e sem qualquer altercação, os miúdos abandonaram o palco, voltando a ocupar o seu lugar no público, enquanto os outros rapazes – a banda – continuava o concerto. E como foi bonito ver um jovem petiz, que certamente só terá idade para votar daqui a uns aninhos valentes, a dançar e a cantar o refrão a meias com o guitarrista Ian Saint Pé.

Foi o auge de um concerto sempre em crescendo, que palmilhou especialmente o rock’n’roll dos dois últimos álbuns de originais da banda, “Good bad not evil” e “200 million thousand”. Autênticos Beatles do tempo das cavernas, os Black Lips celebram o rock’n’roll em puro êxtase punk, de electricidade nas veias e acne na cara, transformando o garage lo-fi numa arte e fazendo-se valer da urgência e do hedonismo do próprio rock. Aqui não há espaço para artifícios e, como defende sua-santidiade Billy Childish, a originalidade é um conceito burguês.

Por isso, houve party-rock por entre a linha de baixo viciante de «O Katrina» ou o tom festivo de «Drugs», o flower-punk psicadélico de «Let it grow» ou de «Freakout», ou o 60’s beat em excesso de velocidade do novo «Short fuse». Cá em baixo, o público respondia de acordo com os impulsos do corpo, dando inclusive uma folga ao moshpit para receber o vocalista Jared Swilley no encore, depois do clássico de Chuck Berry, «Too much monkey business». E em pouco mais de uma hora, os Black Lips voltaram a reescrever décadas e décadas de histórias de rock’n’roll, só que desta vez com drogas diferentes.

Quanto à primeira parte, o aquecimento ficou entregue aos ingleses The Sticks, um power-trio pouco convencional, constantemente a trocarem de instrumentos entre si – um baixo, uma guitarra e uma mini-bateria (apenas tarola, um timbalão de chão, um prato e uma pandeireta) –, para pouco mais de meia-hora super concentrada de uma espécie de surf-rock descarnado em linhas esfuziantes que se entrelançavam entre si, às vezes apanhando o público outras vezes fugindo do controle, tentando contornar as limitações do formato com muito feeling e uns efeitos irritantes de delay na voz.



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