“The Walking Dead Vol. 6 – Esta Triste Vida” – Kirkman, Adlard e Rathburn

“The Walking Dead Vol. 6 – Esta Triste Vida” – Kirkman, Adlard e Rathburn

Para o bem e para o mal, os nossos maiores inimigos continuam a ser... nós mesmos

A Devir continua, muito bem, a apostar na continuidade de “The Walking Dead”, uma das sagas de BD mais lucrativas da actualidade. O início da sua publicação por cá surgiu pouco tempo após a estreia da adaptação televisiva da “AMC”, a qual aumentou exponencialmente a popularidade deste universo criado por Robert Kirman e Tony Moore.

Num país onde o consumo de BD não é assim tão grande – longe disso -, a aposta em livros financeiramente mais seguros é importante e necessária. Em adição, graças à série televisiva, esta pode ser uma boa forma da BD vir a conquistar novos leitores que, entusiasmados com a leitura de “The Walking Dead”, poderão querer partir para a descoberta de outras histórias e, com isso, ganha toda a BD.

De forma a explorar a psique e as relações sociais entre pessoas em determinadas situações críticas de sobrevivência, Robert Kirkman e Tony Moore criaram, como estratégia narrativa, um apocalipse Zombie. Apesar da chacina que, consequentemente, está interligada à série, desenganem-se aqueles que pensarem que o foco são os ataques dos mortos-vivos. Aqui, o mais importante será sempre a nova vida a que este grupo de pessoas tem de se adaptar, a sobrevivência.

Os autores poderiam ter optado por outro mecanismo no enredo desde que conseguissem justificar a razão para o mundo, tal como o conhecemos hoje, ter terminado. Nesse sentido, não parece que haja aqui qualquer tipo de metáfora em relação aos Zombies, que poderiam personificar algum tipo de parasitismo social onde uns apenas se alimentam do cérebro de outros.

A abordagem a estas criaturas do terror é similar à maioria das obras mais recentes, ou seja, tudo indica que a origem da sua existência é de cariz biológico e, tal como um vírus, contaminante (a partir da transmissão de fluidos). Contudo, há um pormenor a salientar nesta interpretação, um que difere das desenvolvidas até agora. Em “The Walking Dead”, todas as pessoas aparentam ser já portadoras desta terrífica condição e, mesmo que não tenham tido qualquer contacto com um Zombie, basta morrerem para a doença ser despoletada. É precisamente esta particularidade que torna esta abordagem diferente, aguçando ainda mais a curiosidade em descobrir o que realmente aconteceu neste mundo e qual o seu futuro.

No volume anterior tínhamos deixado Rick, Michonne e Glenn nas amarras do terror que é conhecido por “O Governador”. Ainda não acabámos de processar esta nova sociedade criada por este líder demente e já a história dá mais uma das suas típicas reviravoltas, que resulta na surpreendente tentativa de fuga dos nossos heróis. De todos menos de Michonne, cuja sede de vingança parece ultrapassar a de liberdade.

Uma coisa de que não se pode acusar “The Walking Dead” é de ser uma série onde nada acontece. Nunca Rick e os seus companheiros podem cruzar os braços em descanso sem que algo venha ameaçá-los e impelir uma vez mais o antigo polícia a abandonar a sua mulher e filho em prol de um suposto bem maior. Porém, aquilo que é uma das suas maiores forças é, ao mesmo tempo, uma das suas maiores fraquezas. Apesar de Kirkman colocar várias e pertinentes questões humanas ao longo destas aventuras, na sua maioria, a abordagem às mesmas é apenas superficial, uma vez que a velocidade dos acontecimentos – incluindo a morte de várias personagens – nunca dá espaço para desenvolvimentos e investimentos emocionais maiores. Ainda assim, as questões ficam no ar e a pender na mente do leitor, cuja reflexão só por si já valerá a pena.

Compreende-se que os autores queiram ter as suas personagens numa constante agitação e que, devido aos contantes perigos, não haja tempo para pararem, reflectirem e até sentirem o que lhes está a acontecer, movendo-se quase apenas por instinto – a tensão é não só uma presença assídua na série, como uma das suas características mais bem conseguidas; mas os meses passam – como é notório pela barriga de Lori – e há assuntos que valeria a pena explorar mais a fundo ou, pelo menos, não os resolver tão depressa.

Claro que mesmo que tudo seja rápido em “The Walking Dead” – neste volume em particular a cena que envolve Michonne e o Governador – muito dificilmente não impressionará o leitor, tornando-se de longe uma das mais violentas até à data. Por muito estrago que os Zombies façam, falta-lhes a imaginação para atingirem os níveis ou requintes de malvadez que uma pessoa consegue. Para o bem e para o mal, os nossos maiores inimigos continuam a ser… nós mesmos.

A cargo do desenho continua Charlie Adlard, desde que substituiu Tony Moore no final do primeiro volume. Adlard soube pegar muito bem no trabalho que Moore vinha a desenvolver e a passagem de um desenhador para o outro – apesar das diferenças entre si -fez-se sem se notar uma grande divergência gráfica. De resto, Adlard tem vindo a saber imprimir o seu cunho pessoal à série: as personagens ganharam em expressividade e a história em dinamismo. Tudo isto resulta num trabalho bastante competente para aquilo que a história pede e precisa. De mencionar ainda o bom trabalho de Cliff Rathburn, que se mantém desde o início como o responsável pelos tons de cinzento.

No geral, “The Walking Dead Vol. 6 – Esta Triste Vida” (Devir, 2013) é mais um bom volume dentro daquilo a que nos têm vindo a habituar e que irá certamente agradar aos fãs que a têm seguido até aqui. Se no final ficar a vontade de quererem continuar a saber mais sobre o que irá acontecer a este grupo de pessoas, então o trabalho dos autores foi cumprido.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This