The Weatherman | Entrevista

"O que mais me move enquanto músico e criador de canções é não só poder dar voz à minha criatividade, mas, sobretudo, o prazer que me dá ver as canções crescerem diante dos meus olhos."

São cinco os anos que separam “All Cosmologies” do álbum anterior de The Weatherman e a Rua de Baixo aproveitou a ocasião para falar um pouco com Alexandre Monteiro.

RDB: Foram 5 anos longe das edições originais. Por onde andou o Alexandre Monteiro durante este período? E o The Weatherman?
TW: Como sempre, nunca deixei de ter a minha cabeça em grande parte mergulhada na música – o sonho não parou. Talvez a única diferença que explica em parte que, desta vez, o hiato entre álbuns tenha sido de 5 e não de 3 anos foi o facto de eu ter abrandado um pouco na pressão que exercia sobre mim mesmo em relação à criação. Encarar a vida mais como ela é…

RDB: «Valentina» é daquelas canções; sólida, apelativa e deliciosamente pop. É um raio de luz. O início consegue trazer-me à memória os M83 do Gonzalez na fase do “Hurry Up We’re Dreaming”, mas depois a canção ganha personalidade própria e torna-se apenas e só The Weatherman. Fala-nos um pouco sobre a canção que foi inspirada pelo nascimento da tua sobrinha, Valentina.
Obrigado pelo elogio – a intenção era essa. Quando a minha sobrinha Valentina nasceu apeteceu-me escrever-lhe uma música, mas, na altura, nem me passava pela cabeça que iria sequer entrar num disco. O que é certo é que gravei uma demo e gostei tanto do resultado que reuni a minha banda e, num abrir e fechar de olho,s estávamos em estúdio. A canção é precisamente sobre o anunciar do nascimento de uma nova criança ao mundo.

RDB: A canção esteve também na génese do que se viria a tornar “All Cosmologies” e do filme, realizado pelo Vasco Mendes e que conta com a participação da atriz Carolina Amaral no papel principal. Conta-nos como é que tudo acabou por ganhar forma.
TW: Foi já com a canção em mãos que comecei a pensar em ideias para, desta vez, ao meu quinto disco, fazer algo diferente do que já tinha feito. Foi então que decidi criar um álbum que contasse uma história que, por sua vez, se pudesse converter num filme musical. A escolha da atriz foi algo que eu deleguei no Vasco Mendes, e a escolha dele revelou-se “na mouche”. A Carolina Amaral é uma enorme atriz.

RDB: De momento temos “apenas” «Valentina», que funciona quase como um trailer. Quando e onde é que vamos poder ver o filme na sua totalidade? Já se pode saber?
TW: Se estivéssemos num mundo sem pandemia, provavelmente, por esta altura, já teríamos uma sala reservada para apresentar o filme. Foi assim que eu idealizei – uma festa com convidados e amigos. Estamos a estudar a melhor forma de o apresentar e divulgaremos tudo oportunamente.

RDB: Porquê “All Cosmologies”?
TW: Há uma ideia que atravessa este disco que é o legado que todas as gerações que pisam o chão do planeta Terra, forçosamente, deixa para as seguintes. Se até aqui tal não foi problemático, creio que estamos a entrar numa nova era em que as atenções do Homem se vão virar definitivamente para a questão ambiental e em que poderemos em breve começar a sentir na pele o resultado do que andamos a fazer de errado ao planeta. All Cosmologies traduz esse pensamento, num jogo de palavras com “All Apologies”, no sentido de um pedido de desculpas universal por parte de todas as gerações a todas as gerações futuras.

RDB: Um músico e compositor é em parte aquilo que ouve. Houve algo que tenhas ouvido e que tenha acabado por ter uma influência maior nas canções que criaste?
TW: Creio que não. Na verdade, durante o tempo em que escrevi estas canções nem sequer tinha em mente qualquer disco de ópera rock. Penso que estou numa fase da minha carreira em que consigo fazer tudo o que me apetece, sem ter que pensar em outras bandas ou outros artistas.

RDB: Defines este álbum como uma ópera pop e, de facto, quase que podemos a olhar para estas 13 canções como um compêndio pop, tal a diversidade e diferentes abordagens que segues. É o piano que começa por nortear “The Times They Are A-Fakin’  para depois tudo ser elevado camada após camada ou, por exemplo, a guitarra mais suja em «Killer Bee» que nos conduz em crescendo até desaguar no refrão que nos enche. Foi algo deliberado, como que um desafio para ti mesmo?
TW: Completamente. O que mais me move enquanto músico e criador de canções é não só poder dar voz à minha criatividade, mas, sobretudo, o prazer que me dá ver as canções crescerem diante dos meus olhos. E mostrar versatilidade na composição e interpretação sempre foi um dos meus objetivos – é algo realmente desafiante – talvez seja por isso que seja viciante fazer música.

RDB: O digital veio para ficar, com todas as vantagens e desvantagens que pode ter para os artistas. Isso acaba-se reflectindo em edições físicas mais cuidadas, e que apelem realmente a quem deseja sentir o objecto físico nas mãos. E neste papel o vinil é quase perfeito na forma como pode representar. Foi com esta ideia em mente que avançaste para a edição limitada de 300 cópias do álbum?
TW: Exatamente. Eu sei bem o que se sente quando podemos ter em mãos os nossos discos favoritos, e as edições especiais limitadas vão mais longe ainda – tornam-se objetos de coleção. Tendo consciência de que a maior parte das pessoas vai ouvir em digital, tenho a certeza de que algumas vão adorar ter este vinil. É mesmo uma tendência dos tempos.

RDB: O concerto de apresentação está previsto para o dia 19 de Junho no Porto, esperemos nós. Depois disso quais são os planos para “All Cosmologies”?
RDB: Não faço ideia. Por todas as razões, essa data poderá tornar-se numa grande celebração – as pessoas vão estar sedentas de música ao vivo como nunca antes. Dadas as circunstâncias do último ano, a concretizar-se esta data, será uma grande vitória. Um passo de cada vez.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This