Thelma, Joachim Trier

“Thelma”e “A Estranha Casa na Bruma”

O UCI El Corte Inglês vai receber o melhor Cinema Independente.

Passada e mais que ultrapassada que se encontra a silly season, eis que a Cinema Bold introduz uma das grandes novidades da rentrée cinematográfica no que à produção e distribuição diz respeito no nosso país, pelo que este Outubro não é um Outubro qualquer. Assim, a Cinema Bold, que é uma marca distribuidora da Alambique, anuncia-nos a boa novidade de que os seus filmes passam a partir de agora a ser transmitidos em exclusivo em Lisboa e Porto através dos UCI Cinemas.

Dia 4 de Outubro marca o arranque dessa feliz parceria, com a estreia de Thelma, do realizador Joachim Trier, que surge complementada pela curta de Guilherme Daniel,  “A Estranha Casa na Bruma”, vencedora do prémio de melhor curta de terror nacional na edição do MotelX deste ano. Esta parceria assume-se como bastante significativa, já que a Bold, tal como refere em comunicado de imprensa, foi criada com o objectivo de conseguir que alguns dos mais arriscados e inovadores filmes do panorama cinematográfico da actualidade possam chegar ao público português de uma forma coerente e continuada e, simultaneamente, ser um território de experimentação aberto a todas as novas tendências que marcam os nossos tempos. É assumido, pois, o risco de impulsionar o cinema visto em sala numa altura em que existem inúmeras novas formas de o olhar e ver, nomeadamente a onda galopante do streaming.

A Cinema Bold explica-nos ainda que os UCI Cinemas são o parceiro ideal para dar continuidade a este projecto, permitindo que todos os meses o público possa descobrir nas melhores condições possíveis algumas das mais surpreendentes propostas cinematográficas a estrear em Portugal. Sempre um filme por mês, com sessões diárias à meia-noite, todas as quintas-feiras às 21h30 e domingos às 19h00. Como já mencionado acima, a parceria arranca a 4 de Outubro com a estreia de “Thelma”, o mais recente filme do realizador dinamarquês Joachim Trier, que após “Oslo, 31 de Agosto” e “Ensurdecedor” regressa agora com um thriller sobrenatural. Em colaboração com o MOTEL X – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, estreia ainda em complemento nos cinemas a curta-metragem vencedora do prémio para Melhor Curta de Terror Portuguesa deste ano, o filme “A Estranha Casa na Bruma” de Guilherme Daniel.

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A parceria com os UCI CINEMAS continuará depois com as estreias dos seguintes filmes: “O Interminável”, de Justin Benson & Aaron Moorhead , a 1 de Novembro; “A Árvore da Discórdia”, de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson, a 6 de Dezembro; “Border”, de Ali Abbasi, a 3 de Janeiro 2019; “Climax”, de Gaspar Noé, a 7 de Fevereiro 2019; e “Artic”, de Joe Penna, a 7 de Março. Tal como sempre aconteceu com os lançamentos Cinema BOLD, os filmes ficarão disponíveis em DVD e VOD uma semana depois da estreia em sala.

Para 4 de Outubro, estreia, pois, Thelma, o filme que marca o aguardado regresso do realizador dinamarquês mas também a boa surpresa de ter por complemento nos cinemas uma curta-metragem portuguesa, “ A Estranha Casa na Bruma”, cuja história se baseia no conto de H.P. Lovecraft “The Strange High House in The Mist”. São 15 minutos de filme realizado por Guilherme Daniel e produzido pela Suspício Filmes cujo trabalho de fotografia e tempo narrativo é, para além de sóbrio e sedutor, uma escolha repleta de classe e bom gosto para passar antes de Thelma, pelo que não é apenas uma colagem sem sentido de duas peças de cinema completamente dissonantes uma da outra – é uma harmoniosa e lógica sequência. Com um trabalho mestre no que toca à fotografia, respira sobriedade e suspense, assente numa produção minimalista mas absolutamente eficaz. A história do peregrino que encontra uma misteriosa casa que olha solitária para o abismo e do seu encontro com o igualmente misterioso habitante daquela casa é muito mais que o percurso religioso de um homem pelas franjas da floresta até atingir o horizonte marítimo. De conteúdo filosoficamente denso se a esses aspectos quisermos dar azo, Guilherme Daniel consegue condensar nesta curta-metragem todas as questões tensas levantadas pela história, onde o desfecho acaba por ser o menos surpreendente e talvez o elemento que destoa do imaginário e estética de tudo o que está para trás. Não é, contudo, isso que desvaloriza este trabalho primoroso que, mais do que horror ou terror, inspira um intenso amor à arte e à filosofia.

“Thelma” fica assim com tarefa árdua a cumprir ao longo das suas quase duas horas de película, depois  de assistirmos a “A Estranha Casa na Bruma”. A 4ª longa-metragem de Joachim Trier representa uma viragem na carreira do realizador que não se move por géneros mas por vontades e é por isso que “Thelma” é uma espécie de thriller psicológico misturado com elementos sobrenaturais, romance, drama e talvez um pouco de mais uns quantos géneros bem definidos. Esse elemento refrescante é abonatório para a carreira do realizador dinamarquês porque nunca sabemos muito bem o que esperar a seguir e porque demonstra não só o seu amor à arte como também o seu desejo de não se conformar apenas com aquilo que se espera dele. Claro que o seu público tem expectativas em relação aos seus filmes e também se torna claro que nenhum filme pode estar totalmente dissociado de quem o vai ver e o que “Thelma” acaba por trazer à superfície é a indecisão na escolha entre um caminho absolutamente independente e o que pretende agradar ao espectador.

“Thelma” traz-nos a história da personagem com esse mesmo nome, uma rapariga tímida que deixa o contexto da família de grandes tradições religiosas no Oeste da Noruega para ir estudar na Universidade em Oslo, trocando igualmente o contexto de isolamento rural pela grande cidade, tradicionalmente o centro de todas as tentações. São essas tentações que Thelma irá ali descobrir, ao apaixonar-se por Anja, uma colega de faculdade, ao mesmo tempo que associadas a essa atração se encontrarão habilidades sobrenaturais das quais não estava totalmente ciente. A premissa do argumento é simples assim como simples é a estética e o desenrolar da história, sendo notória a ambição do realizador por um olhar despido e sóbrio que permita afastar quaisquer tendências ou tentações festivaleiras, apesar de assumir com clareza que fez e gostou de fazer algumas experiências mais bizarras, como usar serpentes em algumas cenas ou colocar pessoas a arder em combustão espontânea.

Esse é o grande trunfo de “Thelma”, um filme que à semelhança da sua personagem principal não quer perder o controlo e, com isso, tenta criar suspense suficiente que prenda o espectador. De facto, isso resulta na perfeição ao início, antes de Joachim Trier começar a misturar todas as influências, referências e géneros cinematográficos no mesmo filme. Por um lado, a fotografia e o modo como a cor joga um papel ténue e tímido em chamar a atenção para certos elementos dentro da sobriedade geral, são muito atraentes e acabam por ajudar a manter a trama suficientemente misteriosa para que o espectador não sinta estar a perder tempo. A história precipita-se, por vezes, muito rapidamente para momentos de clímax sem grande preparação e muitas das promessas que vai fazendo acabam apenas por ser goradas e, por exemplo, aquele que podia ter sido um romance entre duas mulheres (a que o realizador dá ênfase em muitas das suas entrevistas) nem sempre parece ser real e seria importante definir esse aspecto tendo em conta que é um dos elementos base da história. Joachim Trier nunca assume essa definição e se o faz opta por um caminho argumentativo que apenas tinha sido timidamente aflorado muito ao início do filme e que podia ter sido aproveitado para intensificar a dualidade que Thelma vive, dividida algures entre o céu e o inferno, Jesus e Satanás. Em alguns momentos, podemos até colocar em causa se Anja existe mesmo ou é mera projecção do desejo de Thelma e embora essa seja uma possibilidade passível de ser ponderar por quem vê o filme, essa hipótese não parece ser a verdadeira intenção do realizador, segundo as suas próprias palavras.

Por inabilidade de montagem ou não, a narrativa dá inúmeras vezes pulos incongruentes para introduzir todas as novidades que o realizador pretendia juntar e é nesse ponto que a linha narrativa e a estética focadas de “Thelma” acabam por perder-se entre tantas hipóteses. Os excelentes actores acabam por funcionar como ponto de apoio sólido para algumas dessas incongruências, já que todas as actuações são irrepreensíveis, embora o destaque vá para a jovem actriz que interpreta Thelma, Eili Harboe. É para ela que confluem todas as outras personagens e é a partir dela que lentamente vamos tendo conhecimento da realidade e mesmo ter acesso à explicação de, por exemplo, porque é que é a cena de um pai extremado a apontar a carabina à filha que abre as hostes de “Thelma”. Essa estética macro que Joachim Trier aí introduz no filme acaba por perder-se mas é verdadeiramente bela nas paisagens desoladoras e gélidas que nos remetem inevitavelmente não só para a crueldade e dureza da natureza como também para a solidão e o isolamento que reflectem ou induzem. Por outro lado, destas paisagens damos o salto para a grande cidade, a grande meretriz das tentações, local onde Thelma irá explorar e descobrir-se, dando origem a outras cores, outra fotografia, outros contextos visuais mas onde igualmente é explorada a imensa solidão e isolamento que aquela personagem em particular carrega, quer pelo seu passado quer pela clara inabilidade de viver a sua vida livre de pecado e culpa.

Thelma, Joachim Trier

Apesar das inúmeros e ricas referências visuais e narrativas, em muitos momentos do filmes as personagens que gravitam em torno de “Thelma” aparentam não ter a profundidade ou carisma argumentativo suficiente para a acompanhar, fazendo com que percam alguma da força que poderiam introduzir na história. Um pai dividido e dilacerado, uma mãe demasiado preocupada mas ausente, a religiosidade extrema, são temas explorados de forma tão superficial que não chegam a ganhar verdadeira importância. Joachim Trier consegue, contudo, com altos e baixos, recentrar e resgatar o filme em direcção à dualidade de Thelma e teria sido interessante que esse fosse o foco principal, deixando de parte os temas que, afinal, acabou por não trabalhar de forma tão congruente ou profunda.

Em última análise, “Thelma” é um filme inteligente e sóbrio que não se assoberba com grandes efeitos especiais ou espectáculos de luz e cor. Carecendo de um maior esforço para não se perder nas suas inúmeras referências ou intenções, não deixa, pois, de ser interessante e deixar muitas questões para o espectador, mesmo terminando com uma aparente verdadeira conclusão. Explora de modo sereno e belíssimo em termos visuais a existência de dois mundos, um de luz e outro de sombra, que advém não só da questão da religiosa como também da inelutável dualidade de que os seres humanos se encontram eivados. É nesse jogo de luz e sombra, de bem e mal, Jesus e Satanás, que “Thelma” tão bem se move, fazendo dele, na base, um grande exemplo de cinema europeu de suspense que se destaca dos seus semelhantes norte-americanos. Afasta-se da tentação plástica das grandes produções e explora um outro olhar, mais contemplativo e alongado, mesmo nos momentos em que parece não ter sabido decidir-se muito bem por que terrenos queria verdadeiramente andar. No fundo, é um bom filme que nos permite sentir que as duas horas não foram um desperdício de tempo, não acarreta arrependimentos e dá ao espectador temas suficientes para poder explorar depois fora da sala de cinema.



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