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Tiago

Make two o'clock with one clock. Entrevista a Tiago Miranda. DJ, Músico, Produtor - agitador em projectos como Slight Delay, I Boat Captain, Mendes & Alçada...

Como no mar a superfície esconde as correntes, também a música sofre coagitações com a presença de diversos agentes que mexem no underground; como mineiros, vêem o seu trabalho apenas reconhecido pela visibilidade do minério – mas esta é muitas vezes é reclamada em nome de outrem.

Tiago é um nome real e natural de um DJ e produtor português – irrequieto desde meados dos anos 90, reconhecido entre os seus pares, desmultiplica-se em diversos projectos, mas mantendo uma certa distância do bulício que implica a sua actividade porque o que faz “surge naturalmente. É uma reacção natural aos elementos” que o rodeiam.

O que define o seu trabalho “não é um estilo de música, é um estilo de vida” que aí se manifesta. Uma boa resposta – cansados estamos de biografias fantasiosas que exageram feitos dando-lhe origens quase esotéricas.

A materialização do seu ofício “surgiu com a necessidade de trabalhar em música de dança sem grandes meios. Foram os primeiros trabalhos feitos para tentar trazer a temas meus conhecidos alguns elementos estranhos ao original, na tentativa de criar diferentes atmosferas nos temas e em última instância diferentes atmosferas no DJ set.”

O formato escolhido foi o 12”; Tiago Miranda declara, “o vinil é o que uso para ouvir e pôr música, mas não sou contra outros meios. Cada um terá as suas preferências e todas válidas. Uso vinil porque consigo mais com ele, seja som, manuseamento, etc.”

Ferramenta por excelência nas mãos de um DJ, as suas edições foram até agora na forma de re-edit. Contudo, estes não estão necessariamente relacionados com a funcionalidade, mas com “músicas que sinta que posso acrescentar e não especificamente cortar. Por exemplo, um dos edits que fiz para a Mindless Boogie não levou corte nenhum, apenas alguns efeitos exteriores e equalização…. that’s it!”

É isso. A oportunidade de editar pela Mindless Boogie, (re)editora belga por excelência, surgiu pelo contacto, através de amigos comuns, com um dos seus patrões, Dirk De Ruyck (também ligado à Eskimo Recordings). Tiago conta, “na altura ainda não fazia música que lhe pudesse interessar em termos editoriais, mas ele gostava dos meus sets como DJ. Mais tarde comecei a trabalhar nos edits e enviei-lhe. Ele gostou e editou.” Simples. Três músicas que juntam um épico piano cósmico tropical com a agitação de dois temas disco-meio-funk.

Uns meses mais tarde, em meados de 2008, formaliza-se também em plástico negro a parceria com Alcides. Uma dupla que vem de longe, nem sempre aparelhada mas nunca distante. “Conhecemo-nos no início dos anos noventa. Estivemos, de uma forma ou de outra, sempre em contacto, até que uma vez depois de uma conversa na Flur [loja de discos] decidimos fazer as Unight (noites no Lux) e depois disso os Slight Delay.”
As Unight representam uma união tão solene como “cerveja e tequilha”, ou seja, “anything goes”; mas têm um reflexo regular na ética da sua produção como Slight Delay “quase todos os temas escolhidos para os edits foram ouvidos por nós (por um ou por outro) pela primeira vez nas nossas noites e escolhidos aí.”

No entanto, depois não houve ligeiro atraso e chegaram à editora americana Rong que os ouviu em Junho e editou em Setembro. O 12” “Sufi Surfer” percorre uma onda descontraída, mas enigmática entre disco pouco óbvio, krautrock, delays dub com África sempre presente. A melhor descrição para este será “Esgotado!”. O peso da editora terá a sua influência, no entanto nas discotecas ninguém obriga a comprar discos. O conjunto de temas desapareceu mas reapareceu pelas mãos de diferentes DJs pelo globo – e alguns bem difíceis de convencer como o caso de Harvey.

Usando o pseudónimo I Boat Captain, para uma faceta mais “soft”, tem dois temas originais em espera, mas no início de 2009 chegaram novos edits; trabalhado em conjunto com DJ Kaos produzem o 12” “Leopard’s theme #1” e noutra editora de força – a Skylax, que dá primazia a clássicos obscuros da música de dança. O contacto com Kaos vem desde 1996 quando as suas bagagens musicais se conheceram, mas entre afastamentos geográficos e aproximações informáticas tornaram a parceria mais séria, tendo inclusive alinhado para breve uma remistura para ZNTN na francesa Astrolab e um split 12” de originais para uma editora americana.

Em termos de temas originais, juntamente com Pedro Alçada constitui “Mendes & Alçada” que editará “Coaster” na Claremont 56: “Foi o primeiro tema que fizemos em conjunto. É um slow para o nascer do sol. No lado B vem um remix do mesmo tema feito pelos Idjut Boys”. Este “será seguido por um EP na Internasjonal de Prins Thomas”.

Imparável e inspirado por uma recente visita ao Japão onde encontrou uma espiritualidade e uma predisposição para a festa contagiante, espera que o resto do ano traga “o início de pequenas festas privadas sem localização legal, Loft style”. Secretismo permanente, mas refrescante.

Como apontamento final, discos:

Um disco que teimosamente não sai da tua mala – “Lovely Day” de Bill Withers

Uma descoberta recente – Zeus B. Held

Um disco de sempre – 
“Sinceramente não tenho nenhum disco de sempre. Tudo tem uma história, tudo de uma forma ou de outra acaba por ficar para trás (e não necessariamente num mau sentido). Acho que não há disco nenhum que em retrospectiva diga “é este”.

Uma música que gostavas de re-editar, mas que é demasiada perfeita para o fazer -
”Regra geral não re-edito para tornar perfeito, geralmente para o contrário, tornar mais estranho. Nada é demasiado perfeito, aceito qualquer desafio.”

Um disco que salvavas de uma casa em chamas – “Nenhum, é bom vê-los arder ah ah uh uh”



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