Feng Ai/’Til Madness Do Us Part

“Til Madness Do Us Part”

A realidade é bem mais assustadora do que qualquer filme de terror.

Apesar de Wang Bing, figura de crescente importância no cinema contemporâneo e presença constante no Doclisboa, não ter conquistado novamente o almejado galardão atribuído na edição anterior ao seu “San Zimei”, o seu novo filme é indubitavelmente a grande experiência cinematográfica do festival e um dos melhores trabalhos documentais do ano. “Feng Ai/Til Madness Do Us Part” acompanha a esmagadora rotina de alguns homens numa ala de um hospital psiquiátrico na China. O edifício, velhíssimo e a ameaçar ruir a qualquer instante, de hospital pouco terá e assemelha-se mais a uma prisão, tanto física como mental. A câmara de Bing movimenta-se por todo o espaço e persegue os pacientes nas suas deambulações intermináveis pelos corredores assombrados, mostrando a degradação dilacerante e crua deste local. Com cerca de quatro horas de duração, o filme é um esforço colossal do cinema-verdade que denuncia o abandono e esquecimento a que estes homens foram votados por parte de todos os que julgavam importantes na sua vida. A sua existência está agora em suspenso naquele lugar infernal onde até os médicos parecem ser indiferentes ao que se passa, preferindo ignorar a existência dos que ali estão enclausurados e tratando-os como se estes já não conservassem qualquer humanidade.

Se custa terrivelmente observar por dentro o que se passa naquele hospício durante todo o tempo em que o filme decorre, pensar que a maior parte daquelas pessoas já ali está internada há mais de quinze anos é inconcebível. Feng Ai, ao fazer uso do tempo real em todas as situações que apresenta, converte a sala de cinema num espaço de encarceramento e paralisa o espectador, que descobre uma realidade mais desesperante do que qualquer ficção tenta retratar. Este efeito é ainda mais acentuado por se estabelecer um contraste entre a apatia e a resignação dos que já ali estão desde que se lembram e o desespero e estupefacção dos que acabam de chegar que, eventualmente, acabam por desistir e aceitar a sua nova realidade. Muitos deles encontravam-se até em plena posse das suas faculdades mentais quando foram internados, sendo que muitas vezes os motivos para ali estarem são de índole política – opositores ao regime e activistas que ali foram confinados para não causarem problemas. O filme invade a intimidade de todos estes homens – se é que ainda existe alguma – e aproxima-nos do sofrimento que sentem. Sequências como aquela em que se celebra o ano novo são particularmente dolorosas porque sabemos que, no fundo, nada irá mudar e no dia seguinte as ilusões serão dissipadas e substituídas pelas paredes de pedra que os esmagam. E o pior é que mesmo a liberdade supostamente conquistada quando se consegue sair dali (situação obviamente raríssima) nada tem a ver com a Liberdade que conhecemos, já que se deu uma destruição irreparável da vida destes indivíduos.

Til Madness Do Us Part

Til Madness Do Us Part

Til Madness Do Us Part

Porém, e felizmente, não são a violência e o desespero que fazem de Til Madness Do Us Part um filme incrível que surpreende e que tem forçosamente de ser visto. É a humanidade que Wang Bing nos mostra a nascer entre a brutalidade, momentos de uma ternura urgente e extraordinariamente luminosa que o realizador consegue captar no meio da decadência. Dá-se uma lição de resistência e de cinema documental mostrando que este existe, em primeiro lugar, para nos fazer compreender melhor o mundo que nos rodeia e conservar o que nos permite sentir empatia pelo que desconhecemos, moldando o nosso ponto de vista e permitindo que se tome uma posição para lá da sala de cinema.

 



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