Tinariwen entrevista

Tinariwen

Afinal, o outro lado do mediterrâneo não é tão longe como isso... Entrevista com Eyadou Ag Leche

A primeira vez que vi Tinariwen foi num Sudoeste há alguns anos atrás, depois de um concerto da Bjork, no palco principal. Achei incrível como algo tão intenso pudesse ter menos gente do que o palco secundário onde uma qualquer banda de reggae surf adolescente debitava uma música wanna be Bob Marley, com muitos decibéis acima do recomendável (nada contra o reggae e muito menos contra o Bob) . Um concerto onde se ouvia mais o palco secundário do que o principal. Este fim-de-semana os Tinariwen voltaram a terras lusas e estiveram no berço da nação, Guimarães, onde participaram no Primavera Club, a versão outonal e mais cozy do festival de verão. Por demasiadas razões não consegui vê-los mas espero que o Vila Flor lhes tenha feito justiça.

São os embaixadores da cultura Tuareg e já passaram algumas vezes pelo nosso País, embora sempre de maneira discreta. O ano passado presentearam-nos com o álbum “Tassili” que conta com a participação dos TV On The Radio. As músicas exalam deserto por todos os poros, “o deserto habita-nos. Por isso cantamo-lo, claro!”.

Não gostam de se encaixar em grandes chavões do tipo “música do mundo”, acreditam que a música é algo de espiritual e universalista e que acima de tudo reflecte a sua cultura. “Sim, pensamos que os nossos concertos transmitem uma imagem autêntica da cultura Tamahek. Por definição a música é universal.” Continuam, “o importante é ter uma mensagem para passar não?!”. A classificação, por isso, não faz sentido neste universo, “não queremos passar como fazendo parte de “música do mundo”, estamos aqui para representar o que somos e o que queremos ser. Não procuramos um pseudo-estilo! Fomos, somos e seremos”, afirmam. Talvez por isso quando perguntamos por influências respondem simplesmente “Não procuramos nenhuma influência, sobretudo na maneira de tocar e viver a música.”.

O seu processo de composição vai beber ao repertório tradicional, claro, mas vive muito da improvisação, explicam. “A nossa música improvisa-se dentro da tradição. Nós crescemos com ela e por isso a sua tonalidade e o seu ritmo estão directamente ligados à nossa composição, bem como às apresentações nos concertos.” E a boa recepção aos seus concertos em todo o mundo por gente de culturas e línguas bem diferentes da sua aquece-lhes o coração. “Poder partilhar e viver juntos estes instantes, ao vivo, assegura-nos! E encoraja-nos a encontrar o apoio que procuramos dar ao nosso povo. A música, principalmente a música ao vivo, é um dos poucos remédios para o modo de vida capitalista!!!”.

“Tassili”, o último álbum de Tinariwen, foi inteiramente gravado no meio do deserto, o mesmo processo de gravação que adoptaram nos seus primeiros trabalhos, uma espécie de regresso às origens. “Esta é a única forma de viver completa e verdadeiramente a música. Estamos à procura de sensações que nos inspirem!” Da colaboração com Kyp Malone dizem que acima de tudo foi “um encontro humano, não houve nenhum plano artístico por trás, apenas algo que se desenvolveu espontaneamente. Exactamente como queríamos que tivesse sido este encontro.”.

Desta tour lamentam apenas a falta de Ibrahim Ag Alhabib, o fundador de Tinariwen, mas garantem que está a correr bem. Projectos futuros, para já, apenas o regresso a casa para perceber a realidade política em que o Mali está envolvido neste momento. “O nosso povo está a atravessar uma época terrível. Queremos voltar a casa e fazer um balanço dos acontecimentos, infelizmente bastante preocupantes, e depois divulgar a nossa visão da realidade “in situ”!” Ficamos a aguardar pelas notícias, e por um novo regresso dos nossos nómadas, afinal o outro lado do mediterrâneo não é tão longe como isso…



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