Tindersticks @ Teatro da Figuras (17.02.2020)

Tindersticks em contenção, demoraram a encontrar inspiração.

Os Tindersticks na verdade são duas bandas diferentes. Há os Tindersticks das melodias frágeis e há os Tindersticks encorpados do início. Destes últimos já não restam muitos vestígios por estes dias e no concerto que deram, dia 17 de Fevereiro, no Teatro das Figuras em Faro, houve apenas alguns vislumbres mais para o fim.

É compreensível que assim seja, já que esse primeiro capítulo da banda está virtualmente encerrado, e se antes, o desespero sofrido de canções como “Rented Rooms” era o que caracterizava a música da banda, na sua nova reencarnação, a turma de Stuart Staples vive muito mais de texturas e ambientes, muitas vezes de inspiração cinematográfica. Nada contra, e ambas as fases têm valor, mas na transposição ao vivo sente-se alguma falta de calor e daqueles pormenores musicais que podem fazer a diferença. As canções têm o seu quê de sedutor, mas não são orelhudas e na primeira hora do concerto, havia uma inescapável sensação de monotonia. Muito por culpa da banda, tão certinhos e arrumadinhos a seguir os arranjos originais das canções, que em casa funcionam lindamente mas ao vivo pedem algum desarrumo, um vinco na camisa, uma braguilha aberta ou uma nódoa de batom. Algo que lhes empreste vida.

Com 6 instrumentistas em palco era de esperar que algum deles tivesse margem de manobra para insuflar vida de palco às canções, especialmente as mais recentes. Não quer isto dizer que os últimos discos não sejam de valor, mas ao vivo soaram quase a um aquecimento. Quando isso finalmente aconteceu, por alturas de “Willow”, libertaram-se um pouco, deixaram os instrumentos soar mais alto, menos previsíveis e a voz de Stuart deixou de ser um farol para se fundir no oceano Tindersticks. Como devia ser.

Longe vão os tempos em que os Tindersticks cantavam, em modo quase dissonante e obscuro, sobre copular em casas de banho e há que aceitar isso. Mas no último terço do concerto, deu para ver que esse fogo ainda arde bem lá no fundo. Precisa é de ser nutrido ao vivo, mesmo que em disco isso não aconteça. Os instrumentos de corda também dariam um ajuda, já que fazem praticamente parte do ADN da banda.

Imperdoável foi a ausência de «Can we start again», a canção que praticamente atirou os Tindersticks para a ribalta e para a sua nova direcção. Para a próxima, alguém pague uns medronhos a esta malta antes do concerto, para ver se sentem mais confortáveis na própria pele.



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