Toni C. | “O Hip-Hop Está Morto – A História do Hip-Hop no Brasil”

Toni C. | “O Hip-Hop Está Morto – A História do Hip-Hop no Brasil”

O hip-hop só tem uma cor: verde-amarelo

Transformar o hip-hop numa personagem de carne e osso seria algo de que, à partida, muito pouca gente se lembraria. Toni C., artista multimédia, cineasta, DJ e agitador cultural, reconhecido como uma das 50 pessoas mais influentes da cultura brasileira, decidiu tentar a sua sorte.

“O Hip-Hop Está Morto – A História do Hip-Hop no Brasil” tem tudo para se tornar num bem-sucedido capítulo da literatura marginal brasileira. Em pouco mais de 140 páginas, e usando um estilo de escrita aparentado ao discurso rap – linhas como “o aquário de vidro grosso separa quem grava a voz dos latidos dos cachorros na rua” -, o livro conta a história do hip-hop brasileiro de forma romanceada, entre referências a figuras do hip-hop “verde-amarelo” como Dexter, Rappin Hood, Milton Sales ou Sharylaine – algumas delas transformadas em personagens da narrativa.

Hian Homero Pereira é o alter-ego escolhido pelo hip-hop, que irá levar a estudante de artes Samara numa visita guiada e comentada sobre o movimento, que começa com as origens incertas do hip-hop – ”Tem quem jura que assistiu ao parto. Sabe até o dia e hora.” – e termina com uma letra incendiária dos extintos 509-E – “Ao contrário do que você queria | Tô firmão tô na correria | Sou guerreiro e não pago pra vacilar | Sou vaso ruim de quebrar | Oitavo anjo do apocalipse | Tenebroso como um eclipse | É seu pesadelo está de volta | No puro ódio cheio de revolta.”.

Ao longo do caminho recordamos o nascimento do break dance – “Os passinhos… eu me divertia só em dançar imitando um robozinho” -, sentimos o desejo de reinvenção – “Eu preciso é ser redescoberto, reinventado, tá ligado? O Playstation é um game nervoso e mesmo assim já foi reinventado três vezes.” -, visitamos diversas moradas – “Moro em orfanatos, nos albergues, em praças, palcos, nos muros. Vivo nas prisões, nas mentes e nos corações de cada um que acredita em mim.” -, vemos a salvação ser-nos negada – “Eu não salvo ninguém. A salvação é uma porta que só é aberta por dentro.” – e partilhamos uma grande ambição, mesmo correndo o risco desta nos subir à cabeça provocando um abanar de crenças – “…prefiro correr esse risco. Se contentar com a miséria, é osso!”.

Apesar de alguns clichés e pensamentos feitos – como a indústria ser apresentada como um bicho papão ou insinuar que os ricos nada sabem da vida -, o livro é de uma leitura refrescante e apresenta de forma divertida e muito ritmada a forma como o hip-hop e toda a contracultura associada a este movimento se implementou e cresceu no Brasil. Tem também o mérito de induzir no leitor a necessidade de (re)descobrir o hip-hop brasileiro, seja pela publicação de 28 fotografias a preto-e-branco de várias figuras emblemáticas deste universo ou por partilhar várias rimas de bandas e artistas. O que já não é pouca coisa.



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