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Tony Wilson

Uma vénia a “Foookin’ Tony Wilson” por favor.

Meio ano depois do seu desaparecimento, o nome do mítico Tony Wilson permanece na memória de qualquer melómano que se orgulhe de assim ser apelidado. Muitos apenas o conheceram após o lançamento de “24 Hour Party People”, tentativa semi-ficcionada de Michael Winterbottom prestar a devida homenagem ao homem, jornalista, apresentador da Granada Television e empresário que Tony foi, pelas mãos de Steve Coogan. Mas o seu legado é maior do que o retratado neste filme…

Tido como o fundador da “cena” de Madchester, no final dos anos 80 e início dos 90, Tony Wilson fundou a Factory Records e o Hacienda Club, para sempre inscrito na história pelas experimentações musicais – e químicas – que aí se fizeram. As primeiras fusões entre indie rock e dance music, bem como o “nascimento” da rave music, ocorreram no Hacienda, local de actuações míticas de bandas como os Happy Mondays, Joy Division e The Stone Roses, entre muitos outros.

Além de todo o seu trajecto na televisão, na Factory Records e Hacienda, o seu legado viverá através do festival In The City, que ocorre em Manchester (where else?). Trazido à vida em 1992, em parceria com Yvette Livesey, é inigualável no mundo, fomentando debates entre nomes maiores da indústria musical durante o dia, e dando lugar a uma verdadeira orgia musical durante a noite. Bandas como Muse, Radiohead, Suede ou Coldplay foram lá lançadas. Motivo mais que suficiente para uma viagem a Manchester no próximo Outono, concordam?

Aquando a sua morte, a revista Rolling Stone recorda uma sua declaração à The Face em 1989 – na qual dizia que não tinha qualquer problema com uma eventual morte de um membro dos Happy Mondays e que o desaparecimento de Ian Curtis foi a melhor coisa que lhe aconteceu, monetariamente falando – para dizer que sentimentos não eram o seu forte. Mas não deixa de lhe fazer a devida vénia, referindo os feitos por ele conseguidos e a menção ao facto de ter sido recebido em delírio pelos presentes no Coachella Festival, meses antes da sua morte. “Foookin’ Tony Wilson” eram as palavras de ordem.

Intemporais, o seu trabalho e paixão pela música atravessam continentes e contagiam quem da (e para) a música vive. Miguel Esteves Cardoso estava no sítio certo à hora certa, vivendo ele próprio todo o rebuliço de Madchester. No conhecido site metafilter, destaca a banda A Certain Radio como uma das que mais potencial tinha, mas não obteve o devido reconhecimento. Inspirado, tentou mais tarde criar a sua Factory Records em Portugal, conseguindo inclusive colocar o álbum “Friends in Portugal”, dos Durutti Column nos charts britânicos…

Álvaro Costa, radialista e melómano assumido, curiosamente contactado enquanto revia o filme “Control” de Anton Corbjin, recorda uma noite específica em Londres após a evocação do nome. Num domingo à noite do “Outono de 1988, em “estágio” para os primeiros e duros dias “a sério” na music box londrina, isolo-me como um monge audiovisual, acompanhado de um ecrã de TV, sem som, que ia manipulando sem destino” até que reconhece a figura… “dandy elegante, ar vagamente professoral, pose suavemente autoritária, era ele, Tony Wilson, ícone pop star entre stars, apresentando um programa como se estivesse a saborear sushi no “seu” dry bar em Manchester”.

Recusa armar-se em historiador ou biógrafo e aconselha antes uma pesquisa simples pelo YouTube pelas keywords “The Other Side of Midnight”, nome do programa onde recebeu bandas que são hoje incontornáveis. Deixa apenas a homenagem ao momento em que percebe que “literatura, futebol, media, design, epicurismo, viagens, moda, iconografia e os Happy Mondays a darem cabo da tola, e a levarem-me a aproximar do ecrã, incrédulo com o circo que me invadia o quarto cabiam num modelo comunicativo…”.

Vinte anos depois, assume. “Profissionalmente ainda não cheguei, totalmente, ao outro lado da minha meia-noite; se lá chegar, acreditem que será esse o título, uma singela homenagem a essa noite de hotel londrino e à memória criativa do sir Tony Wilson”.

Chegaremos nós ao outro lado da nossa meia-noite?



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