Toots Thielmans @ CCB

O Homem e o Mito ou O rei da harmónica.

Parte I – O Homem e o Mito

Assim como Gene Krupa está para a bateria e Jimmy Smith para o órgão, Toots Thielemans está para a harmónica; foi o músico belga que a introduziu como instrumento jazz, contrariando a ideia geral de que era simplesmente um instrumento complementar.

Mas nem sempre foi assim; aliás, o seu primeiro contacto com a música aconteceu através do acordeão, quando o começou a tocar aos 3 anos de idade. Mas o destino estava traçado e a harmónica seria a paixão da sua vida, mesmo que tenha começado por se dedicar à guitarra, que tocou durante vários anos, influenciado pelo virtuosismo de Django Reinhardt e incentivado pelos amigos, que insistiam na ideia que a harmónica não passava de um simples brinquedo.

Nascido na capital belga, em 1922, sob o nome de Jean Thielemans, ganhou a alcunha de Toots graças aos músicos Toots Mondello e Toots Camarata. Mas a sua reputação começou a ser construída como guitarrista, que lhe valeu a passagem pelos clubes mais importantes de jazz da Europa desde muito cedo, atravessando o Atlântico em 1947, para tocar nos Estados Unidos da América. Nos anos seguintes dois acontecimentos seriam o impulso decisivo para a sua carreira: em 1949 toca no Festival de Jazz de Paris ao lado de Charlie Parker, que confessa ter sido a sua primeira grande influência, e no ano seguinte junta-se ao Sexteto de Benny Goodman, com quem percorre a Europa.

Ainda em 1950, Toots Thielemans muda-se para os E.U.A., deixando para trás a pacata cidade de Bruxelas. Os primeiros anos na América são consolidados na guitarra e, em 1962 grava o álbum The Whistler And His Guitar, o seu primeiro grande sucesso, que populariza um estilo inovador: uma guitarra acompanhada pelo seu assobio – assobio esse que imortalizou anos mais tarde, num anúncio para a Old Spice e depois em simultâneo com a sua harmónica.

Pela mão do produtor Quincy Jones, admirador confesso das suas faculdades na harmónica, Toots Thielemans entrou no universo da música pop, actuando e gravando inclusive com gente como Paul Simon ou Billy Joel. Aliás, a sua carreira sempre se demarcou pelo ecletismo e versatilidade – Toots Thielemans dedicou-se também ao cinema, onde assinou partituras inesquecíveis (como a de “Midnight Cowboy” ou de “Peyton Place”), e até à televisão, tendo sido o autor do memorável tema da série Rua Sésamo.

Na década de 1990, Toots Thielemans descobre o Brasil e a sua música tradicional. Fascinado pela bossa nova, que considera como uma evolução paralela do jazz, Toots grava o aclamado “Projecto Brasil”, ao lado da profícua geração do tropicalismo: Gilberto Gil, Elis Regina (com quem já havia gravado Aquarela Do Brasil), ou Caetano Veloso. Actualmente com 83 anos, Toots Thielemans continua a gravar e em digressão, ao lado do epíteto criado de monstro do jazz e de rei da harmónica, provando que o amor pela música é intemporal, rejuvenesce e engana a idade.

Parte 2 – O rei da harmónica no CCB

Mesmo para quem não o conhecia era impossível não simpatizar automaticamente com Toots Thielemans desde o primeiro momento em que pisou o palco do Centro Cultural de Belém: afável e jovial, divertido e bem-disposto, os seus 83 anos conferem-lhe aquele aspecto de avozinho simpático que apaparica os seus netos.

Mas os seus 83 anos também lhe transmitem magia e experiência, a um homem que respira e vive a música como só os predestinados o fazem. E a harmónica usa-a como extensão do próprio corpo, não como um brinquedo ou um instrumento, mas como um apêndice orgânico, que extravasa sentimentos e estados de espíritos, que o público absorve ávido e apaixonado.

Foi assim o concerto, durante mais de hora e meia. Complementado por três músicos virtuosos – Karel Boehlee no piano, Hein Van de Geyn no contrabaixo e Dré Pallemaerts na bateria – Toots Thielemans comunicou com o público que enchia o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, às vezes através da música, outras através das palavras, num inglês-aportuguesado, resultado de vários anos passados em terras de Vera Cruz.

Foi assim que ficámos a saber que Toots Thielemans sempre preferiu a harmónica, mesmo que tenha sido a guitarra o instrumento que o projectou para os mesmos palcos que Benny Goodman ou Charlie Parker; foi assim que confessou o seu amor pela bossa nova brasileira; foi assim que revelou que o amigo Gilberto Gil o havia condecorado com o título de Comendador do Estado de Rio Branco; foi assim que apresentou a sua “companheira inseparável”, a harmónica; e foi assim que recordou os seus grandes amigos Jack Pastorius e Shirley Horn, esta última que havia falecido na véspera.

Pela sua harmónica passou meio século de música: ouviram-se os tempos em que partilhou os palcos com os gigantes do jazz, epíteto que agora também é seu – «I Let A Song Go Out Of My Heart» de Duke Ellington ou «Time Remembered» de Bill Evans –, ouviram-se os tempos em que Quincy Jones o levou para o mundo da pop – «You’ve Got It Bad Girl» de Quincy Jones ou «I Do It For Your Love» de Paul Simon – ou a altura em que experimentou a bossa nova – «Começar De Novo» de João Gilberto.

A música de Toots Thielemans é amor e a celebração da vida e de todos os seus componentes; celebra não só alegrias, mas também as tristezas. Porque a sua harmónica tanto faz rir como chorar. E celebra a morte inclusive, como parte integrante da vida. Porque como referiu, “até quando Dustin Hoffman morre em “O Cowboy Da Meia-Noite” ele toca.

No final, Toots Thielemans ainda homenageou Shirley Horn com «What A Wonderful World» de Louis Amstrong e, já no encore, com «Ne Me Quitte Pás» de Jacques Brel, no momento mais comovente da noite. Os grandes mestres são assim: fazem-nos chorar com a mesma alegria de que nos fazem rir.



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