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Tóquio!

Granda Merda.

Nos anos 60, por entre as novas vagas e consagrações dos neo-realistas, o filme de episódios — composto por várias histórias, cada uma realizada por um cineasta diferente — esteve muito em voga. Em anos mais recentes, houve um ressurgimento deste “género”, com as cartas de amor a cidades — “Paris, je t’aime” e “New York, I Love You” — “escritas” pelas mãos de realizadores mais ou menos relevantes (a nova-iorquina é bem mais pobrezinha do que a parisiense). Para o espectador desprevenido, “Tóquio!” pode parecer mais uma. Não é. Basta a merda de Leos Carax para subverter a irrelevância reinante neste tipo de projectos.

Em “Tóquio!”, os episódios — realizados por três realizadores estrangeiros: os franceses Michel Gondry e Leos Carax e o coreano Bong Joon-ho — formam um corpo mais coeso do que é habitual nestas antologias. Se é verdade que cada cineasta trabalha no seu universo habitual — Gondry na fábula moderna; Carax numa destruição da sociedade; Bong nos mecanismos do cinema —, todos rejeitam o realismo e a sua lógica. A Tóquio destes três pequenos filmes também não é de bilhete-postal para turista ver, mas dá ideia de que aquelas histórias poderiam ter lugar noutra cidade qualquer. E, daí, talvez não.

O tom começa leve e pueril. Em “Design de interiores”, de Michel Gondry, um realizador de cinema e a sua namorada, recém-chegados a Tóquio, assentam arraiais no apartamento diminuto de uma amiga. Ele busca o sucesso artístico, ela descontenta-se com o papel de namorada. Depois de algumas peripécias engraçadas e dos habituais truques de câmara de Gondry (efeitos especiais sem a ajuda de computadores), a jovem transforma-se em cadeira e assume-se como apoio para homens talentosos. Não sei se fui que não soube retirar a moral certa desta fábula, mas as feministas são capazes de não achar muita piada a isto.

Apesar do final apocalíptico (ou a prenunciar um fim do mundo), “Tóquio Estremece” é o mais anódino dos três episódios. Um hikikomori — um homem que decidiu cortar com qualquer contacto social e não sai de casa há dez anos — apaixona-se por uma entregadora de pizzas durante um terramoto. Por ela, resolve-se a sair de casa, para descobrir que é o único que resta nas ruas. Lá acaba por dar com ela, também fechada em casa e para o amor. Mais duas réplicas do terramoto e o mundo está prestes a desabar, sem que o espectador sinta a mais leve tremideira.

Refira-se que um dos problemas de “Tóquio Estremece” é ter de seguir o magnífico regresso de Leos Carax ao cinema, nove anos depois de “Pola X” (Tóquio! é de 2008). “Merde” é um filme raivoso e (auto)destrutivo, quase se diria tão terrorista como o seu protagonista. O senhor Merda (brilhante Denis Lavant) é uma espécie de duende — veste de verde, a barba ruiva contorce-se para o lado, o olho branco fita com desprezo, cheira mal, come flores e fala uma língua feita de estalidos e estaladas que só duas ou três outras pessoas conhecem — que se especializou em aterrorizar as ruas da capital japonesa: rouba muletas, lambe meninas, cospe em bebés. Criatura do submundo, partilha os esgotos com as relíquias de um passado bélico que o Japão quer esconder — tanques, granadas, bandeiras imperiais.

Numa das suas incursões à superfície, o senhor Merda diverte-se a lançar umas granadas aleatoriamente sobre a população, matando uns quantos. As autoridades japonesas aprontam-se a apanhá-lo. Durante o seu julgamento, Merda explica, no seu linguajar, que não gosta de japoneses, porque os seus olhos parecem vaginas. Quando lhe respondem que não é propriamente um paradigma de beleza, amua, ofendido, que a mãe lhe dizia que ela era muito bonito. Mais tarde, o advogado de acusação interroga-o porque matou ele gente inocente. Merda responde: “Eu não gosto de gente inocente!” Carax também não, suspeita-se. O certo é que, no final desta obra maldosa e sem remorsos, tem-se menos nojo de Merda do que dos noticiários e dos juízes.

Vale a pena ir ao cinema só para ver a grandessíssima merda que Carax fez.



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