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Tournée – Em Digressão

Tour de force.

Mathieu Almaric é uma das caras mais reconhecíveis do cinema francês e ultimamente até tem frequentado algumas grandes produções americanas (interpretou o vilão de “007 – Quantum of Solace”), no entanto não se lhe augura o destino de Jean Reno, de ser o francês de serviço em Hollywood. E Almaric parece determinado em não cair nessa esparrela: tem prosseguido a sua carreira em França e recebeu, no ano passado, o prémio de realização em Cannes por “Tournée – Em Digressão”, a sua quarta longa-metragem. O que é tanto mais interessante quando é a sua interpretação que impressiona; é um verdadeiro tour de force.

Joachim Zand, o empresário que traz as strippers rubensianas do New Burlesque americano às cidades costeiras da França — tendo Paris como meta, o que se revelará complicado —, era para ser interpretado pelo produtor Paulo Branco, no qual é baseado. A coisa não resultou, e o realizador tomou o papel de actor, conservando o bigode em homenagem ao português. Pouco interessa se a personagem lembra muito ou pouco Paulo Branco (eu não saberia dizê-lo), o que importa é a estupenda interpretação de Almaric: maior do que a vida, cruel, ternurento, colérico, irascível, controlador, pai ausente, pequeno vigarista, grande sonhador.

A insone vertigem de Zand toma de tal forma conta de tudo que ofusca as outras estrelas do filme: as bailarinas do burlesco, donas do seu nariz, nada interessadas em interferências de machos latinos (que interpretam os seus próprios papeis), e, entre elas, Mimi Le Meaux, que acaba por ser a outra protagonista do filme, com um passado triste que a faz chorar e tão perdida neste mundo como Zand (perdição que se figura quando os dois andam de carro e não sabem onde estão).

A realização dificilmente escapará a comparações com John Cassavetes (principalmente ao de “A Morte de um Apostador Chinês”) — a mesma câmara nervosa, a mesma câmara feérica quando filma os espectáculos de strip-tease (como o número do balão), as mesmas personagens à beira de um ataque de nervos (o mundo de “Tournée – Em Digressão” encerra uma agressividade sempre pronta a rebentar) — como também não deixará de lembrar os irmãos Safdie (outros herdeiros de Cassavetes), especialmente quando entram os filhos em cena.

De ressalvar, por último, o belíssimo momento em que a luz do sol penetra por entre as cortinas de um quarto de um hotel fechado para férias e choram-se lágrimas de alívio, de descanso, de tristeza finalmente. Se o realizador Alamaric agrada mas não entusiasma, o actor Almaric (assim como o resto da trupe) tem uma vitalidade que compensa quaisquer falhas.



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