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Transacções

De David Williamson e encenação de João Reis. No Teatro Maria Matos.

Fomos no passado dia 6 de Março ao ensaio de imprensa da peça Transacções no Teatro Maria Matos onde também entrevistámos o encenador João Reis e a protagonista Catarina Furtado. O texto é do australiano David Williamson.

João Reis explicou-nos o porquê da escolha deste texto: “Eu andava com a Catarina à procura de textos para 2 ou 3 actores, por questões financeiras, porque éramos os únicos produtores e depois surgiu um convite do Diogo (Infante) na altura em que era Director do Maria Matos para podermos fazer aqui uma encenação. Este foi um dos textos que nos passou pelas mãos, e portanto alargou-se a possibilidade de fazermos um texto com mais actores. Este texto adequava-se àquilo que era a linha de programação do Diogo aqui no Maria Matos e acabou por ficar”.

A peça inicia-se num ambiente hostil entre sons e burburinhos ao mesmo tempo que chegam as personagens, misteriosas, sofisticadamente vestidas, que premeditam algo misterioso por desvendar, e ver. No fundo, um enorme mupi vai exibindo telas que ao longo da peça mudam os seus tons e traços.

David Truscott é um milionário americano, em processo de divórcio, e pretende desfazer-se de um quadro de Pollock. Loren, segundo Catarina Furtado que a interpreta, “é uma mulher que gosta de arte e deve ter crescido a frequentar museus. Não é uma conhecedora de arte mas é uma admiradora que gosta de olhar aquilo que ela acha que é belo”. Loren é a marchand que vai vender esse quadro, num processo que nos desvenda as várias máscaras da obsessão humana pela ascensão social e material, sendo estes os temas que mais impressionaram João Reis na descoberta do texto – explicou-  “gostei de alguns temas que se falam, o poder do dinheiro, ambição desmesurada, ganância, o preconceito. Claro que isto, sendo uma comédia ao jeito americano, que é um tipo que nós nem estamos habituados a ver nem a fazer, as coisas são mais exageradas e empoladas, mas estes foram sobretudo os temas que me interessaram.”.

A obra de Pollock (“lavender mist”) vai ser alvo de várias licitações por parte das personagens que num crescendo vão subtilmente, através de gestos, olhares e palavras, revelando a bizarria das suas vidas excessivas e a degradação das relações sustentadas pelo luxo. João Reis acrescenta, “agradou-me a ideia de que as personagens se vão desagregando e esvaziando ao longo do espectáculo, assim como a ideia de jogar com o efeito de contaminação de objectos cénicos”.

Personagens à bout de suffle mas que estão cheias de dinheiro para desperdiçar. Também Loren acompanha esse crescendo, caindo num desfiladeiro de ganância e cegueira material, tudo pelo seu status, e por 20 milhões de dólares.

“Loren, é uma mulher ambiciosa que, apesar de ter esta admiração pela arte, acaba por se trair a si própria porque utiliza a arte como um isco para poder dar um grande salto, que ela acha que poderá ser o seu grande alto de qualidade de vida em termos materiais e financeiros. Tem uma capacidade muito grande de manipulação, e ao mesmo tempo tem, o que pode ser contraditório nesta ambição desmesurada, uma grande ingenuidade porque ela acredita nos seus planos, nas suas estratégias.” descreveu-nos a actriz Catarina Furtado.

Os desdobramentos e revelações das personagens são-nos mostrados através de uma composição coesa por parte dos actores e da encenação, que nos fixam desesperadamente à trama até que se observe quem deles vai explodir e quem deles fica com a obra. Sobre esse desdobramento conta-nos Catarina Furtado que “Estar com a Loren nesta hora e meia de vida dela, é interessante porque ela tem que se desdobrar entre: a Loren genuína junto do Gerry, que eu acredito que seja verdadeira e onda mostra o seu lado mais ingénuo e crente; e uma Loren que faz teatro junto dos diferentes potenciais clientes e que são todos muito diferentes e ela tem que saber fazer um jogo de cintura e ter os argumentos certos.”

Acerca da possibilidade de uma extrapolação deste tipo de transacções ao nível nacional, explica-nos João Reis que: “É óbvio que isto pertence a um universo muito particular e eu não faço ideia de como funciona o mercado da arte em Nova Iorque, mas tendo em conta as pessoas com quem falámos, um amigo nosso por exemplo, que trabalha no Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa) disse-nos que os valores que se falam aqui são bastante inflacionados e o mercado de arte em Nova Iorque não tem nada a ver com o Português como deve calcular. Mas este tipo de pessoas que estão dispostas a tudo para subir na vida, pessoas que compram arte como fonte de investimento, o que é perfeitamente legítimo, também as há cá, pessoas grosseiras, pessoas que a troco de coisas como aquelas a que assistimos na peça fazem tudo. É óbvio que, sendo isto uma comédia, tudo aparece mais exagerado e empolado”.

É um espectáculo que garante um perfeito suspense e que muito diz sobre as obsessões actuais do ser humano moderno, onde só o dinheiro faz sentido, e onde sem ele nada existe, nem a arte.

A “transaccionar” de 12 de Março a 3 de Maio de 2009 no Teatro Maria Matos.



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