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“Três Homens Sós”

O Zorro canta bem que se farta!

André Murraças trouxe para os palcos argumentos de cinema, subvertendo a normal sequência de acontecimentos “menino escreve livro; Produtor lê livro e gosta; livro passa a filme”. Sem grande movimento de actores, com um cenário que se metamorfiza como se estivessem as paredes de contraplacado a acompanhar a acção e a desviar-se dos actores, à medida que os seus corpos lho pediam. Um cenário que lá estava apenas como moldura. O esquema de luzes é meticuloso, já a escolha musical exige alguma ginástica mental. Suzana Borges, Anabela Brígida, Vítor d’Andrade e André Patricío estão ali para contar uma história: sem grandes artifícios, com o minimalismo exigido pela tarefa de condensar três filmes numa peça de menos de duas horas.

Senti que tinha entrado num livro, tal era a forma elegantíssima como eram narradas as três histórias. Em contrapartida, a organização visual, o sentido de timing, o destaque prestado pela iluminação minuciosa… Estava numa sala de cinema!… Só faltaram os créditos no final.

Três homens sós protagonizam três curtas histórias de crime e amor. São eles Carter, John e Julian. Sós, não sozinhos! Cada um está rodeado de pessoas que os desejam… uns mais, outros menos.

Em cada uma das histórias temos uma linha de acontecimentos semelhante, através da qual uma mulher (uma Femme Fatale típica do Film Noir) conduz o protagonista masculino a envolver-se num crime apenas para depois o resgatar ou reabilitar emocionalmente, directa ou indirectamente. Estes homens sós, nada mais são que tentativas frustradas de distância emocional, excepcionalmente filmadas por Paul Schrader e correctamente traduzidas para o palco por André Murraças.

A organização “O Acompanhante – Perigo Incerto – American Gigolo” foi estabelecida com atenção ao público: a primeira adoça o paladar e incute uma curiosidade necessária; a segunda prima pela tragédia da perda de uma paixão; a terceira deixa-nos numa nota mais leve, mais cómica. É declaradamente na terceira parte que a companhia se despede com toda a dinâmica de que sabe o que faz.

A peça é, em si, intemporal: se nas últimas duas partes é indiferente, na primeira torna-se necessária a colocação da narrativa num contexto temporal… Lamentavelmente, não considerei que fosse claro.

Temos quatro pessoas em palco, ao todo. As personagens contadas em cada história ultrapassam este número, várias vezes, mas é feita uma inteligente distinção entre ferramentas da narrativa e personagens acessórias… As personagens acessórias (gostei do termo!), revezam-se de máscara e smoking… é uma boa ideia para poupar em figurinos e transmite a ideia correcta: a estes prestamos atenção, estes são acessórios…!

Vou aproveitar para eleger um personagem preferido: o detective que investiga a morte de uma das clientes de Julian, o American Gigolo. Fez-me rir só com um movimento de cabeça.

Termino com um conselho: retirem todo o vosso dinheiro dos bancos onde o têm e guardem-no na Culturgest. Ladrão que ali entre até pode conseguir chegar ao dinheiro… mas vê-se aflito para sair do edifício! OK! A minha bússola interna já se avariou há muito tempo e ainda não instalei o GPS… Mas, caramba! Os senhores da CGD podiam mandar imprimir croquis no verso dos bilhetes… Só uma sugestão.



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