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TRIBALISTAS EM PORTUGAL

Uma galáxia tribal

Foi no passado domingo que a Altice Arena se encheu para assistir ao concerto do tão esperado regresso dos Tribalistas. Depois de uma espera de quinze anos Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte voltam a compor em trio, presenteando os fãs com novas músicas. A tour começou no Brasil, onde tiveram um encontro emocionante com os fãs e passou por Portugal. Em Lisboa, o pavilhão encheu-se de luzes para ilustrar o encore da banda.

O desejo de se reunirem já era ansiado pelos três elementos do grupo, mas não o conseguiram realizar até o ano passado. Queriam muito estender a união deles à união com o público e mais uma vez tornar as músicas deles de “todo o mundo”, como afirmou Marisa Monte em conferência. Porém, só em 2017 é que conseguiram fazer uma pausa na carreira de cada um para se voltarem a focar neste projecto. Questões como a escolha do repertório e da imagem que iriam transmitir em concertos, nos cartazes e no álbum, exigiram-lhes essa pausa. Depois de mais de uma década muita coisa mudou e este trio acabou por criar sobre aquilo que viveram, aquilo que se vive e sobre aquilo que são. O modo de ver o mundo é diferente do de há quinze anos atrás. Em 2002 a perspectiva era positiva, era de esperança e hoje, apesar de continuarem positivos, também reflectem sobre o caos dos infortunados. Isso entende-se, por exemplo, na música “Diáspora”, que acredito ter provocado uma onda de arrepios entre o público que teve a oportunidade de os ver tocar ao vivo. Esta canção traz uma marca diferente a este segundo trabalho dos Tribalistas, traz uma visão sobre um problema grave pela qual a humanidade tem passado nos últimos anos – a questão dos refugiados – tornando-se assim num manifesto melódico que dá voz a tantas pessoas que fugiram em busca de um lugar melhor. Não puderam ser indiferentes a este tema, uma vez que o país deles é também um país de emigrantes. Trata-se de uma canção que revela um encontro com a natureza humana e que transparece a crença do tribalismo de que um dia as fronteiras que separam nações e nacionalidades valham menos do que a própria humanidade.

Mas nem só de diferenças se faz o segundo álbum homónimo da banda brasileira. Aliás, Arnaldo Antunes confessa ter ficado surpreendido com a forma como as músicas novas mantiveram a mesma sonoridade, como se se tivesse mantido uma certa magia que faz com que a identidade dos Tribalistas permaneça inabalável. Marisa Monte vê este novo trabalho como uma 2.ª edição do 1.º álbum, mas noutro momento. Quem ouve a música “Aliança” é como se estivesse a ouvir uma espécie de evolução da música “Velha Infância”. Em ambos os trabalhos estiveram  sempre juntos na criação e com uma fórmula experimental. Portanto, a expectativa sobre este regresso é simples: serem felizes. Para eles o sucesso está na possibilidade de poderem realizar algo. Eles acreditam que os que os junta é a música e não nenhum tipo de pressão comercial para continuarem a trabalhar em trio. Não existe receita para o sucesso, pelo que eles procuram simplesmente desfrutar do trabalho em conjunto e é a partir daí, desse gosto por trabalharem em grupo, que conseguem contaminar o público.

Juntos, chegam a ter cinquenta e seis músicas incluindo as cerca de vinte três que compõem os dois álbuns. Mas apenas algumas fizeram parte do concerto, juntamente com músicas que foram gravadas ainda antes de serem conhecidos como Tribalistas como “Amor I Love You”, e entre os dois álbuns como “Vilarejo” ou “Infinito Particular”. Músicas que nem sempre são associadas aos três, mas que fazem parte da obra do trio.

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O projecto Tribalistas surgiu de modo tão espontâneo que nem os próprios se lembram de como tudo começou. E no fundo, é isso que os define: a espontaneidade. O tribalismo deles é algo tão natural e livre que não se prende a quaisquer interesses alheios. Carlinhos Brown não sabe como surgiram enquanto colectivo musical, mas lembra-se do momento: “O tribalista nasceu num momento em que o nosso país se apresentava ao mundo como discurso elevado, de uma economia crescente, de que tudo mudaria.” E diz também “o que nos cabe é aprender com os melhores momentos do mundo”. A cumplicidade, o respeito e o amor que existe entre eles fala por si só da forma como as diferenças podem ser complementares. A fadista portuguesa Carminho, vem acrescentar um pouco de complementaridade ao novo álbum, através das músicas “Peixinhos” e “Trabalivre”. Foi tão bem recebida pelo tribalismo que até foi apelidada de Carminho Brown.

É bastante comum no universo da MPB (Música Popular Brasileira) haver encontros de artistas, como Elis Regina e Tom Jobim ou Caetano Veloso e Maria Gadú. Os Tribalistas não são mais do que um encontro de artistas que não é premeditado, pelo que não é previsível que tenha uma continuidade. Nenhum dos álbuns foi programado. Encontraram-se, criaram e sentiram necessidade de gravarem juntos. Novamente conseguiram criar um conjunto de canções e decidiram regressar como Tribalistas. A fluência orgânica da criação acaba por ser o resultado do apreço que cada um tem pelo trabalho dos outros. É a música que os reúne quando é possível, uma vez que moram em estados diferentes do Brasil. Por isso, a probabilidade de nos presentearem com um 3.º álbum não é certa, o que torna este encontro numa espécie de promoção 3 em 1. Pelo preço de um concerto vêm três artistas ao mesmo tempo!

Em palco é notável a cumplicidade musical entre os três. Eles têm a capacidade de emanar uma força que só se manifesta quando se apresentam juntos.  E as criações deste tribalismo tem a capacidade de nos transportar para outra dimensão, de nos deixar apaixonados mesmo sem estarmos, de plantar a compaixão nos nossos corações e de perceber que o que realmente importa é apenas ser o que se é.

Para além de Lisboa, Porto e mais algumas cidades da Europa, os Tribalistas vão também passar por algumas cidades da América Latina e pelos E.U.A., espalhando o ideal de que a união faz a força e de que todos não somos mais do que Um Só.

 

Fotos de Rafael Cornélio.



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